O Musicbox foi a segunda casa para um número gigantesco de fãs de música … e foi exactamente esse universo infinito que quis dar as boas vindas à Casa Capitão! E já agora espreitar todos os novos cantinhos e ouvir muita e boa música! Foi bonita a festa? Claro … e agora queremos (ainda) mais!
Depois de chorado e devidamente homenageado o nosso Musicbox, chegou finalmente o momento de conhecer a Casa Capitão e de marcar presença na sua magnífica Festa de Abertura. Três dias de palestras, DjSets, artes visuais, atividades para crianças, literatura, comes e bebes, convívio, diversidade e claro, música … muita música!
A ideia que alicerça a nova Casa Capitão é, sem dúvida, ambiciosa. Para além de uma sala de concertos maior que a do Musicbox, temos agora uma outra mais pequena (no sótão), um restaurante-bar (a “Mesa”) – que é ao mesmo tempo “Quiosque” onde poderemos comprar livros e assistir às mais diversas iniciativas de índole cultural – um terraço enorme, com uma esplanada enorme e mais espaço para comes, bebes e conversas … e ainda haveremos de poder ver a cave, destinada a residências artísticas. Parece demasiado bom para ser verdade, … uma bela prenda para a vida cultural da cidade (e do país), em que me parece que todos aqueles que, como nós, que valorizam a cultura, e a música em particular, teremos que fazer a nossa parte para que tudo corra como queremos. A festa foi só o princípio.
Das dezenas de propostas que constavam do programa de abertura, o vosso repórter privilegiou, como não poderia deixar de ser, a música. Segue, portanto, um breve relato do que puder ver, ouvir e sentir de sexta a domingo no número 19 da Rua do Grilo.
Cheguei cedo na sexta, para dar a primeira vista de olhos ao espaço e beber uma cerveja na esplanada, banhado pela luz do sol e pelos sons tropicais saídos da mesa de Diadorim, DJ de origem brasileira e residência portuguesa que para além de se dedicar à produção musical, também toca uma miríade de instrumentos e organiza a Despeita – com o objetivo de angariar fundos para cirurgias de afirmação de género de pessoas trans.
Vamos lá então espreitar o Sótão, uma sala pequena e acolhedora perfeita para concertos mais intimistas, mais calmos … ou, nem por isso, como foi o caso dos Hause Plants, que tiveram a honra de inaugurar o espaço! Para além de estar muito entusiasmado por os poder ver pela primeira vez, estava ainda curioso para confirmar se, depois do último EP Não sou de cá, editado no ano passado, os House Plants estariam a seguir as pisadas dos Glockenwise na transição para a língua portuguesa. Não foi, e não deverá ser, o caso. Não só o alinhamento foi composto apenas por canções em inglês, como incluiu algumas malhas novas que o quarteto decidiu testar na noite de sexta. There’s no other way, como cantam os Blur e indiciam estas evidências, tudo o que pudemos fazer foi mesmo vê-los tocar e dançar freneticamente ao som do indie vibrante e rítmico dos Hause Plants.
De volta ao terraço, que a noite já tinha tomado, quem reinava, que nem Boss, era G Fema – aka Ana Maria Semedo – rapper da Zona M. Dona de um flow tão poderoso quanto a sua personalidade, G Fema animou a mole que se ia aglomerando na Casa Capitão. Provavelmente a maioria dos presentes estariam mais interessados na conversa ou em aguardar o concerto de Capicua (que se seguiria), mas as rimas em Crioulo Badiu e a musicalidade de G Fema foram progressivamente cativando os melómanos que a escutavam e canções como “Gheto” (com a trilha de “Ready or Not” dos saudosos Fugees), e principalmente “Cumi Cala Bu Boca” arrancaram dança e aplausos à altura do que tínhamos presenciado.
Sábado trouxe nova multidão à Rua do Grilo, a oportunidade de ver finalmente a nova sala de concertos principal (aparentemente bem mais espaçosa do que o Musicbox) e aquela que, para mim, era a jóia do cartaz da festa de abertura da Casa Capitão – o concerto de 4 das bandas do momento do universo alternativo nacional: as coqueluches Lesma, as referências Conferência Inferno e Vaiapraia e esse potento do underground bbb hairdryer. No início do ano já tinha tido a sorte de assistir a dois concertos fantásticos nas Damas – os bbb hairdryer no Duro de Roer e Vaiapraia e Lesma uns poucos dias depois! Nada, no entanto, me poderia ter preparado para o que pude viver na noite de sábado. Sim, não era o único cheio de pica para o evento! A sala encheu num piscar de olhos, e muitos terão ficado de fora, … mas mais do que os números, a noite valeu pelo entusiasmo arrebatador de um público que para além de dançar, saltar e moshar que nem gente grande, cantou de fio a pavio todas as letras com as bandas que subiram ao palco.
