Na sua 14ª edição, o Sonic Blast invade novamente a comunidade piscatória de Vila Praia de Âncora para nos trazer uma maré de riffs e guitarradas embrulhadas numa indumentária eclética (e elétrica), com muitos cabelos e ainda alguma erva à mistura.
O Sonic não é um festival qualquer. Nunca o foi. Nem agora, quando entra por entre a praia da Duna do Caldeirão, nem quando começou em 2011 quando ganhou pé na piscina do Centro Cultural de Moledo. É um festival com fiéis que, todos os anos, tiram uma sabática de quatro dias para terem uma Sabbathical de outros quatro. São vários os hipnotizados pelas notas mais sujas e viscosas que pingam de inúmeras guitarras. E esses fiéis estão ao serviço de um mestre mor – o riff.
Já diziam os Down, no seu segundo álbum, “the power of the riff compels me!”. E esta adoração veio a escorrer dos restos dos dedos de um senhor de Birmingham, no Reino Unido, e dos seus comparsas igualmente metalúrgicos que, de 1969 a 1975, soltaram um verdadeiro monstro no mundo da música. Um som tão próprio que nem os mesmos o conseguiram replicar em tentativas futuras. Ficou congelado em seis primeiros álbuns que inúmeras bandas agarraram e foram duplicar para a fotocopiadora mais próxima. Por vezes, por inteiro. Outras vezes, só por partes.
Claro que a história e a influência dos Black Sabbath não é assim tão simples, mas fiquemos com a versão Reader’s Digest para efeitos imediatos destas próximas larachas.
Aliás, o festival não esconde esta adoração. A primeira coisa que qualquer ‘blastiano’ vê ao entrar no recinto, e este termo é capaz de ser das coisas menos cool que alguma vez leram, é uma lona gigante com os quatro membros dos Sabbath com o nome do festival posicionado no meio. Se isso não chegar, ainda há tokens com o Ozzy e t-shirts com o Tony Iommi.
Mas o meu objetivo é simples. E consiste em, durante quatro dias, descobrir qual das bandas em cartaz é que tem um som mais próximo dos Sabbath. As felizes contempladas levarão o selo “Cornucopia” (uma das músicas seminais do lendário Vol. 4, de 1972) e uma sairá vencedora. O prémio? Rigorosamente nada.
Que o desafio comece!
No dia de aquecimento do festival, ainda antes das grandes festividades, as portas do terceiro palco abriram-se ao som de Wizard Master. Temos a palavra “wizard” e a palavra “master”, será que são referências tanto ao tema tolkiano “The Wizard”, do primeiro álbum, como ao imortal disco Master of Reality? É possível. Vamos lá meter o ouvido bem junto dos amplificadores para escutar melhor. As guitarras são escorregadias e viscosas, está tudo para lá de pesado e, se fechar os olhos, acho que consigo ouvir o Ozzy a grunhir vindo do túmulo.
Confesso que outros colegas festivaleiros me disseram para estar atento a estes italianos de Lazio e, sem pestanejar, digo que não desiludiram e levam a primeira Cornucopia do texto.
E de Itália vamos até Leiria, ter com os Spin The Skull. O nome indica velocidade e aqui temos um néctar concentrado com polpa de um metal clássico (numa veia mais angular à Judas Priest) e um ataque sónico para destruir sentidos embebido ora tanto em hardcore como em fuzz. Portanto, é natural que subam ao palco e aniquilem. E assim o fizeram. Para todos os que dizem que Leiria não existe, é porque ainda não ouviram os Spin The Skull.
De Leiria vamos para Braga, visitar a Capela Mortuária mais pesada do país. A essência dos Capela não passa pelos Sabbath, mas sim por todas as guitarras que se cavalgavam em São Francisco, de 1983 em diante, até ambientes sonoros mais extremos. Pontuam o final do meu aquecimento e posso dizer que fiquei mais bem preparado do que em qualquer aula de Educação Física que tive na vida.
Resultado do aquecimento: 1x Cornucopia (Wizard Master)
Seguimos mais do que lançados para o primeiro dia oficial, onde uma mudança de última hora faz com que os Elephant Tree abram os palcos principais em vez dos Clamm. Como se não bastasse, um segundo imprevisto impediu o guitarrista Jack Townley de estar presente e a banda arranca com um alinhamento único e mais centrado em Peter Holland. Talvez seja um sentimento misto em fãs mais dedicados da banda, mas senti que estava a ver algo que não se irá voltar a repetir tão cedo.
A música dos Tree é um caso curioso. À primeira vista tem todos os elementos esperados e mais alguns, mas assim que os começamos a contar percebemos que cada um deixa um twist muito vincado nas nossas expetativas. São ampliados por um tratamento muito próprio que nos deixam em bicos dos pés e que injetam em cada tema um fator inesperado e excitante. Se esperam uma música pesada, recebem uma música pesada. Mas depois há uma outra dimensão. Querem algo que fica no ouvido? Pois claro, mas não vão ter só isso. Neste pequeno jogo que estou a fazer, podem não receber uma Cornucopia. Mas, meus caros, digo-vos que receberam toda a minha atenção.
Talvez vos fale a seguir dos Midnight. Uma banda com uma espécie de Flying V, capuzes na cabeça e uma música chamada “Fucking Speed and Darkness”. As influências cruzadas entre NWOBHM, black metal e punk estão bem tatuadas e tudo é ainda mais surpreendente quando percebemos que é, praticamente, obra de um homem só – Jamie Walters. Para a próxima, já sabem o que ouvir se quiserem que o relvado do vosso vizinho morra (obrigado pela frase, Lemmy).
