Blood Incantation e Author & Punisher protagonizam noite épica de metal extremo na capital, momento que permanecerá eternamente na alma de quem conseguiu lugar neste cosmo sónico.
Noite de sábado, ainda uma noite de outono amena e com uma temperatura a fazer inveja, era a bonança antes da tempestade que viria no dia seguinte. Os primeiros sinais disso mesmo, aconteceram nessa noite, na capital, com epicentro no Music Station. Eu explico.
Cheguei ao Music Station pouco depois de as portas estarem abertas ao público, mas a fila era já bem longa. A lotação estava esgotada há semanas e isso era bem percetível, os amantes de Death Metal correram em massa assim que souberam que um dos nomes mais sonantes desse movimento iriam regressar a Portugal. Mais um feito histórico da Amplificasom.
A primeira parte da noite esteve a cargo dos Author & Punisher, projeto do californiano Tristan Shone. Desenganem-se aqueles que este concerto seria apenas uma nota de rodapé desta noite, antes foi um concerto poderoso que surpreendeu muito daquele público faminto pelo caos. Tristan Shone leva o industrial bem a sério, já que para além do som metálico e destrutivo que produz, toda a parafernália de instrumentos mecânicos, criados por si ou não fosse ele também engenheiro mecânico, dão um enfâse maior a todo o seu conceito musical. A máquina é uma extensão do seu corpo que comanda e domina na perfeição cada movimento que se transforma em som. Em alguns momentos como que parece uma fundição onde a lava metálica são sons destrutivos e poderosos que consomem cada espaço vazio. Nocturnal Birding o último disco deste projeto, editado no início deste mês, foi o mote do concerto, mas houve para recordar temas mais antigos. Tristan fez-se, ainda, acompanhar do guitarrista Doug Sabolick que tornou um pouco mais mundano este projeto.
Mas, a julgar pela indumentária do público que lotava o Music Station, todos esperavam pelos mestres do Death Metal, Blood Incantation. Não há como contornar este facto. Assim que o quinteto aparece o frenesim instala-se, a tensão aumenta e o caos toma lugar na sala. Vamos ao que interessa, sem rodeios ou perdas de tempo e, assim, os Blood Incantation dão início às hostilidades e irão tocar na integra todo o último trabalho da banda, o aclamado Absolute Elsewhere editado há pouco mais de um ano. É sem qualquer dúvida um disco poderoso, que ao vivo ganha uma dimensão galáctica, transcende todas e quaisquer fronteiras, entre riffs demolidores, ritmos completamente loucos, alguns a uma velocidade humanamente impossível de reproduzir e ambientes mais transcendentais que nos fazem divagar por cenários imaginários e psicadélicos, tudo é interpretado na perfeição.
O público agradece e retribui a anergia, com danças imaginárias, crowdsurfing e braços no ar acompanhados com gritos de prazer. Tempo ainda para recuar no tempo e revisitar aquele que é considerado por muitos a obra-prima dos norte americanos, o álbum Hidden History Of The Human Race, de 2019, bem como o disco de 2016 Starspawn e o EP Luminescent Bridge de 2023. Que viajem esta, que momento, que noite de celebração caos, mas também da harmonia e virtuosismo sónico. Este concerto mostrou que os Blood Encantation são uma força inigualável, que a sua evolução enquanto banda e criadores de atmosferas, ora misteriosas ora demoníacas, tem sido estrutura e coesa, tornando-se em verdadeiros deuses do Death Metal. Assim que terminam o silencia instala-se na sala, alguns em coma induzida por riffs, para que aquela memória fique para sempre.
A cada nova década vaticina-se a morte do rock e metal, ora cá está uma noite que prova que não se pode matar o que é imortal.
Fotografias: Jorge Resende




















