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Xutos & Pontapés: a história bonita de uma vida malvada

Obrigado, Xutos. Por serem quem são, por termos crescido com eles e com o rock cantado em português, por nos terem dado ao longo de mais de 30 anos a banda sonora das nossas vidas.

Os Xutos são uma instituição. Há o fado, o futebol e Fátima, e depois há os Xutos (enrolando joints com a mortalha da Amália, tomando banho na aguardente de Eusébio, jogando a dinheiro com os três pastorinhos). Os Xutos são como nós, gente comum, tão portugueses como as sardinhas no pão. Quem nunca cruzou os braços em X e não sabe cantar “Para Ti Maria”, traiu a sua pátria.

Tudo começou em 1978, com os punks Zé Pedro e Zé Leonel a quererem ser os Clash da Encarnação. Zé Pedro era apenas o bom rebelde, com um alfinete-de-dama a aconchegar o sorriso aberto. Já Zé Leonel, com as suas orelhas pintadas de verde, era avariado antes do punk existir. Não faziam mal a uma mosca, mas quem nesse tempo se cruzasse com eles no passeio depressa mudaria para o outro lado da rua.

Zé Pedro tocava guitarra (se é que se podia chamar tocar àqueles três acordes enferrujados). Zé Leonel era a voz e o desvario. Faltava agora recrutar os demais. Para a bateria foram buscar um beto resmungão do Restelo, um tal de Kalú, importado do Porto. Para o baixo, arrolaram um tipo de Almada, estudante de Agronomia, um tal de Tim. Os Xutos já não eram apenas uma fantasia sonhada no café Vá-Vá ou na cervejaria Trindade. Eram agora de carne e osso, tão palpáveis como a cara esburacada de Zé Pedro. Em 1979, dão o primeiro concerto nos Alunos de Apolo. À boa maneira punk, tocam quatro temas em seis minutos. A vida malvada acabava de estrear.

Os primeiros Xutos: Tim, Zé Pedro, Kalú e Zé Leonel

1981 é um ano de mudanças. Zé Leonel começa a faltar aos ensaios, obrigando o desgraçado do baixista a substitui-lo na voz. O desleixo persistiu até que não restou outra alternativa senão dar um chuto e um pontapé no carismático fundador. A contragosto, Tim torna-se também o vocalista. Por outro lado, a guitarra de Zé Pedro era demasiado lacónica para o som que buscavam. É então que Francis entra para a guitarra-solo. Estavam, por fim, prontos a gravar.

A vida discográfica dos Xutos começou como a vida sempre começa: com “Sémen”. Em 1981, o lobo António Sérgio aposta no single para a independente Rotação. A canção é enorme, com um sentido pop irrepreensível, mas a sua semântica peganhenta é censurada pelas rádios. “Sémen” não vai a lado nenhum mas fecunda o primeiro longa duração- o apunkalhado 78/82. As suas guitarras ásperas assustam muita gente. Os Xutos são então vistos como uma fauna perigosa. As referências ao incesto e à heroína não ajudam, para não falar da blasfémia de “Avé Maria“. Os rebeldes dos subúrbios babam-se, os meninos dos Salesianos benzem-se. Como se não bastasse, o disco chega em contraciclo: a explosão do rock português havia desvanecido. Apesar das boas críticas, 78/82 vende pouco. O azar persegue: a Rotação abre falência.

Francis era um excelente guitarrista, mas nunca foi Xutos de alma e coração. Nunca comungou da ética de rua e combate dos demais. Foi, portanto, sem surpresa que acaba por sair da banda em 1984. É então que o mágico João Cabeleira entra em cena. Tímido, sovina nas palavras, engrandece quando começa a tocar: um virtuoso, com um estilo muito próprio, cheio de imaginação. O primeiro registo com o mago é “Remar, Remar”, publicado no mesmo ano pela Fundação Atlântica. Este single é, talvez, o melhor tema dos Xutos, um hino à resistência num país claustrofóbico que frustra “todas as tuas explosões”. O lado B é também encantador, a nublada “Longa se Torna a Espera”. Mas uma qualquer maldição deve ter sido rogada sobre as editoras independentes que os apoiam. A Fundação Atlântica submerge no seu auge.

Os segundos Xutos: com Francis na guitarra-solo e Tim já na voz

Os Xutos estão de novo órfãos, sem editora. Enviam maquetes para a Valentim de Carvalho mas a major prefere não arriscar. Viram-se então para a sua segunda casa: o emblemático Rock Rendez Vous. Primeiro, através da colectânea Ao Vivo no Rock Rendez Vous em 1984 (onde assomam “Esquadrão da Morte” e “1º de Agosto”). Depois, através de um segundo longa-duração, o mítico Cerco, publicado em 1985 já com Gui na tripulação.

