Numa noite fria e húmida, Gisela Mabel levou-nos calor, conforto e doçura ao Sótão da Casa Capitão!
E menos de uma semana depois, regresso à Casa Capitão. Aparentemente o cenário mudou radicalmente daquele que encontrei na Festa de Abertura: A Gabrielle trouxe vento e chuva e o público que vai chegando para os concertos de Gisela Mabel (no sótão) e de Esteves sem Metafísica (no Rés do Chão) vai-se abrigando à volta do bar e da receção. No entanto, ao subir à intimista sala do segundo andar, sinto que o espírito se mantém, a vontade de fazer e dar a conhecer continua lá de mãos dadas com as ganas de ouvir, sentir e bailar. A sala enche e recebe Gisela Mabel de sorrisos e braços bem abertos.
A pianista, compositora e produtora luso-angolana, traz consigo um belo Álbum de Retratos, editado há pouco mais de um ano. Para além de estar a suscitar a atenção e os devidos elogios da imprensa (generalista e especializada), este seu primeiro registo de longa duração mereceu mesmo a atribuição do prémio de Melhor Álbum de Jazz do Ano nos SoloPiano Awards, uma competição internacional dedicada à música para piano solo.
Assim que Gisela se senta ao piano, e depois da primeira de muitas ovações, a maioria do público imita-a, sentando-se no chão, a postos para receber a música e as vibrações do piano de Gisela e do violoncelo de Bruna Maia De Moura. A sonoridade das composições da pianista nascida no Algarve (e baseada em Lisboa) vai beber tanto à clássica quanto ao jazz e ganha um particular empolgamento quando mergulha na latitude até ritmos e envolvências mais tropicais, com destaque para o esplêndido “Choro Africano”. O Violoncelo de Bruna carrega lindos sublinhados à melodia e sobretudo, ainda mais textura às passagens mais jazzísticas e ritmadas.
Posso até sentir o rigor, e alguma “austeridade” que leigos como eu associam à música clássica e à erudição, mas consigo sentir ainda mais o calor dos graves e a envolvência de Gisela Mabel, na forma como balança o corpo ou como transforma as suas feições e como vai acrescentando vocalizações que trazem à memória o famoso concerto de Colónia de Keith Jarrett, só que em doce … como doce foi esta noite!
Fotografias: Rui Gato
















