Canção do dia

“Utopia Overture” – Cristobal Tapia de Veer

Já é nossa intenção tratar de bandas sonoras há tempos, a disponibilidade tem-no adiado, há-de vir. Esta foi das sugestões primordiais, embora em formato mínimo. A entremeada entre a sonoridade da OST e a série, em total oposição à relação simbiótica em Twin Peaks, denota uma insustentabilidade inadmissível num primeiro plano, onde é que já se viu, meia dúzia de sotaques escoceses cerrados em confronto com a calidez das cumbias. Contudo, 1. o facto, salvo seja, é que a guarida que estas cumbias fazem da antecipação e do suspense lato — os sintetizadores fundados no enigma, o desdobramento do duplo estranho no arremessar pululante de vozes perturbadoras, o build-up calculista e throat-grabbing —, tudo é refém dos prenúncios com algo de nonsense, algo de mau augúrio, da tensão e da paranóia debilitante da narrativa. Mais, 2. entrelaça as pontas Cristobal Tapia de Veer também (ora, o leitor já adivinhou) por aquelas cumbias, na invocação tropicalista da cor e do abrasamento da saturação, os ritmos orgânicos, e entrelaça-as à fotografia da série, arrepiada de policromia sempiterna, e tudo se incrusta em cada qual. Aquele primeiro plano perde pertinência, perde-a toda, que a coisa faz sentido. O tropicalismo conhece a nervura cosmopolita, dão dois beijinhos, oh, amor à primeira vista.