Os Xutos contam agora com dois pintores: a guitarra irrequieta de Cabeleira e o saxofone expressivo de Gui. Com os cinco magníficos finalmente reunidos, só poderia germinar um enorme disco, onde “Homem do Leme”, “Conta-me Histórias”, “Barcos Gregos” e “Sexo” têm de se digladiar pela disputa do pódio. O som é roufenho, como se tivesse sido gravado num leitor de cassetes do ZX Spectrum; o que só abrilhanta ainda mais a sua aura de disco de raiva e resistência.

Ignorados pela indústria, não restava outra alternativa aos Xutos senão desdobrar-se em concertos, onde quer que fosse, por qualquer vintém. Cada concerto era um combate, uma trincheira de público a conquistar com sangue e suor. Nas noites de 31 de Julho e 1 de Agosto de 1986, dão-se os lendários concertos no Rock Rendez Vous. Os espectáculos são gravados, captando os Xutos no auge da sua fase de culto, a taça da popularidade prestes a transbordar. Mas só catorze anos depois é que de Agosto no Rock Rendez Vous vê a luz do dia. Felizmente, 1986 é um ponto de viragem no mercado nacional: a indústria voltando a investir no rock português. Numa dessas mágicas noites, os Xutos assinam pela major Polygram. Suspiro de alívio. Depois de tantos anos de luta, a travessia no deserto chegara ao fim.

Cartaz do Rock Rendez Vous em 1981

Em 1987, Circo de Feras sai para a rua e é disco de ouro. Os Xutos estão oficialmente na primeira divisão do rock nacional. “Não Sou o único”, “Vida Malvada” e “N’América” são hinos que sabemos de cor. É o álbum operário dos Xutos, uma espécie de Bruce Springsteen com pastéis de bacalhau. Nele assomam sons fabris: o ascensor de “Contentores” e o martelar na bigorna em “Desemprego”. Um disco brilhante que nos ensopa a alma em ferro e óleo.

Em 88, os Xutos sobem ainda mais a parada, naquele que é o pico da sua imaginação melódica. “Para Ti, Maria”, “À Minha Maneira” e “A Minha Casinha” são apenas a ponta do iceberg de um disco perfeito. É um álbum de uma alegria transbordante e contagiosa. Depressa chega a disco de platina. Oferece-se a discografia completa dos Xutos a quem encontrar uma sequência de acordes mais bonita da que a de “Prisão em Si”.

Para divulgar 88, os Xutos fazem a maior digressão que Portugal conhecera até então. Depois de dezenas de concertos por todo o país, a tournée encerra no Pavilhão dos Belenenses, com três noites lotadas na véspera de Agosto. Os espectáculos foram gravados para o triplo-álbum Ao Vivo, publicado ainda em Novembro. Vinte e oito gemas retratam os Xutos no pico absoluto da sua carreira. De novo, disco de platina, seguindo o modelo dos Clash com Sandinista: a banda aceita receber menos para que o disco triplo custe aos fãs o mesmo que um disco normal. Os Xutos têm Portugal a seus pés.

A formação clássica dos Xutos: já com Gui e João Cabeleira

Em 1989, apareceu mais um grande single nos escaparates: “Se Me Amas” no lado A, “Submissão” no lado B; dois clássicos bem conhecidos dos concertos mas gravados agora pela primeira vez em estúdio. Os anos 80 não podiam ter acabado de melhor forma.

Já o virar da década deu azar. Gritos Mudos é o primeiro passo em falso dos Xutos, mal recebido pelo público e pela crítica. O problema não é a sua produção limpa (já 88 a tinha sem atrapalhar ninguém) nem a sua escuridão (já o Cerco era sombrio sem mal algum vir ao mundo). O revés é de outra ordem: menos inspiração melódica, menos canções memoráveis. Se exceptuarmos a belíssima canção-título (e talvez a surf music de “El Tatu”), poucos são os temas realmente dignos de figurar no cânone dos Xutos. Não é um mau disco; mas também não é muito bom.

Mergulhados em dívidas, e com problemas de management, os Xutos entram em crise interna. Gui abandona a banda, e os demais deixam os Xutos em banho-maria, enveredando por projectos paralelos. Tim integra a Resistência; Zé Pedro e Kalú juntam-se ao Palma’s Gang e abrem o Johnny Guitar (a tentativa possível de substituir o defunto Rock Rendez Vous). Com a saída de Gui, chega ao fim a fase clássica dos Xutos, de longe a mais inspirada. Um percurso criativo quase perfeito.

