Reportagens

Super Bock Super Rock 2018 || Dia 2

Como era de esperar, o segundo dia do Super Bock Super Rock, dedicado ao hip-hop, contou com uma muito maior afluência de pessoas e um público mais diverso.

Nenhuma quantidade de hype conseguiu salvar Profjam dos problemas técnicos que ameaçaram impedir que o seu concerto começasse. Há terceira é de vez, e o rapper atirou-se de cabeça para o seu set, suportado por Mike El Nite no papel de MC. Ambos os rappers tiveram espaço para trocarem freestyles que foram bem recebidos pelo público.

Fazendo juz ao nome Oddisee e os Good Compny acompanharam-nos numa odisseia de hip-hop, soul e R&B. The Iceberg, lançado no ano passado ainda parece imaculado e as letras socialmente conscientes do rapper de Washington, D.C. nunca ameaçaram tornar a atmosfera mais soturna, sendo intercaladas com secções na qual a participação do público era encorajada. Canções como “Like Really” e “That’s Love” permitiram ao público comunicar o seu amor por este artista e ver esse amor reciprocado em danças e momentos mais descontraídos. O facto dos Good Compny serem uma banda de jazz conferiu ao set uma maior elasticidade permitindo todo o tipo de brincadeiras e informalidades como a battle de beatboxing entre Ralph Real, o teclista e o MC ou o seu dueto com o guitarrista Ameer Dyson. Até Unown abandonou a sua MPC para cuspir umas rimas incendiárias. Com sorte, não teremos de esperar muito pelo regresso de Oddisee.

Oddisee & GOOD COMPNY ©Inês Silva

O hip-hop manteve-se vivo ao longo do dia e Slow J estreou o Palco Super Bock no dia 20, trazendo consigo Fred Ferreira e Diogo Ribeiro na bateria e teclados/guitarra respetivamente. The Art of Slowing Down é um disco ímpar no panorama do hip-hop nacional e Slow J continua a colher os frutos do seu excelente trabalho. Entre momentos mais solenes como uma canção tocada a solo na guitarra, houve também oportunidade de exibir a sua banda, em particular Diogo Ribeiro que teve oportunidade de tocar um solo demoníaco numa das músicas. A surpresa final do concerto foi a presença de Nerve em Às Vezes, a reunião de dois dos nomes mais importantes do hip-hop português desta década.

Slow J ©Inês Silva

De volta ao Palco EDP, Princess Nokia não deixou o público descansar. A tomboy do momento, que lançou recentemente uma mixtape emo “A Girl Cried Red” focou-se mais no seu primeiro disco de estúdio 1992, relançado oficialmente no final do ano passado. Canções como “Tomboy” e “Bart Simpson” viram no palco a sua ferocidade atingir um outro nível com o público a recitar cada letra religiosamente e as suas raízes punk foram lembradas com um cover a cappela de “I Miss You” dos Blink-182.

Chegou, no entanto, a hora daquele que foi, discutivelmente, concerto mais aguardado da noite. Anderson .Paak e os seus Free Nationals levaram-nos do Parque das Nações diretamente para um sunset em Malibu. Paak é daqueles vocalistas que consegue naturalmente e sem qualquer dificuldade segurar o público na palma da sua mão. O concerto começou com a intoxicante “Come Down” e o volume gerado pelo público raramente diminuiu a partir daí, mesmo nas canções mais calmas como “The Waters” e “The Bird”. Houve muitas surpresas, nomeadamente uma interpretação de “Glowed Up” produzida por Kaytranada (que por sinal, ainda está para se estrear por cá) e “Suede”, o single de Yes Lawd! do seu projeto colaborativo Nx Worries, ao lado de Knxwledge. Ao lado dos Free Nationals, .Paak conseguiu impressionar o público com a sua capacidade de tocar bateria e cantar ao mesmo tempo durante “Heart Don’t Stand a Chance”, “Sweet Gidget” e “Room in Here”. O concerto acabou com uma versão estendida de “Luh You” do seu disco de estreia Venice e, como uma estrela cadente, os músicos saíram do palco tão rápido como entraram. O público, por seu lado, estava irremediavelmente alterado, abençoado por Anderson .Paak e os Free Nationals.

SBSR ©Inês Silva

No final da noite, às 23:50 em ponto, Travis Scott entrava no Palco Super Bock. Entre interpretações de “Company” de Drake e “Huncho Jack” do seu projeto homónimo com Quavo dos Migos, o veterano do trap deu um concerto à medida e mostrou o porquê de ser um dos nomes maiores do género. Hinos como “Mamacita” e “90210” são já clássicos do trap e os fãs cantaram-nas com uma confiança que refletia o quão conhecedores todos eram da obra do artista. A presença de palco do rapper provava-se omnipotente, com a sua capacidade de aparentemente transformar a enorme arena do Palco Super Bock num palco mais pequeno e íntimo ao som de raridades como “Upper Eschelon” da sua primeira mixtape Owl Pharaoh. O melhor foi deixado para o fim e o encore contou com “Goosebumps” uma das suas músicas mais conhecidas, numa interpretação que sem dúvida converteu até os maiores céticos.

No seu segundo dia, o Super Bock Super Bock brindou-nos com uma noite de hip-hop, trap, jazz e R&B. Se alguns saudosos afirmam que o festival se está a afastar das suas raízes, nós por aqui, apoiamos esta procura por um cartaz mais eclético, principalmente quando este consiste em artistas deste calibre.

Texto: Miguel Moura || Fotografia: Inês Silva e fotos oficiais SBSR devidamente creditadas

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