Cobrafuma e Spin the Skull esgotaram o Centro Cultural do Cartaxo para celebrar o décimo quarto aniversário das nossas Sessions e para enchermos o depósito de um bem cada vez mais escasso e valioso: Ânimo!
Pode até ser que a conversa sobre o papel da música, e da arte em geral, seja velha, mas está muito longe de estar gasta. Ainda assim, decidi poupar-vos a mais uma elucubração sobre o tema e, seguindo os exemplos da dupla que encheu o Centro Cultural do Cartaxo na passada sexta-feira, e ir directamente à prática. Tenho também consciência de que a ideia de que a vida anda dura será ainda mais velha e gasta, para além de corrompida pelo facto de exacerbarmos sempre aquilo que sentimos no presente. Cada um terá a sua história e as suas percepções e, por isso, peço-vos que aceitem esta premissa de que as coisas andam particularmente difíceis e de que, nestas alturas, precisamos mesmo muito dessa essência chamada Ânimo. Bem, se calhar, afinal não fui diretamente à prática. Mil perdões, vou agora!
Os Cobrafuma surgiram no meu radar em 2023 com o seu fantástico homónimo álbum de estreia e só descansei um pouco a alma quando os finalmente apanhei ao vivo a encerrar o Sonic Blast de 2024. De lá para cá, ficou algum vazio preenchido há muito pouco com a edição de Droga Total e agora com a possibilidade de os ver e ouvir mesmo ali à minha frente, in my face! O alinhamento encheu-nos as medidas juntando todos os temas do novo registo a uma boa dose de Cobrafuma, se bem que para ser sincero, e egosísta, … tinha ficado ali mais meia hora para os moços esgotarem o reportório!
A cavalo dos ritmos viciantes, mais eficazes de que qualquer martelo de Taylor, a cargo da bateria de Luís Chaka e do baixo de Rui Martelo – eu bem avisei -, Miguel Azevedo e Zé Roberto Gomes vão debitando rifalhões de extrema pujança num tom capaz de nos elevar aos céus. Houve mosh, crowdsurfing e as demais manifestações comportamentais do prazer que só (est)a música nos é capaz de dar … porque, às tantas, também será este um dos papéis da dita. Penso que fará ainda falta, e sentido, sublinhar – para quem ainda não se aventurou a ouvir os Cobrafuma – a delícia que é ouvir as letras em português, que para além de conferir à banda uma personalidade bem vincada, reforçam a pungência do seu conteúdo de alerta e crítica social.
Na segunda e última vez que tive a sorte de apanhar os Spin the Skull – aqui nesta precisa sala e a aquecer as hostes para as suecas MaidaVale – tentei descrever o que é a experiência de ouvir e sentir este trio daquela terra que alguns dizem não existir. A capacidade de deglutir uma considerável paleta de influências musicais – metal, psique, doom, punk, e o que mais conseguirem detectar – e cuspir (com o devido respeito, claro) uma sonoridade inventiva e fora do comum, não só se mantém como parece mais robusta e cativante. É que nos entretantos, os moços deitaram cá para fora o seu (também) homónimo disco de estreia (setembro de 2025) que continuam a divulgar por essa estrada fora, afinando a sua arte e fazendo-nos fechar os olhos ao balançar o pescoço.
Aparentemente, os pais do Thrash Metal, que ajudaram a formar o gosto musical e a consciência social de tantos entões (quarent ou cinquent … escolham o vosso prefixo) como eu, andam para aí a fazer figuras cada vez mais tristes. Felizmente, por cá temos bandas como os Cobrafuma e os Spin the Skull a assegurar que o legado não se deixe arrastar pelo lodo mercado da nostalgia e, pelo contrário, ganhe cada vez mais importância por retratar vida por estar mesmo aqui na nossa cara, a descarregar torrents de energia. Foi uma verdadeira enxurrada de ânimo, a que recebemos na passada sexta-feira e, por isso, o meu obrigado a ambas as bandas e a quem as trouxe ao Cartaxo.
Fotografias: Rui Gato





