Central na mitologia dos Xutos: os fãs cruzando os braços em X

1991 é um ano de ressaca, de desnorte, de rumo indefinido. Especulava-se que a banda ia acabar, e não deixa de ser irónico ter havido essa possibilidade, o fim da maior banda de rock nacional de todos os tempos, exactamente numa altura em que a música cantada em português, puxada pelo enorme sucesso da Resistência, estava finalmente nos ouvidos do grande público. Ainda assim, temos de destacar o lançamento da biografia “Conta-me Histórias”, de Ana Cristina Ferrão, ainda hoje a “bíblia” fundamental para entender a história dos primeiros anos da banda. Para quando uma urgente actualização e reedição?

Em 92, dá-se o pontapé na crise, da forma como os Xutos sempre haviam feito, a trabalhar. Entram em estúdio com a ideia de fazer um álbum duplo, um statement. Acabam por ceder à pretensão da editora e concentrar-se num de cada vez, com a edição, perto do final do ano, de Dizer Não de Vez.

Em formato quarteto, o disco é a casa de “Ai a minha vida” e, sobretudo, de “Chuva Dissolvente“, single enorme que conquista novos fãs e lembra aos mais antigos que ainda havia ali vida, e coisas para dar ao mundo. A prova veio das vendas bastante apreciáveis de Dizer Não de Vez e, sobretudo, da sua actuação no Festival Portugal ao Vivo, em 1993, uma celebração da música portuguesa eléctrica. Os Xutos em palco são como animais à solta, e dominaram o evento, reclamando aí a sua coroa. Uma das muitas actuações que ficaram para a História. Ainda nesse ano é editado Direito ao Deserto, a tal segunda metade do programado disco duplo.

Tim no Festival “Portugal ao Vivo”, em 1993

Em 1994, um evento simbólico e emocional. Kalú jogou em casa quando os Xutos comemoram 15 anos enquanto banda, no Coliseu do Porto. Para além do agora quarteto, três convidados muito especiais desta família especial: Gui, Francis e Zé Leonel. O ano é passado na estrada, cimentando tijolo a tijolo aquilo que é a grande força da banda, a união que, em palco, consegue ter com os fãs, novos e velhos.

Um ano depois, novo marco na carreira da banda, e um que conquistaria muitos novos ouvintes. Inspirado no modelo do MTV Unplugged, a Antena 3 convida os Xutos para um concerto acústico. O sucesso foi tal, assente na força das músicas mesmo assim mais calmas e despidas, que deu origem a Ao Vivo na Antena 3, que nem estava planeado. Sai bem em cima do Natal e explode nas tabelas de vendas. Seguiu-se uma digressão nesse formato acústico, mais uma vez bem sucedida. O ano de 96 não fecha sem que a Blitz tenha praticado um acto de manifesta justiça: na primeira cerimónia dos Prémios Blitz, entrega o Prémio Carreira aos Xutos & Pontapés. Quem mais?

Terminado o contrato com a Polygram, é hora de encontrar nova casa, desta feita a EMI, por quem lançam Dados Viciados, em 1997. O evento comemora-se, naturalmente, na estrada, com uma digressão dedicada à promoção do disco mas que conta, obviamente, com muitos dos sucessos do passado. Este é, aliás, o modus operandi desses anos e que, de certa forma, dura até hoje. Discos sempre de qualidade média/alta mas sem ombrear com os da década de 80, que sustentam uma digressão com energia e material renovado e que vão pingando, aqui e ali, novos singles que se tornam sucessos de palco.

A cumplicidade de Kalú e Zé Pedro

Em 1999, a banda atinge um número de que muito poucas se podem orgulhar: os 20 anos de carreira. O ano é de celebração, com a edição do disco XX anos XX Bandas, no qual 20 grupos nacionais dão o seu cunho ao cancioneiro já histórico dos Xutos. O ponto alto é a festa num esgotado Pavilhão Atlântico. Ainda em 99, o sempre irrequieto e multifacetado Tim estreia-se a solo, com o disco Olhos Meus.

Em 2000 não há disco novo, mas há disco! E que disco! É finalmente editado 1º de Agosto no Rock Rendez Vous, gravado em 1986 mas nunca editado. Continua a ser uma extraordinária amostra do poder dos Xutos dos primeiros anos. No ano seguinte, novo álbum de originais, XXI, e concertos atrás de concertos, atingindo a marca de 600 mil espectadores só em 2001.

