“(…) fiquei logo refém assim que tocou a primeira nota, a viver algures entre um clubbing pulsante e algo mais perturbador e cru!”
Tenho um amigo chamado Chico Zé (nome altamente fictício) que fez questão de perguntar, ainda antes de Cristo nascer, se eu ia ao concerto de Baxter Dury. Não sendo eu alguém propriamente especial, ele perguntou a outras pessoas se também iam. As respostas variaram entre o “ainda falta muito tempo”, ao “sim” reticente e passaram pelo compreensível “mas quem é que é o Baxter Dury?”. Resumindo, nada ficou decidido e o tempo foi passando. Mas Chico Zé é um furacão social de tal ordem que foi averiguando, sempre que a situação o permitia, a presença de outros no concerto de Baxter Dury.
Ao entrar para o Altamont e verificar a calendarização de concertos, reparei num nome familiar a circundar o dia 10 de dezembro – Baxter Dury! A escolha estava feita. Eu tinha de ir a este concerto, beber uma cerveja, resmungar sobre o preço da mesma e abraçar o meu amigo Chico Zé, entre outros suspeitos do costume que ele arrastaria até à Marechal Gomes da Costa, nº29 B1, 1800-255 Lisboa.
Apesar de não conhecer detalhadamente Baxter Dury nem o que faz fumegar aquela voz intimidante e honesta que enche uma sala, fiquei logo refém assim que tocou a primeira nota, a viver algures entre um clubbing pulsante e algo mais perturbador e cru, que está mais do que evidente se prestarmos atenção a algumas das suas composições. Aliás, lanço mesmo o desafio de pararem tudo o que estão a fazer agora (espero que a ler isto), que vão até ao AZLyrics e que abram uma das inúmeras letras do novo álbum, Allbarone, e que se deliciem com os travos coloridos de amargura que lá moram.
Voltando à pista, e embora seja rapaz que goste de se aproximar do palco, desta vez decidi contentar-me com uma visão mais panorâmica e desfrutar de todo o concerto mais perto das portas de saída. Não que isto indicasse a minha predisposição para a noite, muito pelo contrário. A banda de Dury estava a dar os lanifícios necessários para este fazer o tapete de Arraiolos que bem entendesse. Têxteis à parte (sem contar com o fato impecável de Dury), o que estou a querer dizer é que todos em palco arrasaram com uma pujança invejável. Uma energia que ia aumentando de música para música, algo completamente evidente pela receção cada vez mais calorosa por parte de cada um dos donos daquele maralhal de mãos no ar.
Pessoalmente, cada vez mais gosto que me troquem géneros e rótulos musicais ao ponto de eu reconhecer alguns bocadinhos, mas não ser capaz de identificar o todo. E Baxter Dury conseguiu fazer isso mesmo. Eu até suspeito que, no meio de tanta dança, se eu parasse por um segundo, me conseguisse verdadeiramente emocionar com o que estava na sua spoken word eclética, no meio de intensos teclados, com vocais quer abrasivos quer etéreos, linhas de baixo pulsantes e mais umas coisinhas, aqui e ali, que ficavam no ouvido como uma minhoca numa maçã. Maçã? Mas qual maçã, qual quê! Quem acabou em modo vegetal foram todos os que esperaram, que aguentaram o encore e que vibraram com a última música de todas – onde o Lisboa ao Vivo ficou mesmo vivo! – chamada “Baxter (these are my friends)”.
E, por falar em amigos, só tenho a agradecer ao meu grande amigo Chico Zé por ter perguntado a todos se iam a Baxter Dury. Não só gastou metade do ordenado a pagar-me uma imperial, como tentou filmar uma parte do concerto da forma mais tremida possível tal não era o estado da festa.
No entanto, tenho de dar a infeliz notícia de que o meu amigo Chico Zé partiu o pé. Para efeitos de criar alarido onde ele não existe, e para dar ainda mais crédito (merecido) a Baxter Dury, vou mentir e dizer que foi neste preciso concerto que isso aconteceu. Ou seja, ele ficou “durydo”… e nós também.
Mas ele ficou mais.
Fotografias: António Vouga















