Durante quatro dias, entre o verde denso da serra e o céu aberto de Mondim de Basto, o Vinculum voltou a reunir quem procura Música e Natureza.
A ligação ao lugar, à dança, ao outro, ao que não se vê, mas que se sente.
O Parque das Merendas do Monte da Senhora da Graça é um lugar com uma força silenciosa. Chegar ali é como entrar noutra frequência — onde o tempo desacelera, os sons espalham-se com mais nitidez, e o corpo começa a escutar de outra maneira. A clareira que acolhe o recinto está rodeada de árvores altas, e ao fundo, o palco único, também ele abraçado por árvores, luzes e umas estruturas a contrastar.
Durante o dia, o espaço oferece sombra natural e pequenos refúgios onde se pode deitar na terra ou partilhar silêncios com quem se cruza. Ouve-se a água a correr de um lado, sente-se o cheiro de pinheiro e musgo, e há uma brisa constante que refresca os gestos e a pele. Tudo convida a uma escuta alargada, não apenas da música, mas do ambiente inteiro.
À medida que o sol se põe, a floresta ganha outra pele. As luzes discretas integradas na paisagem revelam o recinto de forma orgânica – sem ferir o escuro, mas iluminando os passos. O som propaga-se com corpo e profundidade, envolvendo sem esmagar. Dançar ali, ao ar livre e rodeada por formas vivas, é uma experiência sensorial rara. Há espaço para o êxtase e para o repouso, para o transe e para o reencontro de caras conhecidas, e outras que se vão conhecendo.
O terreno, por ser irregular e poroso, devolve um certo enraizamento. Os pés tocam na terra, e isso transforma a dança. Nada ali é liso ou estéril — há textura, há cheiro, há gravidade. A própria acústica do lugar parece colaborar com os artistas, devolvendo os graves com presença, deixando os agudos flutuar entre os ramos. A envolvência natural não é pano de fundo, é pele do próprio festival.
A música terminava pelas 07h, e regressava pelas 14h, como quem respeita o tempo da montanha e dos corpos que nela habitam. A minha tenda ficava próxima do recinto, o que me permitia sentir os ciclos sonoros do festival como uma extensão dos meus próprios ritmos. Era um prazer ouvir os primeiros acordes do dia ainda com a brisa fresca da tarde, tomar um banho fresco, espreguiçar, ir à Tasquinha, e escutar as aberturas lentas e envolventes.
As aberturas sonoras foram momentos de puro cuidado e afinação com o ambiente: Dawn Dani, Tauer, Ruuar e Amulador desenharam atmosferas delicadas, ambient eletrónico com batidas suaves que despertavam suavemente o corpo e o espaço. Escutava-se com pele, com olhos semicerrados, com respiração alongada. Gestos meditativos, diria.
Primeiro dia: a chegada
André Cascais fez a abertura oficial do festival, seguido por Gusta-vo que deu honras ao início da noite. Cheguei pouco antes do final da sua atuação e já se viam muitos sorrisos espalhados pelo dancefloor. Senti-me bem recebida, acolhida pelo ambiente e inspirada para as próximas horas de descoberta musical.
Carmen (João Ferro) foi uma bela surpresa: entregou um live act poderoso — techno direto, bem estruturado, com uma assinatura nacional que merece atenção. Conheci o João através da fotografia, e foi especial descobrir esta veia de síntese modular, que agora pulsa com a força de uma artéria sólida e promissora.
Cecilia Tosh, vinda de Berlim e residente do lendário Tresor, trouxe classe e densidade ao festival. O seu techno hipnótico e cru envolveu tudo num manto vibratório que mantinha o corpo em suspenso. Human Safari fechou a noite com pulsos tribais e uma intensidade crescente — uma viagem densa e orgânica que se estendeu até às 06h e deixou o chão a fumegar.
Segundo dia: cerimónias noturnas
O segundo dia começou com Dawn Dani, que abriu com um set hipnótico e meticuloso, rico em detalhes que se escutavam como pequenas bênçãos. Tauer deu continuidade à viagem floresta adentro, tecendo uma narrativa subtil que mantinha o corpo em movimento e a mente em suspensão. Mais tarde, Ferro juntou-se a Voltt num b2b vibrante — um crescendo que sacudiu o pó da terra com batidas secas, diretas e profundamente enraizadas.
O live act de ASEC trouxe uma descarga de energia crua, perfeita para a transição entre o crepúsculo e a noite cerrada. Um dos momentos mais aguardados aproximava-se: Gigi FM. Confesso — é das minhas artistas preferidas. Há nela uma força feminina ancestral, uma intensidade ritual que atravessa cada batida, cada gesto. Estar presente durante o seu set foi como entrar num feitiço — e eu deixei-me levar, de corpo inteiro.
DJ Nobu subiu à cabine a seguir, e foi uma experiência que esperei durante muito tempo. Mestre do techno japonês, trouxe uma técnica precisa, quase marcial — cada transição era medida, cada drop, parecia um golpe de karaté. A sua presença é sóbria, firme, e a relação com o público mantinha-se intensa mesmo na contenção. Este ano recebeu o prémio de Melhor DJ nos Music Awards Japan, e ao vivo não restam dúvidas do porquê.
Talismann ficou encarregado de encerrar a noite — e fê-lo com mestria e elegância. Sente-se, no seu som, o peso da experiência: há solidez, há fluidez, há entrega. Um final à altura de um dia cheio de energia e transfiguração sonora.
Terceiro dia: crème de la crème
O duo Ruuar abriu o dia com um set envolvente e progressivo, como quem desenha, com paciência e detalhe, a promessa de um longo dia e noite pela frente. A pista foi despertando ao seu ritmo, e o sol filtrava-se entre as árvores num convite silencioso à entrega. Sepypes seguiu com firmeza — uma presença já habitual noutras edições do Vinculum, que trouxe a mesma consistência e energia contida que tanto se aprecia nas primeiras horas da tarde.
