Reportagens

The Jesus and Mary Chain || Coliseu dos Recreios

A operação de amputação do rock terminou com sucesso. Com a sua motosserra de distorção, os Jesus and Mary Chain extirparam, uma vez mais, o rock da sua testosterona e colocaram-lhe a prótese pop que só Jim e Will Reid conhecem.

Ao chegar à Rua das Portas de Santo Antão, como quem vem do Rossio, começava a ver-se uma multidão muito particular de pessoas: entre turistas de câmara em punho e a enfardar bitoques, bacalhau e Super Bock, um mar de casacos de cabedal, cristas, piercings, caras pintadas, calças pretas. De repente, a rua transformou-se numa máquina do tempo e transportava-nos para a altura em que o mundo da música underground e indie se dividia numa rivalidade acesa entre a malta do post-punk e os góticos. Estávamos em Inglaterra nos anos 80. E quem mais podia ser a razão da união – agora pacífica – destas multidões? Senhor Jesus, é claro. Estavam a pôr-se a postos para a celebração da vida e da morte que estava prestes a decorrer no Coliseu dos Recreios.

E qual não foi o seu espanto quando, às 21h45, as luzes se apagaram e, em vez de uma guitarra a rasgar o ar, se começaram a ouvir as orquestrações barrocas, de uma perfeição pop eterna, concebidas por Brian Wilson em 1966? Pois, é verdade: a entrada gloriosa de Jim e Will Reid foi ao som de “Pet Sounds”. A homilia destes cardeais do rock sempre foi pela celebração igualmente fervorosa da pop e pela destruição dos estereótipos associados quer a um, quer a outro género. Não é um nem o outro: é a fusão do corpo e do sangue por via da destruição assassina dos feedbacks e da distorção. A religião perfeita.

Durante hora e meia, os irmãos – acompanhados de três músicos exímios – espalharam a sua doutrina e fizeram-nos esquecer quaisquer dúvidas sobre este credo, para sempre inerente a Jesus and Mary Chain. Ao abrir com “Amputation”, a banda relembrou-nos logo do que são feitos: “I’m a rock and roll amputation”. E seguiram para um dos seus sucessos mais pop, a incontornável “April Skies”. Aqui, o público juntou-se a Jim Reid para entoar fervorosamente as palavras proferidas pela primeira vez há mais de 30 anos, em Darklands.

Depois de dose dupla de Automatic, com as fantásticas “Head On” e “Blues from a Gun”, Jim Reid deixou escapar um tímido “Hi, thank you”, depois de mais uma enorme salva de palmas vinda de um público que, por essa altura, já estava mais do que conquistado. Daqui, após um regresso momentâneo ao álbum mais recente da banda, Damage and Joy, com “Black and Blues” e “Mood Rider”, os irmãos ofereceram-nos belas versões de duas das músicas mais pop do seu catálogo: “Far Gone and Out” e “Between Planets”.

Um dos primeiros grandes momentos do concerto surgiria no seguimento destas faixas, com a lenta e hipnótica – quase sexy – “Snakedriver”. Aqui, o mérito da execução brilhante e fantástica desta música vai todo para William Reid. Sempre encostado ao lado direito do palco, a evitar ser o foco das atenções, e preso entre pedais e dois amplificadores Orange maiores que ele, Will soltou, pela primeira vez, a besta de feedback e fuzz que sempre foi a sua marca distintiva. E como ela rosnou: em todo o lado na sala se ouviam as notas que tocava, a torcerem e contorcerem-se todas, num rodopio elétrico e frenético que poucos sabem invocar daquela forma.

Seguiu-se o feitiço sujo e sedutor de “Teenage Lust”, “Cherry Came Too” marcava o início da melhor parte do concerto, em que se juntaram os singles mais conhecidos da banda a algumas das melhores músicas dos seus vários álbuns. “All Things Pass”, música cujo título é impossível não associar ao álbum seminal de George Harrison, transformou o Coliseu numa celebração do hedonismo e arrancou dos assentos os poucos resistentes que ainda estavam sentados nas bancadas.