Desconfio que não também terei sido o único a ficar siderado por esta reação, dos olhos das três jovens que andam a criar furor por este país fora emanava um feixe de brilho ofuscante de surpresa, e também de orgulho mais do que merecido. “Maria”, “Eu sou uma (colher)” e claro, “Barreiro” iam deitando a casa (nova) a baixo. As Lesma estão aí para ficar, vejamos o que se segue! No sábado, no entanto, seguiram-se os Conferência Inferno e seguiu-se o breu, tanto literal quanto sónico. Ao contrário das Lesma, este trio não deixa dúvidas que vem do Porto e guarda as subtilezas para a forma como trabalha de forma coerente e personalizada as diferentes sensibilidades que tingem as suas composições – sobre o manto da eletrónica, entrelaçam-se punk, post punk, new wave e ambientes góticos … que resultam em manifestos capazes de fazer levantar os seres mais letárgicos. Em intensidade crescente, o alinhamento fez-nos passar por todos os registos da banda, lembrando a todos que já se deseja uma rodela nova oriunda da cidade invicta. “Apocalipse” (do EP de estreia Bazar Esotérico) fez jus ao nome e os alicerces do novo edifício voltaram a ser testados!
O cansaço acumulava-se, conjuntamente com a sede, a fome e a ressaca da também maldita nicotina … mas arriscar sair da fila da frente numa sala esgotada quando faltavam os autores dos meus dois discos nacionais preferidos do último ano é que nunca. Com a máquina super bem rodada na divulgação de Alegria Terminal, e com um público em crescente delírio, Vaiapraia deram um espetáculo de arromba. Todas as canções, das mais novas como “Eu quero Eu vou”, “Sing Along” ou o monstruoso “Ulucrudador” às que não poderiam faltar nunca (como “Sinos”), foram cantadas, gritadas e/ou choradas em uníssono numa festa onde lágrimas se misturaram com sorrisos e encostos frenéticos. Lindo! A parada estava alta, o palco voltava ao breu e um silêncio ansioso aguardava os bbb hairdryer até rebentar em excitação logo ao primeiro acorde das guitarras. Cada vez mais visceral, o som do quarteto liderado por Elisabete Guerra vai percorrendo vários andamentos, punk, noise, jazz e mesmo um pouco de sludge servidos a coração aberto e mente escancarada. A síntese de tudo isto poderá explicar ao certo o que quererá dizer “Satanic Trans Guitar Shit”! Na primeira fila, já passou o cansaço ou qualquer resquício de necessidade fisiológica, apenas um estado sideral de contentamento sónico!
Para tentar transportar para esta reportagem um pouco da diversidade da festa, e no fundo do projeto artístico da Casa Capitão, no domingo tentei aventurar-me por terrenos nunca por mim desbravados (mais vale tarde do que nunca) e voltei à sala principal, para uma Roda de Samba dinamizada pelo Colectivo Gira – um movimento de mulheres imigrantes com o objetivo de promover a cultura afro-brasileira. Desta vez sem palco, a antecipar o que se passará nas noites de clubbing, a sala continua como a deixei na noite anterior … cheia, cheia de público, cheia de sorrisos e cheia de gente a dançar. Os sons são outros, é certo, assim como serão outras as roupas ou as histórias de vida, mas ali em torno de uma mesa com comida e bebida estão sete mulheres e os seus instrumentos e em volta delas um conjunto de seres dançantes e resplandecentes. Que bonito!
Para terminar onde o fim de semana começou, voltei ao sótão para espreitar o pop de cariz electrónico e assumidamente popular de Sreya, que enquanto prepara um novo disco, decidiu deliciar os seus fãs com sucessos como “59 estrelas” e “Hospital do Amor”.
Foram três dias intensos para os melómanos que visitaram a Casa Capitão e sobretudo para a respetiva equipa que enquanto colocava a festa de pé ia atacando todos os retoques e acabamentos. Sente-se que ainda falta muito por fazer e ainda bem, porque não falo de obras ou afins … mas de música e vida! Até já, Capitão!


























































