Há concertos bons, há concertos memoráveis, e depois há concertos que se tornam rito. O das duas duplas Heinali & Andriana Yaroslava Saienko e Arianna Casellas y Kauê foi um deles.
Não sou uma pessoa religiosa, mas há uma expressão que sempre ficou comigo: “corações ao alto” (sursum corda, em latim). Costuma ser proferida durante a missa católica, como um “chamamento para a oração e para animar os fiéis, que geralmente respondem: “O nosso coração está em Deus”.
Há concertos que se vivem tanto com o corpo, como com a alma – este foi um deles. A noite proporcionou-nos um momento de comunhão entre o sagrado e mundano, da qual, sendo muito sincera, não estava à espera (as melhores coisas da vida são assim mesmo, não é?). Percorrer o caminho empedrado do Cemitério dos Ingleses (Estrela, Lisboa), à noite, poderia provocar medo ou a sensação de estar dentro de um filme de terror, já que tanto de um lado, como de outro, estamos cercados de lápides. Mas não, as lápides e campas que povoam este jardim são demasiado bonitas para provocar qualquer sentimento que não seja pura tranquilidade.
Acompanhados por uma neblina envolvente, chegamos à Igreja de St. George. Por fora, é bastante discreta e não nos prepara para a maravilha que é por dentro. O seu interior, iluminado por tons alaranjados e envolta numa serenidade quase irreal, a escolha deste local foi sublime para os concertos que se seguiriam.
Concerto esgotado há já semanas, o público encheu o espaço e foi-se acomodando nos bancos da igreja, aguardando pela primeira parte, Arianna Casellas e Kauê. Quando se fez silêncio, começou a ouvir-se uma voz vinda lá bem do fundo. Olhando para trás, ouvimos a voz desarmante de Arianna Casellas (venezuelana, neta de avô português) percorrendo a igreja, seguida de Kauê (brasileiro) e a sua guitarra acústica com alguns triângulos presos por cordel.
A dupla, que lançou o álbum Suenan Las Campanas em 2024, começou o concerto com uma simplicidade encantadora. A banda tocou principalmente temas do seu álbum, mas também músicas novas inspiradas em “cantares inventados por nós”, numa harmonia terna e calorosa. Casellas, que nos interlúdios nos contou histórias num português misturado com espanhol, apresentou uma delicadeza que quase contrapõe com a voz forte e assertiva que sai quando canta. Com temas como a urgência de uma revolução e como canções de amor podem ser impulsionadores, prevaleceu um sentimento de impotência, aliado a uma réstia de esperança, como “uma miragem de um oásis no deserto”. Enquanto isso, Kauê foi trocando de instrumentos como tambores, guitarra e quitiplás (uma espécie de tubos de bambu, de origem afro venezuelana), sem nunca perder o ritmo. Entre as histórias, os risos e as canções, sentimos que o palco (altar da igreja) foi partilhado intimamente com o público, não necessariamente como uma performance para quem assiste, mas como uma comunhão recíproca. Foi um concerto próximo, humano e inspirador.
Mais tarde, a igreja escureceu, ficando apenas uma pequena luz azul a refletir o altar, com um nevoeiro a surgir do palco. Como som de fundo, a par do burburinho habitual de pessoas à espera, ouvimos sintetizadores modelares baixinhos. No meio do palco, por entre a luz azul e o nevoeiro, surgem Heinali & Andriana Yaroslava Saienko e entramos oficialmente na segunda parte desta noite.
Dupla de artistas ucranianos, cujo “trabalho prolonga a tradição da música medieval ocidental através da síntese modular” e cuja música se “inspira na herança vocal autêntica ucraniana” (bandcamp dos artistas), revelaram uma simbiose perfeita entre som e espaço, dando um concerto arrebatador. Os sintetizadores modelares de Heinali anunciaram um outro tipo de oração, feita não de palavras, mas de vibrações. A voz de Adrianna, etérea, flutuou com a neblina no ar, enquanto o som foi crescendo, crescendo, até quase rebentar. Os nossos corpos sentiram: nos pés, nas mãos, no peito. Foi uma catarse elétrica, colectiva, uma experiência tanto física, como espiritual.
Durante o que pareceu ser horas, mas na verdade foram vinte minutos, o tempo pareceu suspenso. O som pulsou como um coração, talvez o da própria igreja, talvez o dos que a habitavam ainda. O público, até então contido, finalmente libertou-se em aplausos maravilhados.
Há concertos bons, há concertos memoráveis, e depois há concertos que se tornam rito. Este foi um deles. Entre a ternura revolucionária de Arianna Casellas e Kauê, e a transcendência sonora de Heinali e Andriana Yaroslava Saienko, entre os quitiplás e o sintetizador, entre o riso e o arrepio, ficou a sensação rara de termos assistido a algo verdadeiramente sagrado. Corações ao alto, de facto.
Fotografias gentilmente cedidas por Vera Marmelo













