Listas

Os 20 melhores discos de 2017

2017 foi (mais) um ano de transformação, com o streaming a ganhar cada vez mais força (bem como as plataformas independentes, permitindo que discos “fora do radar”, afinal, sejam escutados) e com uma cada vez maior diversidade estilística que toda essa dispersão permite. O top Altamont, que elegemos já pela quinta vez, é naturalmente marcado por todas essas tendências.

Há rock, há pop, há electrónica, há hip-hop, há ovnis (felizmente) inclassificáveis, porque novos, genuínos, autênticos.

O nosso top é tão marcado pelas presenças como pelas ausências. Num ano em que figuras tão incontornáveis – e tão amadas no Altamont – lançaram novos discos, não deixa de ser significativo que Arcade Fire, Morrissey, Gorillaz ou Beck não tenham conseguido conquistar a nossa redacção, ainda que tenham sido muito bem sucedidos em dividir opiniões, e esse é também o trabalho de um artista: arriscar, mudar de rumo, mesmo que o resultado possa não ser compreendido ou agradar à maioria.

Com estes colossos à margem, abre-se espaço para o resto, que num site independente como este é sempre mais do que o resto. No nosso top 20, exactamente metade são nomes que nunca antes havíamos distinguido em tops de anos anteriores. Alguns são mesmo estreantes nas edições de discos, outros grandes vultos da última e até das últimas décadas, que provaram que se pode regressar e ser relevante. Não somos obcecados com a novidade, nem a idade é factor de benefício ou de prejuízo. Acima de tudo, a cola que tudo une é, como sempre, a qualidade e a inventividade da música.

Da nossa redacção, 25 pessoas votaram em dez discos cada, e o ecletismo do gosto levou a que 110 discos diferentes fossem mencionados até se chegar ao consenso dos números.

Estes 20 são os nossos preferidos, os que mais nos impressionaram em 2017. Alguns serão, eventualmente, entusiasmos momentâneos, que serão apagados pela cruel passagem do tempo. Fazemos votos para que muitos outros superem esse difícil teste, e que se juntem à família de dezenas e centenas de discos que levamos connosco, no coração, ano após ano, para o resto da vida.

Tiago Freire


altamont_top_2017-header

20. Moses Sumney
Aromanticism

Numa sociedade como a de hoje, querer estar sozinho é uma anomalia e o mundo nunca nos deixa esquecer isso mesmo. E é nessa vontade de estar a sós que entra o Aromanticism – a falta de interesse ou desejo romântico. Este trabalho de Moses Sumney é uma pérola musical, um livro aberto para a alma de um dos mais proeminentes músicos dos últimos tempos. A reflexão interna e externa, a coragem de admitir uma condição que o torna num Outro – alguém que assume não necessitar de amor romântico na sua vida – e a sensualidade com a qual nos transmite essa condição fazem de Moses Sumney um príncipe único. Um príncipe que só precisa de si mesmo para conquistar o mundo.


19. Destroyer
Ken

Depois do estrondo que foi Kaputt (2011) a fasquia ficou altíssima, praticamente impossível de atingir novamente a magia desse álbum, mas ken não lhe fica muito atrás, mostrando que a elegância colocada ao serviço da música é uma qualidade que diferencia Bejar de outras bandas que andam por aí um, dois anos máximo em festivais e depois desaparecem. Dan Bejar continua mestre do seu ofício, remexendo em baús vários e de lá tirando matéria prima em bruto para a delapidar e fazer diamantes.


18. Slowdive
Slowdive

Álbuns de regresso nunca são fáceis. Normalmente ou se acerta em cheio ou se falha redondamente. Para a felicidade de todos, os Slowdive não podiam ter voltado em melhor forma: Slowdive é o seu primeiro álbum após a reunião da banda em 2014, depois de um hiato de 19 anos. É também a afirmação de um grupo que, após muitos anos de experiências com outras bandas e/ou a solo, regressa à casa de partida com força e cabeça renovadas. Deste modo, conseguem executar brilhantemente a missão que Neil Halstead tinha definido antes da gravação do álbum: criar um registo que soe a Slowdive, mas que é diferente do que está para trás.


17. Grizzly Bear
Painted Ruins

Cinco anos depois do ambicioso mas por vezes inconsistente Shields, os Grizzly Bear regressam finalmente com Painted Ruins. E que bem sabe voltar, num registo familiar mas maduro, com todos os avanços e recuos matematicamente calculados de modo a conseguir capturar o tão difícil ponto certo entre o familiar e o novo onde conseguimos localizar ainda todos os elementos que nos atraíram aos Grizzly Bear em primeiro lugar: a alternância cuidadosamente coreografada entre as vozes distintas de Ed Droste e Daniel Rossen, os rasgares selvagens de guitarra, e, claro, o génio de sempre da bateria de Christopher Bear.