Segue-se algo que se tem tornado habitual, não só nos Xutos mas em todas as bandas grandes que trazem tanta História às costas: a edição de registos ao vivo, como são exemplos Sei Onde tu Estás e o acústico Nesta Cidade, bem como o muito bem sucedido DVD Ao Vivo no Pavilhão Atlântico.

O mítico concerto de 86 no RRV, publicado em 2000

Há muito que os Xutos são uma instituição, mas o país reconhece-o oficialmente em 2004, quando os rapazes comemoram 25 anos de carreira: o Presidente da República, Jorge Sampaio, condecora os Xutos com a Ordem do Infante D. Henrique. Ainda nesse ano, regresso aos discos de originais, com o bem conseguido O Mundo ao Contrário. O Pavilhão Atlântico esgota duas noites para a festa de aniversário.

Em 2007, a tragédia atinge o núcleo duro da banda, com a morte súbita de Marta Ferreira, irmã de Kalú e manager dos Xutos na última década. É um tempo de consternação e de profundo pesar, e a resposta só podia ser uma, voltar à estrada. Um dos destaques é a celebração dos 20 anos de Circo de Feras, que dá origem a três concertos únicos e esgotados no Campo Pequeno, em Lisboa. No ano seguinte houve tempo para voltar de novo ao passado e “regravar” Cerco, disco mítico mas cujo som sempre deixara a banda insatisfeita (sem razão, dizemos nós). O Cerco Continua, versão revista e aumentada, é finalmente editado em 2012.

Os 30 anos são atingidos em 2009, sendo o ponto mais alto o grande concerto no Estádio do Restelo, com convidados como Camané, entre outros. Simbolicamente, é reeditado o fabuloso Xutos ao Vivo, de 88, e os rapazes arrancam mais um disco de originais, chamado simplesmente Xutos & Pontapés, que se revela um sucesso de vendas. Zé Pedro, que se vinha debatendo com problemas de saúde depois de anos de abusos, é obrigado finalmente a parar em 2011. Mas a digressão continua, com o seu roadie Tó Zé no seu lugar. Depois do delicado transplante de fígado, regressa como um herói no palco principal do então Optimus Alive. É também a ocasião para o eterno guitarrista dos Xutos lançar o seu “álbum a solo”, chamado Convidado, na prática uma compilação de colaborações que foi fazendo ao longo dos anos em discos de amigos como Paulo Gonzo, Jorge Palma e Sérgio Godinho. Em 2012 é a vez de Kalú se estrear a solo, com Comunicação.

Os cinco magníficos, tantos anos depois

Com os 35 anos a aproximar-se, no ano seguinte, os Xutos aproveitam 2013 para preparar novo disco de originais, e até agora o seu último, Puro, que seria editado em 2014, ano de tão especial aniversário. A festa é mais uma vez no então Meo Arena (agora Altice Arena) com 30 mil pessoas em duas datas esgotadas e históricas.

A história recente dos Xutos tem-se feito assim, de muitas digressões, concertos cheios (são obrigatórios e brutalmente eficazes no palco principal do Rock in Rio Lisboa, desde a primeira hora), novas músicas e um tratamento adequado do passado que orgulhosamente podem ostentar, seja através de discos ao vivo ou de reedições mais cuidadas.

O grande ponto de interrogação na vida da banda chega em 2017, devido à deterioração da saúde de Zé Pedro. O grupo chegou a não saber se este estaria em condições para o grande e comovente concerto no Coliseu dos Recreios, no qual uma plateia emocionada mimou e amou como sempre e como nunca este verdadeiro herói do rock português.

O comovente concerto no Coliseu (2017)

Como sempre fizeram na cara do perigo, os Xutos avançam com vontade de ferro, cerrando os dentes, agarrando-se uns aos outros, aos seus fãs e à História que juntos construíram. Zé Pedro luta pelo restabelecimento com a garra de um garoto que, no longínquo ano de 78, decidiu fazer uma banda, que se tornaria a maior instituição do rock nacional de todos os tempos. Há até um disco novo em preparação, uma espécie de ousado bluff  quando o futuro é tão incerto.

Não importa. Agora, como sempre, os Xutos fazem as coisas “à sua maneira”, e nós só temos de estar gratos. Por serem quem são, pelos milhões de espectadores satisfeitos, por termos crescido com eles e com o rock feito e cantado em português, por nos terem dado ao longo de mais de 30 anos a banda sonora das nossas vidas.

É só isto que, agora, temos para dizer. Humildemente, o nosso muito obrigado.

Texto de: Ricardo Romano e Tiago Freire