Canção do dia

“Sun King” – The Beatles

It was a good way to get rid of bits of songs“, pôs Lennon “Sun King” nestes conformes. E com que pertinência o diz, não é, se, ao pragmatismo observacional da chegada de Sun King e da rectidão descritiva em menção dos risos e das felicidades circundantes, se agregam não mais do que fragmentos! Que é “carathon”?, que é “abrigado tantamucho”?, que é “canite”? São pedaços de coisas. São palavras. Não são nada. Numa tirada T. S. Elliottiana, prescrevendo os sânscritos e os gregos antigos de The Wasteland, o sentido não tem sentido para coisa nenhuma, e é a sua ausência que cria a faixa — essa que se impõe a uma beleza indefinida, tornada um lânguido portento de ternura, a representação derradeira de uma harmonia interelementar. Não é nada. Lennon está pasmado com a consonância das redondezas, a ordem das coisas. Jamais haveria sentido que as ostentasse como tal. Deus nos guarde a balbúcie espontânea de Lennon, conclusiva apenas de uma contemplação inescrutável ao poder da linguagem: que a faixa e seu tema só fariam sentido caso sentido não tivessem.