Sybil, na minha opinião, ofereceu uma das viagens mais bonitas do fim de semana. Três horas de narrativa sonora com bass profundo, construção refinada e uma sensibilidade rara. Havia uma elegância inesperada na forma como moldava o tempo — a sua estética sonora deixa entrever claras influências do Reino Unido, e isso sentiu-se na pulsação, nos detalhes, na cadência. Admirável maturidade para quem ainda carrega a juventude no rosto.
Depois, Backbone (Afonso) assumiu as rédeas da pista com um set imprevisível e cheio de nuances. Navegou por subgéneros do techno com liberdade e jogo — olhar brincalhão em certas passagens, sério noutras. A energia na clareira aumentava visivelmente, e a pista já fervia na antecipação de Shed.
E Shed… deixou-me sem palavras. Já tinha ouvido dizer que era uma lenda viva, mas ao vê-lo ao vivo, tudo ganhou outra escala. Fiquei praticamente todo o tempo nas primeiras filas, magnetizada. Tocou com quatro CDJs em abordagem de vinil, concentrado, com gestos suaves. Cada movimento, cada transição, cada silêncio escolhido — tudo tinha peso. Há algo de cerimonial na forma como trata o som, embora me tenha perguntado: será que há espaço para mais leveza, alguma diversão? Mas é essa seriedade que faz dele quem é.
Akua subiu ao palco logo depois — vi-lhe a tensão no rosto, a hesitação breve de quem entra a seguir a um momento denso e arrebatador. O set anterior, Nørbak (live), também tinha sido intenso, e o desafio era real. E Akua retribuiu com um set impactante, profundo, cheio de força. Duas horas onde se transformou — de tensão a presença plena.
James Ruskin fechou a noite — e a floresta. Não consegui ficar até ao fim na pista. Ouvi-o já na tenda, meia adormecida, mas ainda de peito cheio. Foi assim que o dia terminou: com o corpo a abrandar, mas o coração a dançar.
Ultimo dia: despedidas dançadas
O último dia começou com luz suave a cair sobre o monte e a brisa fresca de final de ciclo a atravessar o recinto. Amulador abriu a tarde com a sensibilidade de um set profundamente texturado, a meio caminho entre o ambient e o techno contido, perfeito para alinhar o corpo e o espaço. As batidas surgiam como ondas largas, não invadiam, mas guiavam, desenhando paisagens sonoras.
Logo depois, subiu James Grouper (Tiago) — um dos organizadores do festival — num momento que se sentiu especialmente íntimo. Não foi apenas o seu set que marcou, mas a ternura visível de ter consigo o seu filhote, a dançar com a mãe, no meio do público. Havia ali uma vibração familiar e terna, como se o festival tivesse colapsado o tempo por instantes, entre gerações, entre o íntimo e o coletivo.
upsammy tomou conta do espaço a seguir com mestria. O seu set foi um corpo vivo — cheio de curvas, detalhes graves e texturas psicadélicas em suspensão. Mais uma prova de que as aparências enganam, e que o talento não tem idade. Dançava-se com entusiasmo e entrega, como quem já sabe que está a viver os últimos instantes de um sonho. Havia uma vibração pulsante no ar — não de euforia, mas de totalidade.
Ao cair da noite, Forest Drive West mergulhou-nos num fluxo hipnótico e profundo. O som parecia emergir da terra, com graves densos e texturas que quase se podiam tocar. A pista estava inteira, ligada, atenta. Garçon ficou responsável pelo fecho — e apesar de não ter conseguido assistir, ouvi os ecos. Disseram-me que foi mágico. Que houve abraços, olhos fechados, gratidão. E acredito.
Além-música
Para além da música, houve outros momentos preciosos que ampliaram a experiência — instantes de escuta e saber partilhado que vincularam ainda mais o festival ao lugar onde acontece.
Um desses momentos foi o workshop de incenso natural com a Irene, da Lua. Num espaço reservado entre árvores e pedras cobertas de líquenes, Irene trouxe um apanhado de ervas, plantas e resinas recolhidas nas redondezas e partilhou com delicadeza o saber ancestral de transformar matéria viva em fumo ritual. Ao longo da oficina, aprendemos a reconhecer os aromas do território — pinheiro, alecrim, loureiro, rosmaninho, e até cascas de árvores — e a combiná-los em pequenas espirais de incenso natural.
No sábado, pelas 15h, um grupo juntou-se perto da cascata para uma sessão de pilates ao ar livre. Com o som da água em pano de fundo e a luz filtrada pelas copas das árvores, o corpo despertou com suavidade. Respirou-se fundo, trabalharam-se os alongamentos e ativou-se o centro — o core — profundamente restaurador. Foi uma forma de cuidar do corpo dançante, de criar espaço interior antes de regressar à intensidade do som e da dança.
Estes momentos, entre o silêncio e a partilha, trouxeram uma dimensão ritual e regenerativa ao Vinculum. Pequenos gestos que se inscrevem no corpo com o mesmo valor que uma batida bem lançada. E talvez seja essa a magia deste festival: oferecer tempo para o movimento e tempo para a pausa, espaço para a festa e espaço para o enraizamento.
Num mundo em que tudo está acelerado, o Vinculum é uma pausa. Um abraço, um lugar onde se dança com os pés na terra e os olhos no céu. E onde se percebe, no corpo, o que significa realmente estar ligado.
Fotografias gentilmente cedidas pela organização, pelo olhar de Zé Vieira e Ivo Lima.


































