Com o seu segundo disco, Cotton Crown, os The Tubs entregam nove faixas carregadas de energia do início ao fim, com refrões que grudam na cabeça, uma tristeza sincera que nunca chega ao sentimentalismo e guitarras que soam como um abraço nostálgico e familiar.
Mas o que eleva o disco a outro patamar é a entrega vocal de Owen Williams — uma sinceridade pura, tanto nas melodias como nas letras.
Apesar de ser fácil perceber como isso também pode afastar alguns ouvintes, é justamente essa entrega vocal — que reflete muito de Bob Mould e Richard Thompson — somada ao jangly pop e aos ecos de R.E.M., que já se tornaram marca registada de Williams, às guitarras de George Nicholls, cheias de referências a Johnny Marr, e ao trabalho de Max Warren no baixo e Taylor Stewart na bateria, que acrescentam à mistura traços de punk e hardcore, que fazem de Cotton Crown um dos discos mais fortes de 2025.
O quarteto oriundo de Cardiff surgiu em 2017, das cinzas dos Joanna Gruesome, que estremeceram a cena indie com dois álbuns excelentes na primeira metade da década de 2010. Após apenas um EP, a banda entrou em hiato e só lançou o seu primeiro álbum completo em 2023, Dead Meat.
A melhor forma de explicar o disco talvez seja ao contrário. Strange, que encerra o álbum, é mais do que uma canção dedicada à mãe — é uma resposta crua às pressões artísticas e sociais que surgem com a sua perda.
The summer after was nice
Played in New York and it was alright
There when I found out the method
From an article in WalesOnline
A picture of my mother in a weird hat
Under an overcast sky
“Successful music journalist, mother of two
Takes her own life”
A canção continua, num registo meta, a falar sobre o próprio acto de escrever esta canção. No seu Substack, Owen descreve a pressão, em grande parte auto-imposta, de transformar o luto em arte e de conseguir dar sentido a toda a situação. Muito antes de compor esta faixa, escreveu um romance ficcional inspirado na sua relação com a mãe, que acabou por ficar na gaveta.
A mãe está presente noutros aspectos do álbum. Charlotte Greig, artista folk e também jornalista musical, usou uma fotografia onde amamenta o recém-nascido Owen num cemitério como capa de um EP em 1992. É essa mesma imagem que ilustra a capa de Cotton Crown, cujo título também foi retirado de uma das suas canções.
Este jogo de homenagens e referências terá, muito provavelmente, criado uma proximidade póstuma entre Owen e a mãe e assegura uma continuação do trabalho entre gerações.
Após o sucesso de Dead Meat, e à exceção de Strange, Owen escreveu Cotton Crown em menos de duas semanas, criando oito faixas que exploram diferentes perspetivas sobre relações amorosas e luto. A abertura, The Thing Is, apresenta um narrador manipulador e abusivo; já Freak Mode, primeiro single, fala sobre a obsessão por alguém com quem nada se tem em comum. É em Narcissist, a quarta faixa, que fica claro como as melodias alegres e viciantes, cheias de sabor pop, escondem letras trágicas e mordazes. Aqui, o arranque emprestado de This Charming Man dos The Smiths dá lugar a um riff principal digno de Johnny Marr. O segundo single, Chain Reaction — cujo vídeo, segundo a banda, envolveu mais de 100 cervejas — reforça as influências de R.E.M., enquanto a mais enérgica e enraivecida One More Day é onde a locomotiva dos Hüsker Dü e de Bob Mould atinge a sua velocidade máxima.
Owen Williams e os The Tubs não precisaram de mais do que nove músicas para construir um disco que, apesar de todas as suas influências, mistura de géneros e referências, é mais do que sólido — é intenso e cheio de identidade própria. Pela música ou pelo lirismo afiado, Cotton Crown não só consolidou a posição da banda como também aumentou a expectativa em torno dos seus futuros projectos.
Excelente texto apresentado a bela obra e bela homenagem!