Canção do dia

“If I Took Your Hand…” – Fire!

O título antevê-o, o carácter demonstrativo da faixa, um brando puxar de mão a desvendar qualquer coisa, um “anda cá ver isto”; no fundo, actividade lúdica, pessoalmente orientada. É Mats Gustafsson quem convida o ouvinte a andar ver aquilo, e aquilo é o crepitar bélico do free jazz em forma quintessencial. “Anda daí, ouvinte; não tenhas medo”, que as rédeas se seguram pelo contrabaixo inusitado, e que a bateria conserva um militarismo desarmante, e que o ritmo está de boa saúde e se recomenda. “Não te assustes com a confusão, ouvinte”, que é tudo fogo de vista, uma inflacção e uma deflacção do som e do tempo pela entropia folegada do saxofone, “isto passa”, são só estes momentos de hostilidade; “não fazem mal, as perturbações”, diz enquanto ao gemido do sopro se interpolam as extras sístoles da percussão e o tempo atrasa, e recupera, e atrasa, e recupera. “Vês, caro ouvinte, já passou”, remata Gustafsson no final, ignorando que nada há para rematar, porquanto nada ainda terminou: a elipse do caos reitera-se, a faixa estava em repeat, e ao ouvinte flameja o olhar cobiçoso dos detalhes de “If I Took Your Hand…”, uma vez, e outra vez, e outra…