Listas

Os melhores discos nacionais de 2016

A música portuguesa continua em boa forma, e este ano voltou a trazer-nos muitos bons discos, muita diversidade estilística e algumas surpresas. No entanto, dos 52 discos nacionais escolhidos pelos membros da redacção do Altamont, uma coisa é visível no nosso Top 10: os nomes consagrados dominam. Alguns já têm uma década de existência, menos são recentíssimos, e não há representação dos tradicionais monstros da música portuguesa, que de facto não tiveram um ano muito activo em termos de edições.

Ainda assim, há dois artistas que conseguem duas entradas no top 10 e os dois primeiros classificados ficaram separados por apenas um ponto, deixando o resto da concorrência a alguma distância. Ou seja, no que toca ao Top Nacional do Altamont, foi a votação mais renhida de sempre no que diz respeito à escolha do número um. Com outra curiosidade: regressamos a 2014 e escolhemos, então, o mesmo líder, e o mesmo segundo classificado que este ano.

Estes são os dez discos que mais marcaram o ano e que, ainda mais importante do que isso, ficarão connosco durante os próximos tempos. O Altamont orgulha-se de ser o meio de comunicação social português que mais atenção e acompanhamento dá aos projectos musicais nacionais. Assim continuará a ser. Mais do que por serviço público, é mesmo por gosto que o fazemos. Continuem a contar connosco.

Tiago Freire



10. Linda Martini
Sirumba

Os Linda Martini já não são “Putos Bons”, como nos dizem numa das cantigas do novo Sirumba. Em 2016, os Linda Martini são um pequeno monstro rock – consolidado, adulto, máquina bem oleada que cruza velocidade rítmica com serenidade melódica. A banda tornou-se embaixadora de uma certa nação alternativa. No entanto, e cada vez mais, sem receios de crescer. Hoje, o que ouvimos em Sirumba é menos impactante e demolidor, mas a troca de ritmo resulta num cliché reconfortante: os Linda Martini são, agora, uma banda adulta, um porto seguro, garantia absoluta de boas canções envoltas em curvas e contracurvas.


9. Cave Story
West

West, álbum de estreia, é uma pérola arty, cuidadosamente não polida, meticulosamente desleixada. Ponham os Pavement e os Wire numa centrifugadora, e, no fim, uma leve pitada de Sonic Youth, e terão uma primeira aproximação ao seu maravilhoso som. Do punk, herdaram o compasso binário da bateria; do pós-punk, o culto do esparso e do dissonante. E, no entanto, são eles próprios: power trio da zona oeste, com guitarras sujas e displicentes em vez de piços das Caldas.


8. Filho da Mãe e Ricardo Martins
Tormenta

Uma guitarra eléctrica no limiar entre o limpo e o distorcido a rasgar um riff em que se toca rápido o suficiente para não se distinguirem as cordas e só se ouvir um único som, seis cordas feitas um só cantar. A tarola, ao mesmo ritmo, solta-se no final do conjunto de compassos e o ré menor despedaça-se em cinco arranhões. Dó, ré, mi, sol, solarengo – esquece, diz-se soalheiro, mas chega pra me lembrar da “Estrela E Acabada” mais uma vez. É uma tormenta não a poder ter sempre. Mas é a Tormenta que nos faz andar. E que boa tormenta.


7. Bruno Pernadas
Worst Summer Ever

Com uma enorme coragem, enfrentando a barreira do preconceito, Bruno assumiu publicamente as suas mais profundas tendências, lançando um puro disco de jazz: o instrumental, denso e anti-pop Worst Summer Ever. E é maravilhoso. É erudito. É belo. É comovente. É Bruno Pernadas. Enquanto o primeiro disco lançado este ano, Crocodiles, é veraneante, acessível, hedonista e orgulhosamente superficial, como uma serigrafia de Warhol; Worst Summer Ever é difícil, profundo, estóico e outonal, como um filme de Bergman.


6. Filho da Mãe
Mergulho

Mergulho é composto por doze faixas que escorregam umas nas outras como um rio desagua num mar silencioso, orientando-se por um fio condutor líquido e fácil de seguir: cada faixa funde-se na outra, lembra a próxima, saboreando-se o disco não tanto como sobremesas separadas, mas sim como refeição que nos deixa o estômago satisfeito. Mergulho encanta e surpreende, sem se despedir da fórmula bem calculada que nos fez apaixonar pela guitarra de Rui Carvalho à primeira audição.


5. Medeiros/Lucas
Terra do Corpo

Ao contrário da imediatez de muito do que hoje se ouve por cá, a música de Medeiros/Lucas não encaixa à primeira. Com um pouco de alguma literatura (da boa) e de alguma arte (da boa), as canções desta dupla requerem atenção e aprendizagem. Mar Aberto já tinha mostrado isso. Terra do Corpo é a certeza desta realidade.
O Altamont levantou um pedacinho do véu sobre esta banda com o Holofote que lhes dedicámos e por merecimento é forçoso dar-lhes atenção.


4. You Can’t Win, Charlie Brown
Marrow

Em Marrow, o hexágono polivalente que são os You Can’t Win, Charlie Brown continua a ser um conjunto exímio a criar melodias viciantes sem cair na banalidade, tudo feito com tremendo bom gosto. Mas agora, a música ganhou outro tipo de brilho, deixou de estar tão virada para dentro, está mais extrovertida e expansiva. E esta mudança de paradigma reflete-se, desde logo, na escolha da sala para o concerto oficial de apresentação. Em 2014 foi no CCB, este ano é no Lux. A nova música é feita para ouvir debaixo de uma bola de espelhos. E, mais uma vez, este Charlie Brown volta a ganhar!


3. Sensible Soccers
Villa Soledade

Villa Soledade é o segundo álbum de originais dos Sensible Soccers. É menos impactante que o anterior tomo, 8, porque na primeira todos caímos, mas à segunda já ninguém é enganado: falamos de uma das mais fundamentais bandas portuguesas do hoje, fazedores de canções abstratas, plenas de mundo, combinando géneros, tempos e melodias num todo já facilmente identificável – a banda não tem muitos anos mas é já única e dotada de plena identidade.


2. Capitão Fausto
Capitão Fausto Têm os Dias Contados

Como raio os Fausto cresceram tanto em tão pouco tempo? Não sabemos responder. A incursão por vários projectos paralelos teve certamente o seu papel, retirando-lhes a pressão de serem Capitão Fausto, carta-branca para a livre exploração das mais exóticas sonoridades. Talvez tenha sido esse o alçapão de acesso a velhos vinis que pressentimos correram subterrâneos: Nancy Sinatra, Palma, Godinho e Zé Mário, Dennis Wilson, Miles Davis, o Pet Sounds referido no nosso Holofote. O desenrolar natural da vida, com os seus inevitáveis embates e percalços, fez, provavelmente, o resto.


1. Bruno Pernadas
Those Who Throw Objects at the Crocodiles Will Be Asked to Retrieve Them

Uma viagem eclética por uma mão-cheia de universos musicais, bebendo inspiração de todos os cantos do mundo – desde o swing cuidado da América de Dave Brubeck, às guitarras soalheiras a chamarem à boca um travo da música tuareg do Norte de África em “Problem Number 6”, mas também à mistura infinita de sabores na faixa “Ya Ya Breathe”, na qual nos vemos rodeados tanto de música indiana, como de secura experimental a recordar uns tais Sonic Youth.

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