Kyshona leva-nos às origens num contínuo abraço, envolve-nos num suave manto de conforto que é música do seu novo álbum Legacy. É o percorrer de uma linda e emocionante viagem sobre família e o significado de legado. Kyshona é gospel, é soul, é maternal e não se inibe de nos esbofetear com o cru poder do blues.
Johnny Cash e BB King abdicaram de tudo o que pudesse ser a receção social, quando visitaram prisões de alta segurança de modo a darem concertos a reclusos. Sentiram o dever de fazer uma afirmação: “Eles também são humanos”. Particularmente o primeiro, que contou estórias aterrorizantes a aterrorizantes pessoas que tinham histórias por contar e, com isso, aprendeu. Humanizou-se, humanizou-os e, por décadas, continuamente, humaniza-nos, futuros ouvintes.
Kyshona fez disso trabalho, sem exposição mediática. Começa a sua carreira desempenhando o papel de terapeuta musical, criando peças com pacientes (estudantes e presos). Até ao dia em que decide passar para algo mais singular, algo mais pessoal, para tal, percorre até um dos berços da música soul e blues, Nashville, numa tentativa de se encontrar. Nunca deixou o seu projeto inicial e cria um programa, “Your Song”, onde promove um curar e conectar da comunidade.
A 26 de abril, deste mesmo ano, lança o álbum Legacy, onde se envolve na sua história e na da sua família. Fala de um legado como algo que não é morto, muito pelo contrário, atribui-lhe um significado bastante vivo. E percorre-o, através de memórias, honrando todos aqueles que o tornaram possível. Fala sobre aqueles que ninguém falou, nem ninguém fala. Daqueles que vieram e já foram. E aproveita para deixar uma nota sobre esta mesma brevidade da vida na Terra.
Iniciamos a nossa viagem através de “Elephants”, onde nos habituamos à ideia de um ritual de unificação. Este metafórico animal, magnificente e desgraçado, muito por causa da caça desenvolve uma metafórica “pele grossa”, nunca esquece. São os primórdios da família, são os lutadores que tiveram de se afirmar, ou, pelo menos, tentar. É de notar a ascendência africana da artista. Período negro da América, o esquartejar mental e físico dos escravos, tudo por avareza.
Há uma grande ausência, em artistas novos, de comunicação das suas emoções. Entrámos numa era de música destituída de pureza emocional, de vulnerabilidade, de sensualidade e de sexualidade musical. Parece que há a necessidade de empregar ao máximo dos máximos as ferramentas da técnica, em grande detrimento da espontaneidade efusiva. Kyshona contorna-o de forma inteligentíssima. Moderniza os rudimentos, do blues, do soul e do gospel. Vai buscar das coisas mais poderosas que o ser humano pode contar, das mais emotivas, ou seja, a religião e o sofrimento, muitas das vezes aliados, e faz deles uma sopa deliciosa e reconfortante. Traz à baila interlúdios em jeito de sketch, como Kanye West fez. E traz ainda um incrível poder de produção de estúdio.
Delirei com o contemplativo e impiedoso ondular de “The Echo”. É um contemporâneo blues com todas as coloridas notas de, por exemplo, Joe Bonamassa, mas tem qualquer coisa de diferente. Qualquer coisa que grita Kyshona. Qualquer coisa, que procurava, mas que não sabia que procurava. É daquelas músicas que faz querer ouvir tudo o que artista produziu e vai produzir. Posso confessar que o fiz, estou a fazer e não me arrependi. Há algo que, certamente, temos de falar. Algo que ainda não consegui computar, nem compilar palavras para o descrever. É a voz desta senhora. Mãezinha do céu… Não há “Gimme Shelter” sem os poderosos backing vocals de Merry Clayton, não há “Great Gig in The Sky” sem a magnífica voz de Clare Torry. E acho que nos temos de preparar para deixar de ver grandes vozes do rock por detrás do pano.Kyshona está bem à frente e na nossa cara, assume-o sem vergonha e isso deixa-me feliz ao ponto de me comover.
Penso que hoje só se faz música como gritos para o ar, já não se faz música para as pessoas, para estabelecer contacto, um motivo para união, um braço de ajuda. Kyshona e o seu álbum Legacy são uma grande lufada de ar fresco. Aguardo, sedento e silencioso, um próximo trabalho.
texto: André Correia