Lusophonia

You Can’t Win, Charlie Brown || C.C.B.

Entrando no grande auditório do CCB rumo ao assento designado, frente a tanta parafernália musical, julgar-se-ia estar na presença da versão folk-rock dos LCD Soundsystem. Salivava-se para o concerto dos You Can’t Win, Charlie Brown. Não desapontariam. A banda entraria no palco em completo silêncio e David Santos, também conhecido como Noiserv, abriria as hostes sonoras, soltando o sample ziguezagueante que conduz o captivante single “Above The Wall”. Os restantes companheiros ascendem à ocasião, perfeitamente sincronizados num groove ainda morno para o que se seguiria. “Linger On” é, à semelhança do álbum em apresentação Marrow, a canção que se seguiu – tocada, na premissa do talentoso vocalista Afonso Cabral, para “aquecer as coisas”. Melodias de guitarras cristalinas gladiavam-se, escudadas por um baixo gordo e petulante, a trote numa batida segura e pujante.

Este brio pelo jogo entre instrumentos ganharia mais fôlego quando, à já numerosa banda, se acoplaria um coro feminino de seis elementos, a que David Santos agradeceria pela paciência na colaboração em ensaios de horário “pós-pós-laboral”. Uma vibrante “Shout”, mais à frente, deitaria a mais remota dúvida do público quanto ao sucesso da colaboração: o som dos You Can’t Win, Charlie Brown é comunal, havendo sempre espaço a mais um som, a mais uma melodia. O tema subsequente seria abismal. Marrow é uma obra de reinvenção, a personificação da gente que James Murphy dizia “atirar as guitarras pela janela fora e comprar sintetizadores por querer fazer algo real”. “If I Know You, Like You Know I Do” provou-nos quão triunfalmente o sexteto escamou a pele. Espevitada por um sintetizador que não cairia mal no catálogo da DFA, a atraente faixa, oleada a luzes néon e sedutoras vozes, foi propulsionada à estratosfera pelo coro feminino, transformando a sala do CCB, já confundida por uma discoteca nesta fase do concerto, numa igreja sulista. Disco gospel, gospel goes clubbing, cataloguem-no como desejarem. O busílis está em quão sedutor foi ver estes músicos levarem-se aos limites, não só deles próprios, mas um dos outros, criando algo que, não obstante não ser propriamente uma novidade, foi extremamente cativante.

O concerto continuaria e provar-se-ia mais uma vez a mestria dos You Can’t Win, Charlie Brown de conjurar diferentes ambiências e sentimentos. Em “Be My World”, uma batida minimalista revelou a verve vocal de Afonso Cabral e sensibilidade rítmica da banda. “Frida (La Blonde)”, vencedora da mais calorosa recepção por parte do público, sublinhou o talento de Tomás Sousa na confecção de dulcíssimas linhas de baixo, com o apoio de dois violinistas e um violoncelista para levar a canção a porto ainda mais jubiloso do que aquele que deduziríamos pelo conhecimento da versão de estúdio da extraordinária balada. Entre solenidades e deboches, mirabolares harmónicos e dissonantes bamboleares, o sexteto deu por terminado a primeira parte do seu alinhamento convocando três amigos que substituíram vários membros da banda durante a tour, para uma rendição selvática de “Natural Habitat”. Grandioso, no mínimo.

“Sabem, quando inventaram os encores, deve ter sido uma grande surpresa.”, ironizou o vocalista, voltando a palco com os seus irmãos de armas.

“Sad Song”, idosa canção do há muito ido ano de 2009, seria a primeira das duas canções que constituiria o encore dos You Can’t Win, Charlie Brown numa noite gélida de Janeiro no CCB. Domiciliada no primeiro EP da banda, a composição é, justiça ao título feita, um exercício melancólico desambicioso, maneada de fio a pavio por simples acordes de guitarra e o habitual brique-a-braque instrumental dos YCWCB. Apesar de longe se encontrar das metamorfoses espásticas de beatitude do primeiro registo Chromatic ou do subsequente Diffraction/Refraction, e certamente ainda mais dos momentos melancólicos sob bolha de espelhos do mais recente registo Marrow, “Sad Song” é dos momentos mais bem conseguidos da carreira da banda. A gravação em estúdio peca pela má qualidade de gravação, contudo sente-se nesta canção uma cedência à descomplicação e ao imediato, acoplando-se, por associação, a estas qualidades, uma certa dose de imediatismo, algo que não destoa numa obra maioritariamente populada por exercícios de hiperactividade na estrutura e melodia no espaço de uma faixa. Ponto feito, a coda da canção que aqui se elogia faz-se de um mantra tocante acapella – este foi corajosamente tentado com a participação vocal do público, comentários de membros da banda antes de tal se tentar (durante a música, faça-se notar), interjeições do género “correrá bem?” ou “já não fazemos isto há tanto tempo!” Fora algumas entradas fora de tempo por parte da plateia, respondidas simpaticamente pela banda num par de gargalhadas, correu lindamente. Sentia-se ali um calor amigo, um calor de abraço face à inevitabilidade que o concerto acabaria e o gelo intempestivo da Lisboa à beira Tejo voltaria para nos resfriar até à medula.

Oportunamente, “An Ending” seguir-se-ia. Mas esqueçamos por momentos esse ponto final melancólico. Tal como foi várias vezes proferido ao longo da noite, “Sad Song”, esse capítulo antes do último, foi uma celebração. E como as melhores celebrações, foi um pouco nostálgica, foi um pouco embaraçosa, foi um pouco perfeita. Mas foi, sem sombra de qualquer tipo de dúvida, You Can’t Win, Charlie Brown.

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Fotos: Luís Flôres