A peregrinação deste ano das Cartaxo Sessions à Casa do Campino pintou a capital do gótico de sonoridades convergentes com as cores quentes do protesto e da sede de revolução … ou como nos deixámos encantar pelas Sereias, ir à loucura com os OKA e balançar de olhos fechado com os Cat Soup.
“Que venha a puta da Revolução e que venha bem depressa!”
Aí há tempos desenterrei de um jardim urbano depressivo um podcast que tenho ouvido compulsivamente desde então, onde um brilhante demente – ou será demente brilhante – não pára de repetir a ideia de que para ser poeta, o ser precisa de penar … e muito! No mesmo sentido, para quem, como eu, cresceu nos anos 90 não será estranha a teoria de que tempos difíceis convivem com períodos de extrema fertilidade artística. Que as trevas insistam em alastrar-se para tentar conquistar os nossos dias, não me parece haver assim tanta gente a duvidar … e a penar, com a lógica exceção de quem continua a engordar às suas custas – das trevas e de nós, quero eu dizer. Não sei é quantos de nós estarão atentos para os frutos da extrema fertilidade criativa que vai jorrando do nosso subsolo.
Num destes sábados de setembro, a auto intitulada capital do Gótico (a)colheu oito frutos sónicos, em diferentes fases de maturação, que espalharam a sua arte por dois palcos. As colheitas iniciaram-se no FriarFest (que merece uma reportagem própria) e ao cair da noite rumaram à Casa do Campino para a edição anual das Cartaxo Sessions em Santarém. Se as edições dos dois anos anteriores tinham privilegiado, respetivamente, o post-metal instrumental e o (hard) psique, 2026 veio tingir o palco d0s quentes tons alternativos e experimentais.
Quando as Sereias subiram ao palco, muitos de nós já tinham várias horas de música nas pernas. Esse peso, a descida do pico da loucura atingido uns minutos antes durante a atuação dos Oka e o calmo arranque do septeto do Porto terá levado os mais desatentos à errada ideia de que o fim de noite seria sereno. E que enganados estavam. Em fase de divulgação do seu magnífico terceiro álbum – A Odisseia de Carlos Bizarro – , lançado em março deste ano, as Sereias foram encadeando os novos temas com outros a que já podemos chamar de clássicos e com discursos que só poderão surpreender quem nunca lhes ouviu as letras. E se a presença e entrega de António Pedro Ribeiro – fazendo-nos imaginar um cruzamento entre Jim Morrison, Charles Bukowski e João César Monteiro – é incontornável, o verdadeiro canto das Sereias apenas se torna inevitavelmente sedutor pela cavalgada instrumental em crescendo progressivo destilada pelo colectivo de músicos que o acompanha. Saboreia-se jazz, dança-se post punk, inspira-se algum noise e transpira-se punk. Único!
Como já tinha avançado, o concerto dos OKA levou aos vermelhos aquelas agulhinhas que ajudam a medir o grau de loucura na sala. Há muito que os tentava encontrar, mas nada me havia preparado para estes filhos bastardos dos Máquina, Dead Kennedys e sabe-se lá mais o quê (yes, that kind of party!). O noise punk aceleradíssimo em tom de festa contagiou uma sala que nunca mais será a mesma, sendo que a dança frenética e o mosh serão apenas os comportamentos visíveis do iceberg revolucionário que é sentir este trio lisboeta. No fim, comprei o CD, claro … mas a segurança rodoviária agradecerá que não o ouça no carro! Se Oka, não conduza!
A noite arrancou com mais uma estreia para os meus olhos e ouvidos. Os Cat Soup são um quinteto oriundo do Porto que sinstetiza com um balanço cativante a vasta paleta de sonoridades post (rock, punk, um pouco metal e talvez jazz) que vem tingindo o cenário underground nestes últimos anos. Um denso nevoeiro sónico, como aquele que insistia em encher o palco, a fazer-nos levar a mente para os mais diversos locais.
Fotografias por Rui Gato.




