Se “Some Candy Talking” ficou marcada por início em falso, Will Reid compensou o público prontamente, com o seu melhor momento na guitarra: enquanto solava, foi acrescentando camada atrás de camada de distorção, overdrive e fuzz, criando um crescendo imensamente catártico de barulho colorido e terapêutico. Se havia demónios a pairar sobre alguém, foram expulsos ali.

No final de “Half Way to Crazy” e antes de entrar num dos momentos de maior participação popular, Jim Reid reparou em alguém que, aparentemente, dormitava na primeira fila e disse, enquanto ria: “I think that’s the first time someone’s fallen asleep on the first row… Or maybe he’s passed, that’s better”. Depois deste episódio caricato, as duas notas mais conhecidas da discografia dos Jesus and Mary Chain começaram a ouvir-se e a reação foi imediata: uma chuva de aplausos e gritos de excitação. “Darklands” uniu as vozes de todos os presentes de uma forma que só outra música mais à frente conseguiu fazer, protagonizando uma das partes mais bonitas do concerto.

E como que do dia para a noite, os irmãos Reid passaram para uma das músicas mais niilistas e negras da banda. Era também a última, ou, como avisou Jim, “this might be our last song… Here goes”. E arrancaram para uma execução fantástica de “Reverence”, em que tantos gritaram a par de Jim Reid “I wanna die, I wanna die”, em mais um momento de grande catarse. Esta também foi a primeira vez em que se viu um mosh no concerto. E assim, a banda saiu sob grandes aplausos, que gradualmente se transformaram num bater de pé ensurdecedor no chão do Coliseu, fazendo-os regressar ao palco para mais cinco músicas.

A começar, a música mais icónica da carreira da banda: “Just Like Honey”. Aqui não houve quem falhasse as letras e a emoção espalhou-se pela sala, no momento mais bonito do concerto. Depois, surgiu “Cracking Up”, o single de Munki, que antecedeu o momento de maior agressividade desta atuação: “In a Hole”, a frenética, crua e fria canção de Psychocandy. “War on Peace” foi o calmante dado pelos irmãos ao público, após o choque da faixa anterior, e que os levou até ao final triunfante em que declararam a sua essência: “I Hate Rock ‘n’ Roll”. Melhor final não se podia pedir aos irmãos, que saíram de palco debaixo de uma enorme ovação.

Apesar desta tour servir de promoção a Damage and Joy  – cujas músicas surpreenderam, de modo geral, com a vida que ganharam ao vivo, face à versão de estúdio –, este concerto acabou por servir como uma espécie de best of. O equilíbrio entre as várias fases dos Jesus and Mary Chain foi muito bem conseguido e, no final, ninguém se queixava de ter ficado por ouvir esta ou aquela música. De resto, há que louvar os técnicos de som da banda, que fizeram um excelente trabalho: não houve nenhum momento em que não se conseguisse distinguir vozes, guitarras, baixo e bateria, o que nem sempre é fácil de fazer numa banda como os Jesus and Mary Chain.

No final de uma das músicas, após mais uma grande salva de palmas, Jim Reid confessava, com um riso nervoso: “I’m supposed to talk now but I’m shy, I don’t know what to say”. Se esta é uma timidez que entre músicas transparece nesta dificuldade em falar com o público, durante as músicas vê-se no facto de, por diversas vezes, cantar virado para o irmão, numa cumplicidade enternecedora. Apesar de, ao longo dos anos, a sua relação se ter deteriorado (o que levou ao final da banda), é desta química fraternal – agora revigorada – que surge a força dos Jesus and Mary Chain. É daqui que nasce o ímpeto que os leva a assassinar o rock e a pop, na sua celebração da vida e da morte, e que os faz ressuscitar na música bela que só eles sabem fazer: algo que, no Coliseu dos Recreios, fizeram irrepreensivelmente para o prazer de quem teve a sorte assistir.

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fotografias de Inês Silva

 

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