Um concerto especial, uma celebração da cultura portuguesa, num espaço emblemático como a ZDB – eis um resumo da noite passada com os Beautify Junkyards e April Marmara.
Foi bom regressar à ZDB ao fim de tanto tempo e ver que ainda há refúgios de cultura que resistem no meio do Bairro Alto. April Marmara fez a primeira parte num concerto acústico e intimista, onde apresentou algumas das suas músicas, num momento em se prepara para lançar um novo álbum. Beatriz Diniz, alter ego de April Marmara, juntou-se de seguida também como guitarrista aos Beautify Junkyards.
Estar num concerto dos Beautify Junkyards é uma verdadeira experiência multi-sensorial. Há uma coesão musical que nos faz viajar para várias culturas em simultâneo e temporalmente estamos algures entre uma electrónica futurística e uma nostalgia psicadélica dos anos 70. Uma sonoridade que evoca um período de liberdade e experimentação, aqui reclamado por João Branco Kyorna, não só musicalmente mas como um apelo ao público numa das suas intervenções, salientando a sua importância nos dias de hoje.
Senti-me completamente entregue a esta descoberta. Ao olhar em redor, percebi que era um sentimento unânime entre o público, que reagia com um misto de familiaridade e deslumbramento. Deixámo-nos levar pelo prazer e energia com que a banda nos trazia estas sonoridades densas e cheias de texturas. A viagem é também visual, com projeções de colagens de media retro, cores vibrantes e formas abstratas.
Abriram o concerto com uma explosão instrumental hipnótica que atraiu logo todo o público, ainda disperso lá fora e pelo bar. Com “Sonora”, do mais recente álbum de 2024, Nova, entra a voz de Martinez e entramos num território mais introspectivo, onde surge uma percussão tropicalista enquanto os sintetizadores nos levam para outras paragens, numa direcção mais electrónica. Há uma coesão reforçada pelas vozes, agora a dois com João Branco Kyron a juntar-se.
Com “Aquarius” fazemos uma curta visita ao álbum de 2021, The Invisible World of Beautify Junkyards e retomamos a Nova com “Black Cape”, com uma melodia conduzida pela voz de Martinez, onde entramos numa atmosfera mais onírica. “Pulsing Abstractions”, começa mais minimal, a duas vozes, leva-nos depois numa espiral instrumental e energética. Ao retomar, melódica e harmoniosa, dá lugar à voz de João Branco Kyron.
Num registo mais calmo, “Somersault”, que contrasta com a densidade de “Dancer’s Reward”. Com os sons iniciais do sintetizador que nos convidam para um crescendo de instrumentos e a voz de Kyron que, no final da música, faz um apelo ao público para re-ocuparmos o nosso lugar e espaço que tem vindo a ser apropriado.
“Groundstar”, tem início com uma bateria mais jazzística, uma viagem puramente instrumental e introspectiva ainda que com sons repletos de texturas, sem deixar de ter uma ambiência ligeiramente alucinante. Seguimos até ao álbum Cosmorama de 2021, com “Zodiak Klub”, uma homenagem ao espaço de experimentação musical em Berlim dos anos 70, de onde saíram bandas como Tangerine Dream, Harmonia, Ash Ra Temple, entre outras.
Retomamos Nova com um tom mais leve em “Sister Moon”, onde as vozes de Martinez e Kyron, que funcionam tão bem juntas, em alguns momentos vão em direções diferentes e retomam em harmonia. “Here Everything Is Still Floating” é a última música que tocam antes de um momento lindo e intimista com uma versão de “Que Amor Não Engana”, de Zeca Afonso. Regressam ao palco para o encore com “You and I”.
Todas as músicas do concerto tiveram uma roupagem mais instrumental, tropical e densa do que nas edições de estúdio e houve momentos que pareceram de puro prazer experimental. Foram estas surpresas e esta entrega que tornaram este concerto tão especial, uma celebração da cultura portuguesa num espaço tão emblemático como a ZDB.
Texto: Filipa Reis | Fotografias: Felipe Kido

























