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Que se foda a rainha: God save the Sex Pistols

Sex Pistols. Insubmissão, escândalo, censura. A única vez em que o gigante establishment teve realmente medo de uma banda de rock.

Os Sex Pistols não inventaram o punk. Aliás, se este for entendido num sentido lato, como rebelião jovem contra o instituído, ele nasceu duas décadas antes com a subversão do rockabilly. Jerry Lee Lewis tocando o piano com os pés foi talvez o primeiro punk.

O que direi a seguir é mais controverso, devido às profundas divergências entre as duas subculturas: os hippies foram os punks do seu tempo. Cuspam à vontade, não quero saber. Querem gesto mais punk do que Hendrix queimando a guitarra em Monterey?

Mas no rescaldo de uma revolução o establishment reorganiza-se sempre, o velhaco. Institucionaliza a rebeldia até ela perder todo o seu valor subversivo. Em meados dos anos 70, até os contabilistas usavam cabelos compridos e calças à boca de sino. A contracultura do passado tornara-se no novo mainstream. Era preciso, claro está, mandar tudo para o diabo outra vez.

Mas se os punks não gostavam dos hippies nem pintados, o que eles odiavam com todas as forças era a pompa do rock  progressivo e sinfónico. Gajos como os Yes, ou os Emerson Lake and Palmer, exibindo os seus solos balofos  de vinte minutos, eram o inimigo. O que o punk propõe é um regresso à simplicidade e pujança do rock’n’roll original. Canções curtas e enérgicas, sem rodriguinhos técnicos a atrapalharem. Claro que agora, volvidos vinte anos, o som é mais sujo e agressivo. Mas o imediatismo selvagem é o mesmo, o velho espírito do rock regressando ao campo de batalha.

Da esquerda para a direita: Sid Vicious, Paul Cook, Johnny Rotten e Steve Jones

As primeiras sementes do punk propriamente dito haviam sido lançadas no outro lado do Atlântico pelos Stooges e os New York Dolls. A partir delas, nascem os influentes Ramones. Mas esta cena nova-iorquina era muito pequena, quase confinada ao decadente CBGB. Vendia poucos discos e a sua rebeldia estava sobretudo ligada à estética musical. Só quando o pólen do punk aterra no Reino Unido, e dá forma aos Sex Pistols, é que o rastilho explode. A sua ideologia é então tornada explícita: rejeição da respeitabilidade burguesa, recusa da alternativa hippie. Um novo conflito de gerações, portanto. Sem a morte dos pais, a história do rock não avança.

Tudo começa em King’s Road, onde Malcolm McLaren tem uma loja de roupa chamada “Sex”. O puto Steve Jones adora parar por lá, fanando sempre que possível uma peça ou outra. Com o seu amigo Paul Cook, têm uma banda, os Strand: Jones na guitarra, Cookie na bateria. Jones pede a McLaren para os ajudar. Este aceita, não muito convencido. Mais para prevenir novos fananços do Jones do que por razões mais substantivas.

A loja de Malcolm McLaren onde tudo começou

Em Novembro de 1974, McLaren parte para Nova Iorque como manager dos New York Dolls. Já então está convicto de que a má publicidade, se conseguir gerar escândalo público, pode ser uma excelente estratégia de promoção. E como a maior fobia dos americanos é o fantasma comunista, decide embrulhar os Dolls em iconografia soviética. A estratégia não resulta, talvez por os Dolls estarem já à beira da sua implosão. Mas McLaren não desiste das suas insólitas teorias sobre a manipulação dos media. Quando regressa a Londres em ’75 dará mais atenção à banda que nascera das cinzas dos Strand- os Sex Pistols.

Agora com Glen Matlock no baixo (que trabalhava na loja de McLaren), só falta um vocalista. Quando encontram na rua um fulano com uma t-shirt  dos Pink Floyd, com as palavras “I hate” rabiscadas por cima, percebem de imediato que encontraram o homem certo. Chama-se John Lydon, mas depressa é baptizado como Johnny Rotten, devido ao estado bastante apunkalhado dos seus dentes.

Com o gesto da t-shirt, Rotten revela uma das suas maiores forças: a capacidade de inverter a polaridade dos símbolos. Quando Johnny usa o emblema da Luftwaffe de pernas para o ar, consegue a proeza de transformar um artefacto nazi num símbolo anti-autoritário. Ao vestir a union jack em trapos esfarrapados, a ideia de pátria permanece, mas é agora um reino subterrâneo, habitado por todos os espoliados pelo poder. Quando canta “God Save the Queen”, arremessa a força simbólica de um hino ancestral contra a própria rainha.

Esperto o raio do puto.

Johnny Rotten usando o emblema da Luftwaffe ao contrário

Em reacção ao “all we need is love” dos bandalhos dos hippies, a força motriz do punk é o ódio, e Johnny Rotten odeia tudo o que se mexe: a monarquia, os hippies, a indústria musical, o prog rock, o sistema de classes, os cabelos compridos, a hipocrisia, as calças à boca de sino, a autoridade, o amor livre, a rotina, o misticismo, os pseudo-intelectuais, o cheiro do incenso… Rotten é o punk. E o punk é um retumbante: “fodam-se todos!”