O resto deste dia teve uma mistura muito corajosa e eclética com bandas como Deafhaven, Chat Pile e Snapped Ankles em catadupa. No entanto, e como ainda só demos uma Cornucopia, permitam-me saltar já para o trio argentino Mephistofeles. Ao mesmo tempo, peço que me deixem também fazer headbang enquanto estico dois sinais de paz com as mãos porque, meu Senhor deste Universo, temos mais uma banda digna de pura adoração a Sabbath. Oiçam o fuzz, oiçam o wah-wah, oiçam o baixo bem gostoso e o feel daquela bateria. Logo a seguir, oiçam as vozes de Gabriel Ravera. Nem vou escrever mais nada, é Cornucopia direta!
Resultado do primeiro dia: 1x Cornucopia (Mephistofeles)
Há pouco tempo, vi um pequeno comentário no YouTube que dizia “existem dois tipos de pessoas – quem adora Voivod e quem ainda não os conhece”. Este é o espírito ferrenho que caracteriza boa parte do que é talvez a banda mais criativa e singular que veio do movimento thrash dos anos 80. Uma espécie de punhado de riffs imaginativos, não só como são tocados, mas com toda a imagética em que são envolvidos. Aliás, esta foi uma banda que tanto podia estar a fazer uma digressão com Soundgarden como com qualquer um dos titãs de thrash. Se ainda não estiverem convencidos, tentem arranjar uma cópia com óculos 3D do álbum “The Outer Limits”. Se o fizerem, tentem apanhar a banda ao vivo, tragam os óculos e vejam esta malta do Quebec a dar uma boa lição do que é fundir um tipo de metal mais primário com toques mais refinados. Uma experiência única.
Seguimos para Conan, os Bárbaros. Peço desculpa, são só os Conan. Mas ninguém diria depois do concerto brutal que deram. Penso que abriram buracos em algumas caixas torácicas e rebentaram cabeças, não só com a lava pesada que tocaram mas porque ainda pediram ajuda a alguns clássicos de sword and sorcery dos anos 80 como pano de fundo. Só para terem uma ideia, nunca achava que ia ver partes do esquecido Krull no meio de um festival de música.
Já os Kylesa arrastaram todos os cadavéres que sobraram pelos pântanos de Savannah, Georgia com um cardápio de sons variados e com múltiplas texturas. O que já não é múltiplo no contexto de Kylesa são as baterias, agora reduzidas a apenas uma. Mas ouvir Phillip Cope e Laura Pleasants ao vivo continua a ser uma experiência visceral e arrebatadora. A maior parte do alinhamento foi sugado do álbum de 2009, Static Tensions, e o público agradeceu cada gota.
Um último apontamento, a minha Cornucopia de segundo dia teria ido para os Dead Meadow mas, infelizmente, tal não foi possível e foram substituídos por uma segunda atuação dos Clamm (repetentes do primeiro dia).
E como não consegui dar Cornucopias imediatas no segundo dia, está aqui já uma prontinha a sair. Depois dos Primitive Ring (com Jon Modaff, dos também presentes Frankie and the Witch Fingers) terem incendiado o palco secundário e entregado um concerto exemplar, que teve direito a uma versão absolutamente divinal de “I’ve Been Waiting For You” de Neil Young, eis que surgem Margarita Witch Cult – um trio de Birmingham (isto é um sinal) que espalhou enegria filtrada de doom e gloom por todos os que quisessem ouvir. Obviamente que não é só pela localização que lhes dou uma Cornucopia de coração cheio, nem pelo nome fantástico, nem mesmo por terem derretido os corações de todos quando anunciaram que seria o último concerto por uns tempos do baixista Jim Thing (o homem vai ser pai!), mas sim porque acabaram o concerto ao tocar um medley dos seus conterrâneos BLACK SABBATH! É preciso escrever mais?
Para meter o ponto mais do que final nesta edição do Sonic Blast, temos Matt Pike e os seus High on Fire. Um concerto tão intenso que senti pena do pessoal que levou o nome da banda demasiado à letra e que começou a fazer cocaína mesmo à minha frente. Porquê? Porque qualquer que seja a droga que metam no sistema, ela nunca irá conseguir acompanhar a fúria e a intensidade que é Matt Pike na guitarra. O ex-Sleep encabeça uma banda que é, simplesmente, uma autêntica força da Natureza e que nos faz encolher com a força bruta do seu som.
Pessoalmente, um dos meus maiores arrependimnentos foi não os ter visto na edição de 2024 do festival. Quem os viu nesse ano, diz que (graças a Deus) o massacre sónico não foi tão intenso desta vez. E, se desta vez foi o que foi, nem quero imaginar o número de feridos no passado.
Resultado do terceiro dia: 1x Cornucopia (Margarita Witch Cult)
Mais um ano, mais um Sonic. Entre todas as Cornucopias, vou dar o palmarés final a Mephistofeles. Entre os outros concertos, faço vénias infinitas a High on Fire. E no meio do Sonic, agradeço a todas as pessoas que deram tokens, a todas que seviram cerveja, que picaram pulseiras, que organizaram casas de banho, que transportaram pessoas, que limparam o antes e o depois da praia da Duna dos Caldeirões e, claro, a todas as bandas que foram até Vila Praia de Âncora fazer o que sabem fazer de melhor.
Na verdade, pensando bem, estão todos premiados. Cornucopias para todos! E, olhando para o meu relógio, é hora de um docinho. Vou ver se também encontro uma cornucópia para mim.
Fotografias de Jorge Resende






