O nevoeiro ameaçou o primeiro dia do Festival Ageas CoolJazz Cascais, mas as estrelas às vezes não precisam de céu para brilhar. Podia ser um início piroso, sabemos, se fosse mentira.
O Parque Marechal Carmona recebeu a primeira edição de um festival que vai durar o mês todo, com 7 noites de 4 atuações cada e DJ Sets gratuitos agendados para as tardes de “domingos preguiçosos”.
Ainda é cedo e circula-se tranquilamente pela zona de restauração e circundantes, antes do arranque marcado para as 20h no palco Smooth FM. O anfiteatro está preenchido com quem não gosta de perder pitada e prefere aproveitar tudo o que pode e tem direito, como manda o bom espírito festivaleiro!

Os Plasticine são quem verdadeiramente abre as amenidades, subindo ao placo sem reservas e prontos para entregar. Oriundos do Algarve, já com 2 álbuns editados (Plasticine, 2019 e The Most Beautiful Skies, 2022) os 9 músicos entram em plenitude de metais, percussão, teclas, bateria, guitarras e voz, prometendo ser bons à primeira vista.
Essencialmente instrumental, trazem uma sonoridade world jazz fusion influenciada pela música tradicional portuguesa misturada com outros ritmos e culturas, assente numa vontade de combater/alertar para preocupações climáticas e o preconceito em sentido lato.
Concretamente, a canção “Magreb” havia sido escrita para o álbum de 2019 a propósito do conflito na Síria e é anunciada com o pesar de quem vê as coisas ainda longe de resolvidas. Não obstante, porque a energia do grupo é a de quem escolhe conscientemente a resiliência e a beleza, facilmente nos levam a cantar com eles o refrão de “Tunataka Amani” ou, traduzindo do swahili, “queremos paz”.
Com uma componente rítmica fortíssima e variada durante 45 minutos (“meio jogo de futebol”), os Plasticine garantem que saímos mais leves e com vontade de mais.

Ao segundo toque do gongo, a organização tenta juntar o rebanho no palco do hipódromo Manuel Possolo para ouvir Rita Vian. “Eu Deixo” introduz-nos a uma voz limpa e convicta.
Sente-se desde logo algo de tradicional no seu estilo único, confirmado pelo percurso (que iria confirmar mais tarde) à data, de versos densos e muito pessoais, amor pelas palavras, colaborações espontâneas e música que ganhou uma forma própria no fado, no hip hop e na electrónica. Sente-se uma reverência, quero dizer um eco do barco negro de Amália, com uma batida forte e harmonias de fundo, mas a composição bonita e singular é toda Rita. Cá fora, tem o primeiro EP Caos’a (2021), produzido por Branko, e o álbum Sensoreal (2023), dos quais vai partilhando conteúdo num tom melódico mas acutilante, acompanhada por beats e viola.
Está especialmente feliz por ser fã do artista seguinte e a primeira vez que vai conseguir vê-lo ao vivo é precisamente no palco que pisa. Enquanto ser mais forte e mais madura é repetido na canção “Podes Ficar”, o momento é para viver e absorver.
Nos seus interlúdios, enfatiza a apresentação de “Sereia”, que faz questão de incluir em todas as atuações por ter demorado tanto tempo a ser finalizada, por etapas e sem perder a fé no potencial do resultado final. Remisturada por Branko, a canção lembra a importância dos pequenos passos em direção a algo, às ideias pequeninas mas tão válidas e importantes.
A intensidade é constante enquanto canta, o beat vai alternando com o violão e a noite vai caindo, o hipódromo enchendo, a melancolia dilata. Coragem malta, que isto ainda nem começou.
Meia hora depois (só desnecessária ou só reflexo de impaciência), o segundo toque insiste novamente em avisar as tresmalhadas perdidas lá fora.

Benjamin Clementine é o concerto mais esperado pela maioria e todas as áreas estão agora cheias para o ouvir. Considerado um poeta musical autodidata, tem 36 anos e um longo trajecto atrás dele. Talvez importe referir que eu ainda não o tinha visto ao vivo e a expectativa não era grande, portanto perdoem ter sido tão agradavelmente surpreendida. E talvez seja essa a perspectiva que interessa partilhar, mais do que discorrer sobre o histórico e a setlist, que aliás foi remisturada e improvisada ao vivo.
Depois de brincar com a pronúncia da palavra Casshhhcaissss, indaga sobre de quão longe viemos para o ver ou se somos todos locais. Um redondo “não” depois, lamenta que assim seja, porque “I like locals”. A primeira de várias provocações ainda por vir.
O palco moderno, branco, foi espaço para uma performance teatral assente nos elementos clássicos expectáveis e maquinaria techno. Com uma voz grave mas versátil, encheu-nos de pequenos momentos de conversa, de improviso, de conversa transformada em canção improvisada. Ao primeiro reparo que alguém do público atira, sobre estar em tronco nú por baixo do casaco, brinca que é casado e que a mulher o vai matar quando descobrir… um cliché que passaria facilmente despercebido se não lhe tivesse pegado e vestido de piano, com o público a rir. É um exemplo, de devaneios musicais que ele próprio estranha iniciar, mas nos quais reincide com naturalidade, sem estar preso a formatos. Entre instantes de opereta a trechos inesperados sobre os hábitos alimentares dos portugueses e batatas… só estando lá, a sério. Gosta de brincar, reforça.
Adiante, a expressão “poupem-me ao Shakespeare” circula livremente à capela, apenas para nos agarrar de seguida com o dj e uma mini orquestra (8 elementos) entretanto em palco, tocando de pé, enquanto ele próprio vagueia de papel na mão, simulando o ensaio de uma peça. Desde o jogo de luzes aos músicos, a interpretação oscila entre harmonia total e esquizofrenia. Frenética. Honesta.
Maior que a música, uma produção artística criativa à qual, mesmo não se sendo fã, dificilmente se fica indiferente.
“Condolence” aparece enquanto refere e lamenta a morte de Diogo Jota. Tenta perguntar ao público como seria a tradução da letra para português, mas a surpresa viria de um dos seus guitarristas que não só fala português, como sabe cantar. De micro na mão, o brasileiro faria todo o refrão connosco: “Eu envio minhas condolências ao medo, eu envio minhas condolências à insegurança”. É, sempre tem um brasileiro no rolê. Outro momento espontâneo e realmente bonito.
Aparentemente, esta será a última vez de Benjamim Clementine em Portugal. Assim o anunciou e também essa despedida seria transformada em canção improvisada ao piano. Vivam o talento criativo, o humor e a interação ao vivo que fazem de cada espetáculo, único.
Feitas as despedidas, de volta ao anfiteatro, houve oportunidade para digerir e aproveitar o resto da noite com DJ Set de Mafalda Nunes.
Fotografias: Felipe Kido
































