Seis horas de autocarro, de Lisboa a Mêda, calor, uma tenda, batatas mal cozidas e muitos mosquitos. Mas para deixar o corpo voar, dançar e cambalhotar, ah… tudo vale a pena.
Afantasia
(a.fan.ta.sia)
- também referida como uma “mente cega”, é uma condição mental caracterizada pela incapacidade de visualizar voluntariamente imagens mentais. Muitas pessoas com afantasia também relatam uma incapacidade de recordar sons (músicas e vozes), cheiros ou sensações de toque.
Sei que não tenho afantasia. Quando me pedem para pensar numa maçã, vejo nitidamente este fruto na minha mente. No entanto, as memórias que guardo do Festival Mêda Mais não se refletem em imagens ou sons – música nunca será só isso. Música é sentimento. Foram três dias de concertos num Portugal rural, num Portugal esquecido, mas reanimado, por momentos, pela vivacidade dos jovens. E, talvez, por nos encontrarmos num aparente fim do mundo, toda a cidade se uniu. Não se celebrou só a música underground portuguesa. Talvez até tenha sido apenas o pretexto para nos juntar a todos naquela terra rodeada por montanhas verdejantes. Celebrou-se a amizade, os sorrisos, o cansaço, a intensidade, as lágrimas, os abraços. Celebrou-se o amor na sua forma mais pura e inocente.
Dia 01
A primeira atuação desta edição aconteceu no palco Pé em Triste, dentro do Parque Infantil do Jardim de Mêda. Na relva, à sombra de uma árvore, observei os mais novos a deslizarem pelo escorrega e os mais velhos sentados em bancos de madeira, imóveis, debatendo-se com o calor que só o interior português nos sabe entregar. Enquanto isto, deixei-me levar pelas canções etéreas e imersivas de Evaya. Uma artista que une dois mundos: um intenso, experimental, obscuro, presente nos sintetizadores; outro frágil, doce, delicado, proporcionado pela melodia da sua voz.
Pouco tempo depois, os 800 Gondomar, nome do autocarro que liga a freguesia de Rio Tinto à Baixa do Porto, subiu ao palco. Com a dinâmica veloz, selvagem e ruidosa do garage punk, a banda nortenha, composta por bateria, guitarra e baixo, deu uma performance tão arrebatadora, que será praticamente impossível sentirmo-nos indiferentes. No início do concerto, o baterista contou-nos que o carro da banda tinha ficado sem travões no caminho, propondo-nos uma analogia com o que iríamos vir a experienciar. A energia eletrizante tomou conta de mim em temas como “Coração”, “Poppers Paraíso”, “Sexta-À-Noite Com O Monstro” e, principalmente, em “Faz o Flip”, onde o guitarrista cambalhotou por cima das mãos do público. Na minha predileta, “Mataram o Fábio”, a barreira entre músicos e público foi quebrada. Afinal, somos todos corpos. “Porto é um sentimento”, dizia a escritora Agustina Bessa-Luís. De facto, 800 Gondomar fizeram-se sentir. E, sem travões, não foi pouco.
Quando saí da minha tenda, depois de uma longa sesta, apenas a imensidão de estrelas reluzentes no céu escuro me fornecia luz. Era hora de assistir aos hipnóticos Máquina. Tanto o guitarrista, como o baixista e o baterista têm as suas próprias formas particulares de se exprimir em palco. O improviso do krautrock e a repetição do punk techno é de chorar por mais. Mas não é apenas isto que torna Halison, Tomás e João uma banda tão única. É a capacidade de nos eletrizar, de nos fazer delirar. Comecei a sangrar do lábio a meio do concerto, não sei se devido a uma cotovelada nas muitas moshpits ou se foi uma forma do meu corpo expressar a violência da experiência estonteante com que me deparava. Foi o meu terceiro concerto dos Máquina e foi o único em que senti distância entre a banda e o público. Um palco altíssimo, barreiras metálicas e seguranças soaram-me desnecessárias. Porém, como não podia deixar de ser, para quebrar a frustrante distância, a última música foi tocada com o guitarrista dentro do público. Máquina não é apenas mais uma banda. São um culto que nos faz suar, vibrar e sonhar.
Ainda a sonhar, aterrei, de novo, na minha tenda. Desta vez, não prestei atenção às estrelas. Estava focada no sentimento que este dia, demasiadamente bonito, me tinha trazido.
Dia 02
O único concerto que vi na totalidade no segundo dia foi o duo de pop eletrónico Girls96. O charme da vocalista Paloma Moniz é, sem sombra de dúvida, o ponto central dos concertos da banda. Com a sua voz despreocupada e com as suas ancas sensuais, canta sobre indiferença, raiva, obsessão. A postura um tanto constrangedora de Ricardo (sintetizadores) realça a insegurança presente nas músicas. Passando de momentos suaves (“Estrela Superstar” e “Circos”), para ritmos mais pulsantes (“Ficas no chão” e “Ainda Importa”), continuo a acreditar, tal como a primeira vez que os vi no Musicbox, que falta algo. Ainda não percebi o que é esse “algo”, mas sei que a falta de confiança e a falta de presença em palco não os favorece de todo.
Quando a noite já se havia instalado, escutei os minutos finais das letras fáceis e batidas pouco originais da banda indie pop Bombazine. Não lamentei não ter assistido ao concerto no seu todo.
Para terminar o dia, o nome que se seguiu foi a banda sintrense Them Flying Monkeys. Não conhecia nenhuma música, apenas sabia que iria assistir a um rock alternativo, cru e eletrónico. Soou-me bem, até os membros subirem ao palco. Cada um deles demonstrava estar tão embrenhado em encarnar uma personagem rockstar que a presença deles tornou-se um tanto constrangedora. O esforço excessivo, a imitação da música das bandas pioneiras do rock e o cansaço que já dominava o meu corpo fizeram-me deixar o concerto antes deste ter terminado. Mais uma vez, não lamentei. Já só sentia o entusiasmo e a ânsia do concerto que iria assistir no dia seguinte.
Dia 03
No último dia, já reinava o ar pesado com sabor a despedida. Contudo, em vez de me render antecipadamente à melancolia, concentrei-me em usufruir do concerto que tanto ansiava desde março. Conferência Inferno foi tudo aquilo que imaginava e um pouco mais. O efeito que a voz de Francisco Lima provoca, faz-nos dar pontapés e socos no ar, porque, no meio do transe, acreditamos que arranca o que há de mais visceral em nós. Um concerto que desde o primeiro segundo se fez sentir, mas que atingiu o seu apogeu quando nenhum corpo cedeu a saltar e gritar que “O teu deus é ateu e o meu já morreu” (“Apocalipse”). Estávamos todos de tal forma rendidos, que o deus ateu ouviu as nossas preces e tivemos direito ao único encore que foi permitido no festival.
“Eu nunca mais resistirei, jamais esquecerei”, cantei a determinado momento, no concerto dos Conferência Inferno, enquanto uma camada de névoa tomava conta da minha visão. O Festival Mêda Mais é especial. Não é apenas uma imagem, um som, um festival. Disso, facilmente se esquece. Mêda é daqueles amores que entram dentro de nós e raramente voltam a sair. E, desses amores, dificilmente se esquece.
fantástico!!! escreves de uma maneira tão expressiva… sinto que estive lá contigo como tanto gostava de ter estado!!
muitos parabéns e NÃO PARES, MIÚDA!!!