No seu segundo e, provavelmente, último álbum, In Love Again, os Ex-Vöid mantêm o punk do primeiro disco como filtro para uma mescla de power pop e shoegaze em dez canções de pura delícia pop, capazes de contagiar qualquer fã de Teenage Fanclub ou Alex Chilton.
Formada em 2018, muitos anos após o fim dos excelentes Joanna Gruesome, a banda reúne Lan McArdle e Owen Williams — ambos nas vozes e guitarras — além de Laurie Foster no baixo e George Rothman na bateria.
O crescimento entre o primeiro álbum, Bigger Than Before (2022), e este é notável — sobretudo se “crescer” significa compor refrões viciantes, escrever riffs de guitarra que complementam na perfeição as melodias vocais e encontrar o equilíbrio ideal entre o ruído e a suavidade.
Owen menciona em entrevistas o quão fluidas são as decisões sobre se uma canção deve ficar para os Ex-Vöid ou para os The Tubs, sua outra banda, mas é possível reconhecer quando uma música poderia ter sido transplantada de um projecto para o outro. Acredito que isso se deve, em grande parte, ao jangliness das guitarras cheias de vibrato de Owen, fortemente influenciadas pelos The Byrds, Teenage Fanclub e Big Star — a mesma sonoridade que se tornou uma das marcas distintivas dos The Tubs. As guitarras alternam entre momentos de leveza e de ruído, sustentando as melodias vocais cantadas por Owen e Lan, em sua grande parte em estreita harmonia. Aqui nota-se uma diferença em relação ao primeiro álbum, onde a mistura das vozes faz com que a de Owen sirva de base para que a de Lan brilhe.
Quanto à arte da capa, infelizmente não há muito por onde investigar, mas é certo que existe um jogo intencional em fazer com que a imagem crua e punk ilustre um disco onde a viragem para o pop é tão marcante.
In Love Again, como o título sugere, constrói-se em torno das várias facetas do amor — desde aquele que se disfarça de obsessão, como em “Swansea”:
You are finally back in Swansea
And you have claimed
You have claimed
Claimed you’re still in love with me
But we both know, we both knowThat if you loved me you would still be back in England
On your own, on your own
And if you cared enough, you’d still be back in England
‘Cause it’s been ages, it’s been ages
A faixa que abre o álbum faz isso com perfeição. Começa com todo o ruído esperado dos Ex-Vöid, mas esse barulho inicial rapidamente fica em segundo plano quando entram as guitarras e as harmonias vocais — que, no entanto, nunca se dissipam por completo.
“In Love Again”, com os seus sucessivos estalos e investidas de guitarra, alternando entre momentos de calmaria e de pura beleza vocal, parece sugerir que, mesmo na dor e no caos, é possível voltar a apaixonar-se — e, assim, repetir o ciclo.
Se ainda não estás convencido pelo álbum, é em July que a sua direção se torna mais evidente. A canção apresenta um dos riffs de guitarra mais marcantes de Owen e um refrão que se fixa facilmente no cérebro. É mais um exemplo do ciclo de erros e acertos que percorre o disco, mas aqui a tristeza surge com um tom mais leve e quase brincalhão:
I never thought
That it could feel
Somehow even worse
Than the first time
But in my head
I know it’s the endI take it back
I don’t want this to be over
I take it back I know
I was the one who made it end
And if you’re hung on still
Forgive me for it all
You made me think this was over
You won’t have to take a smoker
Again
“Nightmare”, que vem em seguida, é uma das faixas mais lentas do álbum, uma canção pop em que toda a atenção recai sobre a voz de Lan, numa das interpretações mais belas do disco. Depois, “Pinhead” e “Lonely Girls” retomam a sujeira, o ruído e o shoegaze das guitarras. “Lonely Girls” é uma reinterpretação de uma canção de Lucinda Williams, e quando digo reinterpretação, quero mesmo dizer reinterpretação: a faixa foi desconstruída e distorcida até se tornar quase irreconhecível. Ainda assim, encaixa-se perfeitamente no álbum, como se, no ponto mais baixo das desilusões amorosas, alguém dissesse que sabe o que é estar só — e talvez seja assim que sempre será.
Não há uma única vez em que “Sara”, a faixa que abre o lado B, comece e não me arranque um sorriso, com o seu riff de guitarra barulhento e ao mesmo tempo melódico, acompanhado por um teclado que acrescenta peso, como no melhor dos Superchunk. Mesmo nos momentos mais leves da canção, a banda mantém uma energia latente, pronta para explodir.
A faixa que segue, “Strange Insinuation”, é para mim uma das melhores canções de 2025. Há algo nas suas passagens acústicas e nas transições para o peso das guitarras, aliado a melodias que parecem feitas na medida certa, sem excessos, que torna esta canção o ponto alto do álbum. Se este álbum não é sobre repetições não sei então o que é:
You know I’m still in love with Jesse
So much that it could kill me
In love with him foreverEvery time I look into your eyes
I feel that strange insinuation
E como o lado B é forte. A faixa seguinte, “Down The Drain”, é também de uma energia incomparável. Compacta, com um riff de guitarra à R.E.M. tão cativante que é impossível não querer ouvi-la repetidamente, esta é uma daquelas canções que poderia facilmente ser transplantada para um disco dos The Tubs.
Finalmente, para fechar o álbum, “Outline”, a música mais inesperada de todas. São três minutos e meio de belas harmonias vocais de Lan, acompanhadas por uma guitarra singela, e quando a banda finalmente entra, com o solo hipnótico de guitarra a surgir no final, percebe-se que, afinal, se estava a ouvir um hino.
Infelizmente, esta é, muito provavelmente, uma review póstuma, já que, não menos de dez meses após o lançamento, a banda anunciou o seu fim. Para os fãs de Joanna Gruesome e Ex-Vöid, resta-nos apenas aguardar o próximo capítulo do duo McArdle e Williams, que ao longo dos últimos 15 anos nos deu hits pop e agressivos, com muita, muita guitarra — e assim nos apaixonarmos novamente. In Love Again surge como um marco nessa evolução, mostrando como os elementos do passado — desde a intensidade de Joanna Gruesome até ao refinamento melódico dos Ex-Vöid — se fundem numa obra pop irresistível.