Os Pistols estão por fim completos. Matlock e Jones têm um papel fundamental porque são eles que fazem as músicas: furiosas, orelhudas, viciantes. Mas o factor que leva os Pistols para outro nível é o magnetismo de Johnny Rotten: a sua anti-voz, o seu olhar desafiador, a sua imagem repugnante e cool ao mesmo tempo. Em resumo: a personificação do punk, imitada até à náusea por todos os outros.

Sex Pistols como cabeças de cartaz

McLaren não criou Johnny Rotten. Rotten é ele próprio, totalmente formado antes de o conhecer. Malcolm tentará mais tarde convencer-nos de que os Pistols não passavam de uma fabricação sua, uma espécie de boys band que não toma duche. Tretas. McLaren era apenas o manager, fazendo o que compete ao raio de um manager: promover o melhor que consiga a sua banda. A essência dos Pistols- a música, as letras, a imagem, a atitude- é da sua exclusiva responsabilidade.

Os Pistols lideram a cena punk britânica, influenciando todos os demais. Quando Joe Strummer os viu ao vivo, de imediato abandona o pub rock e se junta aos Clash. Howard Devoto e Pete Shelley têm uma epifania semelhante. Depois de lerem uma reportagem no New Musical Express sobre os vis Pistols, vão conhecê-los a Londres, nascendo pouco depois os Buzzcocks. Os Damned, ufanos, negarão a sua influência, mas o que é certo que é que quando deram o seu primeiro concerto foi abrindo um gig dos Pistols.

Em 26 de Novembro de 1976, lançam o seu primeiro single: o polémico “Anarchy in UK”, manifesto niilista contra tudo e contra todos. Muitos desdenharão o niilismo dos Pistols, preferindo o activismo esquerdista dos Clash. Tenho, contudo, uma posição diferente. Só quer destruir tudo quem tem a profunda convicção de que algo de melhor irá nascer dos escombros. Aliás, foi isso justamente o que aconteceu. O caos espalhado pelos Pistols incentivou milhares de adolescentes a formarem bandas, fanzines, editoras, num bulício criativo como há muito não se via. É certo que a raiva dos Pistols não resolve a profunda crise em que o país está mergulhado. Oferece, contudo, algo de muito precioso. Uma válvula de escape para a frustração de milhares de jovens, antes esquecidos e encurralados.

Quando “Anarchy in UK” aparece, o punk é ainda um fenómeno subterrâneo, não mais do que quinhentos gatos pingados que se conhecem todos uns aos outros. Tudo mudou, porém, poucos dias depois, quando os Pistols foram ao programa de televisão “Bill Grundy Show”, no primeiro de dezembro de ’76. Vale a pena espreitarem no youtube o delicioso incidente, que põe em confronto duas gerações, duas classes sociais, duas mentalidades. De um lado, Bill Grundy: um apresentador burguês de meia-idade, snobe, fleumático, tratando os Pistols com a típica condescendência com que a burguesia britânica sempre trata o zé povinho. Do outro, os jovens Pistols, insubordinados e working class, e com orgulho nisso.

Grundy entra logo a matar, enunciando a quantia avultada que receberam da EMI. Pergunta se isso não põe em causa a sua visão anti-materialista da vida. Mas em vez dos Pistols baixarem a cabeça, como a malta da working class é ensinada a fazer desde que nasce, ripostam, de igual para igual, com a cabeça levantada: “the more, the merrier; we’ve fucking spent it”.

Novos impropérios sucedem-se. Grundy, assustado com a virulência dos seus convivas, desvia agora a atenção para as miúdas lá atrás. Siouxsie ironiza, dizendo que sempre o quis conhecer. Grundy finge não perceber o sarcasmo, e, baboso, convida-a para um encontro mais tarde. É então que Steve Jones lança a bomba atómica: “you dirty sod, you dirty old man, you dirty bastard, you dirty fucker, what a fucking rotter.” Grundy interrompe de imediato a entrevista, lívido e derrotado.

No dia seguinte, os jornais sensacionalistas fazem manchete com o acontecimento, escandalizando-se com a insolência dos Pistols. Estes agradecem a publicidade gratuita. Antes do Grundy Show eram uns ilustres desconhecidos. Depois dele. tornam-se num fenómeno nacional. O resto do punk aproveita de bom grado a boleia mediática.

Todo o establishment reage em pânico com a infâmia. O assunto é discutido no parlamento e debatido na televisão. A maioria dos concertos é cancelada. A conservadora EMI Records apressa-se a cessar o contrato com os Pistols. A A&M Records segue-lhes a peugada, assinando com eles em Fevereiro e dando-lhes um chuto no cu em Março. Só a Virgin Records tem a coragem de lhes oferecer um contrato estável.

