Reportagens

Tim Bernardes || ZDB

Não há nem tempo nem espaço. Tudo flutua entre paisagens e tons, sinais de todas as partes, linhas de equadores a norte e a sul de todos os pecados do planeta. A unir o que não tem tamanho, a unir o mundo que se costura num fio de som, a música!, que de tão noturna parece que só tem vontade de brilhar para dentro. Um novelo de luz a enrolar-se em cada um de nós. Lá fora, a poucos passos deste espaço, haverá noite e haverá dia, solidão e companhia por entre versos de muitas e perpétuas canções. Afinal, o que existe fora de nós também pode caber no mais íntimo de nós. É só tentar que assim seja, é só tentar “recomeçar” o que queremos que não acabe nunca.

Depois há a tristeza, o sofrimento, a dor partilhada em palavras bonitas, cantadas, lançadas ao ar (“É no ar que ondeia tudo! É lá que tudo existe”, como dizia o poeta) para que as agarremos, condoídos na dor que se cozinha em fogo lento, brando, queimando pequenos pedacinhos da alma que nem sabíamos que existiam.

E depois há ainda o AMOR (assim mesmo, em letras grandes) que parece ser um rio em que é difícil navegar e onde todos desaguaremos cansados, jazentes, mas prontos a “recomeçar”, até porque o que queremos “é gostar de alguém” como quem gosta de canções feitas para gostarmos delas.

E depois, quando nos garantem que se pode morrer “por dentro”, é chegada a hora de emergir, recuperando os mesmos tempos e espaços sem lugar. E, uma vez mais, “recomeçar”.

Tudo tem princípio e fim. Tudo começa e acaba, mas o eco desses caminhos ainda pulsa, pulsa agora, pulsa sempre, tanto no peito como na mente. Que encanto teria a vida, que prazer, se nela não houvesse, mesmo que apenas por momentos, um coração que de tão ativo, precisa de adormecer?

(Imagem de um concerto no Brasil de Felipe Giubilei)