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A Love Supreme: quando Coltrane nos roubou o cinismo

Um tipo bem tenta ser fiel à sua descrença, molhando todos os dias o Schopenhauer no galão da manhã, mas depois vem a maldita magia de John Coltrane.

Quando pensamos nos gigantes do jazz, vem-nos logo à cabeça três coisas: “era negro”, “já morreu”, “foi junkie“. Coltrane faz, claro, o pleno, mas lembremo-nos que a sua dieta à base de whiskey e heroína acabou em 1957. Coltrane fala de uma espécie de acordar espiritual que então lhe aconteceu (certamente precipitado pelo valente chuto no rabo que Miles lhe deu). Este espírito místico não mais o abandonou, atingindo o seu apogeu em A Love Supreme, de 1965. Mais do que um disco, é um agradecimento e uma prece. Rezassem as testemunhas de Jeová assim, mais gente lhes abriria a porta.

A Love Supreme fica a meio caminho entre a sua fase clássica tonal e o mergulho de cabeça no experimentalismo free dos últimos discos (reservado aos ouvintes mais estóicos, os rambos da melomania). Gostamos destes territórios fronteiriços, onde nenhum dos lados pode içar uma bandeira sem levar um tiro no olho. Os temas começam penteados (tanto quanto é possível enfiar um pente no desgrenhado jazz), mas o caos vai-se instalando, o saxofone para um lado, o piano para o outro, a âncora tonal a desprender-se. Até que a ordem primordial regressa, para não afugentar a clientela do bar. É neste jogo permanente entre composição e desagregação que se faz esta obra-prima. Como uma criança que monta uma torre de legos gigante apenas para ter o prazer de a derrubar.

Nos momentos mais free, destacam-se as notas mais agudas possíveis de arrancar a um saxofone sob tortura, gemidos lancinantes que carregam toda a dor da humanidade. Descobrimos por fim onde Hendrix foi buscar a inspiração para os gritos da sua guitarra em “Star Spangled Banner”.

O fervor religioso de A Love Supreme manifesta-se logo no primeiro capítulo, “Acknowledgment”, pelo mantra “a / love / su / preme”, quatro notas de blues repetidas ao longo do tema, evocando o êxtase de uma missa negra ou o transe da África ancestral. Coltrane começa depois a brincar com essas quatro notas, transpondo-as para outras tonalidades. Dêem quatro notas a Coltrane e ele levantará o mundo, disse um dia Arquimedes no banho.

Mas é no quarto e último capítulo, “Psalm”, que o ardor místico atinge o seu clímax. Ao fundo, a bateria e o piano criam uma tensão grandiosa, evocando a presença divina. É sob esta almofada espiritual que Coltrane se ajoelha e faz a sua oração, traduzindo cada sílaba do poema “A Love Supreme” para uma nota de saxofone. É arrepiante. Mesmo nós, que no quinto ano chumbámos a religião e moral, estremecemos.

Uma colecção de discos que não tenha A Love Supreme será sempre um amontoado mais ou menos aleatório de sons. Podemos não perceber patavina de jazz (como é o nosso flagrante caso), e, ainda assim, amá-lo como um dos nossos. A Love Supreme é muito mais do que jazz. É o  mistério de tudo, o estranho milagre da própria vida. Um tipo bem tenta ser fiel à sua descrença, molhando todos os dias o Schopenhauer no galão da manhã, mas o vil disco empurra-nos para onde não queremos ir. Maldito sejas, demente místico, que um dia nos arrebataste com a tua louca fé.

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