Uma poção alucinogénica composta em partes iguais por rock cósmico, psych-folk, o groove que lhes vem desde a génese, refrões monumentais, vermes, dragões e a lenda dum rapaz alado posto a trabalhar no circo por um empresário tirano. Um novo pico de forma 30 anos depois da estreia.
Perde-se a conta à quantidade de bandas que ao fim de 30 anos de carreira entra na maldita “zona de conforto/preguiça criativa” e lá vai fazendo música só por fazer, no aconchego da poltrona. O bando de hippies encabeçado por Crispian Mills em 2026 olhou para a poltrona, encontrou um riff antigo ou outro caídos atrás da almofada, e saltou para junto dos amplificadores e pedais de efeitos com o mesmo entusiasmo que tinham aos 20 anos.
Terceiro álbum em cinco anos (nunca foram tão produtivos), Wormslayer começa com “Lucky Number”: uma intro com barulhos de fita a rebobinar e uma brincadeira instrumental com os elementos indianos e etéreos que lhes deram fama no início da carreira. É uma armadilha. Aos 25 segundos alguém manda um berro, Paul Winterhart começa a dar uma tareia na bateria e o tema transforma-se num glam stomp/início de festa como um álbum deve ser aberto. Dois bons riffs de guitarra (de vários que aparecerão ao longo do álbum) e uma letra entre a declaração de amor e um carro que fala pela matrícula. Sendo que dois dos maiores sucessos da banda (“Govinda” e “Tattva”) têm letras em sânscrito, isto de certo modo até faz (mais) sentido.
Logo de seguida e ainda de prego a fundo, “Good Money”, o single explosivo deste álbum, ao nível dos grandes hits da banda (mais informação sobre isto adiante). Secção rítmica ao melhor estilo Madchester, um gancho de “la-la-las” que se cola às orelhas durante horas, um jogo de dinâmicas entre tudo a acontecer ao mesmo tempo (nota para a mistura impecável ao longo de todo o álbum) e quedas para a voz isolada mas pairante e ensopada em efeitos. E a primeira aparição da narrativa de Shaunie, um rapaz com asas que é aliciado por um empresário/tubarão da indústria a juntar-se ao Midnight Circus. Possivelmente uma alusão às disputas que os próprios Kula Shaker tiveram com a sempre predadora indústria musical em tempos. No final de contas, “Há dois tipos de dinheiro: o teu e o meu. Sendo que o teu também é meu. Agora assina aqui”. E sim, o que soa familiar aos 2:40 é o riff de “Tattva” que veio de 1996 só para dizer olá.
“Charge of the Light Brigade”, que foi o primeiro single, é conduzida para variar por uma guitarra acústica, mas não desacelera propriamente. Começa logo pelo refrão, mas a bridge de chamada-e-resposta é igualmente forte. Afinal, a brigada que os Kula Shaker se intitulam vem trazer a Luz mas bebe sangue. E em três minutos arrumou com o inimigo.
Seguindo as boas práticas de construção duma tracklist, após três “a abrir” segue-se uma para baixo. A quarta faixa, “Little Darling”, ao início baixa a cadência para uma quase valsa psicadélica pontuada pelos floreados de Jay Darlington nos teclados, mas vai acrescentando elementos aos poucos até acabar ansiosa mas triunfante.
Quinta faixa e segundo single, “Broke as Folk” soa à intro de “Time” dos Pink Floyd num primeiro date com um solo dos Doors. Dão-se bem e seguem para um concerto da E Street Band de braços no ar e a cantar a plenos pulmões. Talvez haja beijinhos ao final da noite, que o encaixe disto tudo é imprevisivelmente bom.
A marcar o meio do álbum, “Be Merciful” é o segundo grande slow-burn e quarto single (vale o que vale nos moldes actuais da indústria, em que um single é mais uma ferramenta de marketing e buzz do que propriamente comercial, mas lançar cinco singles neste álbum não parece propriamente que se estejam a esticar na confiança), que começa acústico e suplicante e vai aos poucos construindo uma muralha de som até ao céu, à base de coros, teclados e guitarras maiores que a vida.
O já referido Shaunie reaparece solto da prisão circense mas talvez com um final triste nas duas faixas seguintes: uma com o seu nome, a outra “The Winged Boy”. A primeira mais psych-folk para limpar o palato, a segunda mais floydiana tanto ritmicamente como na dimensão e tom colossais das guitarras, quase uma herdeira perdida de “One of These Days” ou “Run Like Hell” numa trilogia inesperada.
“Day for Night” podia passar por uma canção folk de embalar escrita por Paul McCartney, se Paul McCartney escrevesse canções de embalar sobre matar dragões. E se o seu minuto e 19 de duração são claramente curtos para fazer alguém adormecer, a seguir já não vale a pena tentar porque se segue o tema-título do álbum. Uma montanha russa de dinâmicas ao longo de 7 minutos e meio, entre a tempestade sónica e o mantra hindu, a atirar para cima da mesa tudo aquilo que os Kula Shaker fazem como ninguém. E se Wormslayer acabasse aqui estava tudo certo na mesma, mas ainda há espaço para “Dust Beneath Our Feet”, que não sendo um tema propriamente fraco, acaba por deixar a ideia de que não o conseguiram encaixar em mais nenhum lado mas também não o queriam deixar cair. Nada que comprometa a coesão e a vitalidade que a banda demonstra hoje em dia, como se pode atestar nesta recente sessão para a KEXP.