Reportagens

Super Bock Super Rock 2018 || Dia 3

No seu último dia, o Super Bock Super Rock despediu-se do Parque das Nações com os concertos mais catárticos de todo o festival

Quando Baxter Dury subiu ao Palco EDP com a sua banda, contavam-se pouquíssimas pessoas na audiência. Rapidamente as suas danças idiossincráticas atraíram o público e o concerto rapidamente se compôs. O que no início era estranho e invulgar tornou-se aborrecido e previsível na segunda metade do concerto. Todas as músicas tinham uma dança no meio, em todas elas a guitarra tocava no terceiro tempo ou então em ritmo reggae. Baxter Dury é um vocalista charmoso mas o sentimento de novidade do seu synthpop com um travo a ska envelhece demasiado rápido.

Sevdaliza ©Inês Silva

Depois do concerto quase nenhum fã abandonou o seu posto. Sevdaliza estaria lá dentro de momentos naquele que foi o primeiro concerto imperdível do festival. A artista iraniana-holandesa entregou-se de corpo e alma às suas músicas e aos seus fãs inundando o Palco EDP com a sua pop experimental. A sua dança deixou o público ao rubro e entre canções, quando expunha a sua vulnerabilidade, enchia o coração dos fãs no processo.

É imperdoável o facto do Palco Super Bock estar meio vazio aquando do concerto de Benjamin Clementine. A sua banda, composta por um quinteto de cordas, um baterista e um guitarrista/baixista dominava o lado esquerdo do palco enquanto que uma sequência de manequins ocupava o lado direito. O músico londrino não escondeu o seu amor pelos portugueses e por Lisboa (que há-de ter sido uma das palavras mais frequentemente proferidas ao longo do concerto). Aos primeiros acordes de “Ave Dreamer“ a Altice Arena estava rendida e esta imersão durou até ao final, passando por “London” e “Phantom of Aleppoville” e acabando com “Adios” no final da qual a bandeira portuguesa foi projetada com uma mensagem: “Eu vou me lembrar de Portugal para sempre”. O sentimento é recíproco.

Benjamin Clementine ©Inês Silva

De volta ao Palco EDP a ressurreição dos The The decorria de forma explosiva. O concerto começou com “Global Eyes” e NakedSelf que lançado em 2000, é até à data, o último disco dos The The. Matt Johnson estava de bom humor, partilhando histórias da sua primeira visita a Lisboa e trocando impressões sobre o tempo lisboeta. “Flesh and Bones” e “Love is Stronger Than Death” fizeram as delícias do público, em particular a primeira, tocada numa versão mais jazzy do que em disco. A atual formação do grupo confere às músicas uma roupagem de rock alternativo em oposição ao synthpop e new wave que caracterizaram os seus primeiros lançamentos num concerto que funcionou como uma retrospetiva da obra de Matt Johnson e companhia. Ainda assim, o encore contou com dois hinos: “Uncertain Smile” e “I’ve Been Waitin’ for Tomorrow (All of My Life)” ambos resgatados do primeiro disco da banda Soul Mining de 1983.

The Voidz ©Inês Silva

Finalmente, o grande concerto da noite. Assim que Julian Casablancas e os Voidz tocaram o primeiro acorde o Palco Super Bock foi transportado para um futuro distópico industrial tipo Mad Max em heroína. Nota-se um claro amadurecimento na música de Casablancas. Os arranjos das músicas, apesar de continuarem a seguir a fórmula clássica de duas guitarras, baixo (sintetizado), bateria e teclados, estão mais inteligentes e contém desvios interessantes da norma. “Virtue”, faixa-título do segundo disco, tem o seu riff tocando numa kalimba eletrificada, dando à música uma atmosfera mais africana e “Take Me In Your Army”, do primeiro disco, Tyranny, permite à banda exibir a sua capacidade de improviso. Julian Casablancas está em excelente forma vocalmente (mais do que alguma vez esteve com os Strokes) e os seus rugidos ecoaram por todo o Parque das Nações. O ponto alto do concerto foi sem dúvida o encore. Ao lado do teclista, Jeff Kite, Casablancas cantou “I’ll Try Anything Once” a demo de um dos maiores hinos dos Strokes “You Only Live Once”. A voz dos fãs transbordava pela arena num dos momentos mais especiais de todo o festival. Por fim, “Human Sadness” acabou o concerto de forma catártica. Os onze minutos da canção evaporaram-se entre solos de guitarra, outros de piano e o falsetto intoxicante de Casablancas. Quando os ecos dos últimos acordes se desvaneceram, ninguém era a mesma pessoa que era antes.

O último dia do Super Bock Super Rock foi um dia cheio de emoção, não só pelo fim próximo do festival como também pela seleção de artistas que tornaram esta edição, uma das mais especiais a que já assistimos.

Texto: Miguel Moura || Fotografia: Inês Silva e fotos oficiais SBSR devidamente creditadas

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