No seio da banda o tumulto era igual. Ninguém ia muito à bola com o baixista Glen Matlock, demasiado bom menino para uma banda tão selvagem. Acabou por ser corrido. A sua expulsão foi justificada com base em dois abjectos crimes: gostar de Beatles e lavar demasiadas vezes os pés… Entra então o mítico Sid Vicious, que seria perfeito para o lugar não fora o pequeno pormenor de não saber tocar baixo. Não faz mal, a sua inépcia total para a música é compensada pela classe com que sabe ofender toda a gente. Tudo piora, contudo, quando começa a andar com Nancy Spungen, junkie americana que o afunda no lodo da heroína.

É então que os Pistols sobem a parada da provocação, atacando a própria rainha no single seguinte: o icónico “God Save the Queen.” De novo, o niilismo dos Pistols é apenas aparente. John Lydon dirá mais tarde: “Não escrevi «God Save the Queen» por odiar o povo inglês. Escrevi-a porque o amo e estou farto de o ver maltratado.”

O disco chega a número um, mas o establishment, numa tentativa desajeitada de censura, deixa o topo da tabela em branco. O triunfo dos Pistols é assim mais saboroso. O fruto proibido é sempre o mais apetecido.

Nenhuma outra canção dos Pistols apanhou tão bem os ares do tempo como “God Save the Queen”. O verso “there’s no future in England’s dreaming” exprime na perfeição a desesperança sentida por toda uma geração.

Sid Vicious e Johnny Rotten no último concerto dos Sex Pistols

O país estava atolado numa profunda depressão. A anterior paz social entre classes e gerações só foi possível manter porque todos se lixaram na guerra e todos prosperaram quando acabou. Agora que o desemprego grassava, lixando os jovens e a classe trabalhadora, todos eram iguais mas uns eram mais iguais que outros. O ruído do punk é o consenso do pós-guerra a estalar. A working class a fazer um manguito à respeitabilidade burguesa, os miúdos a mandarem os velhos às urtigas. A categoria “velhos” é aqui bem mais lata do que é costume. Para o punk adolescente, um trintão hippie era um cabrão de um octogenário a abater.

O facto de este single coincidir com o jubileu da rainha aumenta o seu poder de subversão. “God Save the Queen” é o anti-jubileu, uma poderosa bandeira para os marginalizados pelo poder. Malcolm McLaren soube interpretar bem este jogo de forças quando organizou um concerto no rio Thames, uma evidente paródia à tradicional procissão da rainha. Claro que a polícia de imediato intercepta o barco e prende os envolvidos. Justamente o que McLaren pretendia: mais más notícias nos tablóides, mais boas notícias para a notoriedade dos Pistols.

Polícia fluvial captura a comitiva dos Sex Pistols

O impacto demolidor que “God Save the Queen” teve na sociedade britânica constituiu o apogeu da história do punk. Mas os Pistols, ao profanarem o que é mais sagrado para o inglês médio – a sua querida Rainha – estão a brincar com o fogo. Depressa começam a sofrer as consequências. Além dos punks, há outra subcultura working class com uma forte presença nas ruas: os teddy boys, normalmente mais velhos. Acontece que os teds adoram a rainha, não podendo perdoar aos Pistols semelhante afronta a sua majestade. A partir desse momento, travam-se nas ruas de Londres sangrentas lutas entre teddy boys e punks. Apanhado sozinho na rua, Johnny Rotten é esfaqueado por um cabrão de um ted, sobrevivendo por um triz.

Em 28 de Outubro de ’77, o longa-duração é por fim lançado. A censura volta à carga, sendo banido da maioria das lojas, o que não impede o disco de chegar a número um. Never Mind the Bollocks, Here’s the Sex Pistols é um dos álbuns mais enérgicos e viciantes da história do rock, atingindo um equilíbrio perfeito entre sujidade punk e sensibilidade pop. Praticamente todos os seus doze temas poderiam ter sido singles. O seu som é menos rápido e agressivo do que o dos Ramones, mas o que lhe falta em velocidade, sobeja-lhe em fuligem e provocação. O baixo que ouvimos é de Steve Jones e não de Sid Vicious; a história do punk agradece.

Estando banidos de quase todas as salas do Reino Unido, os Pistols decidem fazer a sua primeira digressão nos Estados Unidos. Mas as tensões entre os membros da banda, e entre Johnny Rotten e Mclaren, tornam-se insustentáveis. A 14 de Janeiro de 1978, em San Francisco, os Pistols dão o seu último concerto. Depois de tocarem “No Fun” dos Stooges no encore, Rotten despede-se com estas enigmáticas palavras: “ever get the feeling you’ve been cheated?”

Nada sei sobre que pensava Neil Young quando escreveu o célebre verso: “It’s better to burn out than to fade away”. Sei, porém, que sintetiza na perfeição o fim dos Pistols, que morreram no seu auge, numa última e violenta explosão. Os Yes fizeram vinte e um álbuns, cada um mais aborrecido do que o anterior, e ainda perduram, eternamente irrelevantes. Com apenas dois anos e meio de existência, quatro singles e um longa-duração, os Pistols foram uma das bandas mais influentes de sempre, constituindo ainda hoje um ícone de resistência.

Nada mau para uma banda que apenas nos prometeu a ausência de futuro.

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