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Roger Waters: há vida para além dos Floyd

Sozinho, Waters nunca conseguiu repetir a perfeição de um Dark Side of the Moon. Ainda assim, valeram bem a pena os seus quatro belíssimos discos. Era este o percurso pós-Floyd que realmente queríamos? Claro que sim.

Em 1983, os Floyd, tal como os conhecíamos, estavam à beira do fim. E quando uma banda se desmorona não há nada mais natural do que se gravar um disco a solo. A sua estreia, The Pros and Cons of Hitch Hiking, nascida no (orwelli)ano de 1984, é uma das suas melhores rodelas. Entregue a si próprio, Waters levou a sua afeição pelo formato álbum-conceito até as suas últimas consequências: as canções individuais não interessam um caracol, tudo é aqui subjugado ao fascismo da narrativa.

E qual não é o nosso espanto quando a grande obsessão de Waters – a guerra – não assoma por estas bandas. Pelo menos não no sentido literal; já que não poderemos dizer o mesmo da guerra – também implacável – consigo próprio. Waters não tem pejo em chafurdar na sempre embaraçosa crise de meia-idade: quando o desejo, a traição e a culpa ferram os dentes num casamento de longos anos. A história é irrepreensível, escrita com mestria e lucidez. A fragmentação musical é, talvez, excessiva, uma manta de retalhos melódicos sempre subjugados à suserana palavra. A música é desfocada mas bela, cheia de ecos do seu irmão-gémeo The Wall. A sonoridade é clássica e orgânica, fingindo que esse erro chamado década de oitenta nunca acontecera afinal. Um convidado muito especial aparece, o grande Eric Clapton, espalhando blues e magia com os seus dedos-maravilha. O diagnóstico parece-nos inequívoco: a primeira seta acerta no coração do alvo.

Volvidos três anos, uma nova seta é atirada – Radio K.A.O.S – mas desta feita a pontaria não é tão certeira. A começar logo pela produção datada, escorrendo azeite eighties pelos sintetizadores, pela bateria-robot, pela manhosa guitarra hard-roqueira. Mas o que é mais embaraçoso, pela importância que Waters sempre lhe atribuiu, é a fragilidade do próprio conceito. Estamos em pleno território Watersiano – a crítica à guerra – mas desta feita o enredo não tem ponta por onde se pegue: um miúdo mudo e paralítico consegue receber ondas de rádio na sua própria cabeça, entrar nos computadores das potências militares, simular um ataque nuclear, desactivar o contra-ataque e celebrar a vitória da paz mundial. What the fuck!? Nem o Tommy dos Who tinha uma história tão descabeçada.

Eric Clapton e Roger Waters em 1987

Mas nem tudo é mau em Radio K.A.O.S. As melodias são bonitas e orelhudas, revelando uma inesperada acessibilidade pop. O disco, além de focado e conciso, é bem disposto, transbordante de luz e esperança. A fé é, porventura, exagerada: o álbum acaba com o ingénuo, para não dizer kitsch, “The Tide is Changing (After Live Aid).” Não, amigo Waters: é claro que a maré não mudou, e nunca mudaria pela solidariedade de lantejoulas do Live Aids.

É importante aqui esclarecer que até este ponto ninguém ligou pevide às suas aventuras a solo. Waters é obrigado a tomar um valente banho de realidade: por maior que tenha sido o seu input criativo nos Floyd (incalculável!), o seu nome desgarrado não tinha qualquer valor no mercado pop. Pragmático, Roger corrige a rota, ancorando a partir daí as suas digressões no legado dos Floyd (revisitando os grandes clássicos The Dark Side of the Moon, Animals e The Wall).

Em 1992, Waters oferece-nos o grande Amused to Death. Felizmente para nós, Roger regressa à boa forma conceptual, substituindo o optimismo infantil de Radio K.A.O.S. pelo rigor do apocalipse. O tema é o de sempre – a guerra- mas desta vez vista sob o prima dos mass media. Deformada pelo ecrã da televisão, a guerra não tem um estatuto muito diferente do concurso acéfalo ou do jogo da bola: mais um produto de entretenimento, mais um objecto de consumo que diverte e distrai. No final da narrativa, alienígenas encontram extinta a espécie humana, “entretida até à morte”. A música, pesada e sombria, acompanha o espírito das palavras. As canções são belas mas trágicas, um espelho do horror do mundo-espectáculo. A produção tem mais gosto do que em Radio K.A.O.S. mas ainda há resquícios de azeite antigo, menos perdoáveis nesta nova era pós-Cobain.

Jeff Beck e Roger Waters em 1992

E depois de anos de silêncio criativo, eis que Waters regressa este ano com a sua obra-prima: Is This the Life We Really Want? Dir-nos-ão: pois e tal, mas não há ainda o distanciamento suficiente, rebeubéu, pardais ao ninho… Tretas. Quando todos os temas são bonitos, quando a produção de Nigel Godrich é todo um manual de bom gosto, quando tudo soa incrivelmente orgânico e genuíno, quando a voz envelhecida de Waters revela agora uma fragilidade tão humana, quando aos 75 anos ainda encontra forças para estar zangado com o mundo, é claro que estamos na presença do melhor disco de Waters. Os mais cínicos acusarão o réu de pastiche qualificado, tão abundantes são as citações a clássicos dos Floyd. Temos uma opinião diferente. A sua nostalgia é um acto afirmativo, quase terno: um velho reconciliando-se finalmente com o peso do seu passado.

Sozinho, Waters nunca conseguiu repetir a perfeição de um Dark Side of the Moon. Pode ter sido o principal criador dos Floyd mas a banda sempre foi muito, muito maior do que o ego do seu baixista. Ainda assim, valeram bem a pena estes seus quatro belíssimos discos. É este o o percurso pós-Floyd que realmente queríamos? Claro que sim.