16. Thurston Moore
Rock N Roll Consciousness

Se com os Sonic Youth a estrutura das músicas frequentemente andava em torno da ideia Verse Chorus NOISE Verse, terminando mais ou menos como começou, Thurston Moore agora prefere estruturar as músicas em segmentos de uma viagem que não precisa de retornar à origem, embora causem algumas saudades os diálogos com Lee Ranaldo. Como se, ao se tornar um songwriter mais interessante, se tenha perdido alguma autonomia (ou paciência) para avacalhar.


15. Kevin Morby
City Music

Longe vão os tempos em que Kevin Morby era apenas “o baixista dos Woods”. Morby é, hoje em dia, autor de corpo inteiro, com merecido lugar de destaque no panorama do rock alternativo. O seu último trabalho, City Music, é luminoso e inventivo, escuro e básico, um pouco de tudo isto e de tudo aquilo. Junto com a guitarrista Meg Duffy e baterista Justin Sullivan, Morby criou um disco irrepreensível, uma atmosfera obscura e lânguida que nos acompanhará o resto do(s) ano(s).


14. Ariel Pink
Dedicated to Bobby Jameson

Liga o quatro pistas e em duas horas está feito: Ariel Pink faz parecer fácil a arte de criar bons álbuns. No entanto, o que se constata é que mais ninguém faz o mesmo que ele — a sua magia continua única e sem ser vítima de macacos de imitação. Em Dedicated to Bobby Jameson somos convidados por Ariel para ouvir uma sitcom que não é sobre nada, mas que, pelo contrário, é sobre tudo: sobre a vida, sobre a morte, sobre ressurreição, sobre amor, sobre perda, sobre solidão. Sendo dedicado a Bobby Jameson, este álbum é uma imersão profunda em Ariel Pink e é sobre ele que tudo nos fala neste disco.


13. Circuit Des Yeaux
Reaching For Indigo

Reaching For Indigo é um álbum catártico que nos convida a expiar os nossos males e enfrentar os nossos demónios. De um momento que lhe mudou a vida, Haley Fohr, a voz de Circuit des Yeaux, fez-nos repensar a nossa, levando-nos pelas profundezas do seu canto no ciclo abismal de uma convulsão. O álbum atravessa várias fases, do folk ao experimental (até, talvez, ao folk experimental o que quer que isso seja). O disco abre com pompa e circunstância, num ambiente cerimonial, com a gravidade do órgão e da voz que acompanha, e segue num tom íntimo e confessional que depressa nos indica que esta vai ser uma viagem conturbada. Mas aguentámos os altos e baixos, as harmonias e as dissonâncias, as melodias e os drones, e saímos do outro lado mais inteiros. Haley Fohr é, mesmo que poucos o saibam, das melhores vozes deste ainda curto século, e Reaching For Indigo é das melhores coisas que 2017 nos ofereceu.


12. Father John Misty
Pure Comedy

Father John Misty armadilhou Pure Comedy de desconforto, garantindo que um dia estaremos moribundos. Mas tal não passa de uma nota de rodapé: o que nos amarra à infelicidade não é a mortalidade, mas sim algumas formas de entretenimento que nos distraem de sermos livres. É o derradeiro sermão que este pastor sempre quis apresentar ao seu caótico rebanho. Em Pure Comedy, Father John Misty deixa clara a sua visão do mundo, onde se enquadram os excessos de Fear Fun e o amor de I Love You, Honeybear. É um mundo menos melodioso, sem estrutura de canção, com menos guitarras e mais piano. Há mais monotonia, mas também momentos memoráveis e chavões que se repetem. Há mais perguntas do que respostas.


11. Vince Staples
The Big Fish Theory

A par de Danny Brown, Vince Staples adequa-se à lógica do interseccionismo inusitado. Tal como a exibição de atrocidades do primeiro recorre aos preceitos do pós-punk para redefinir o rap enquanto industrialismo brutalista, o segundo, mediante a comoção inesperada de determinado acesso pós-estruturalista, recupera o brunido techno, como se por referência ao remate electrónico de Kanye West em “Fade”, e incorpora-o em Big Fish Theory. Se Summertime ’06 se imiscuía da aspereza de um ritmo compulsivo, da ambiência séptica, de uma urgência cínica e clínica, BFT retorna a metodologia neurótica de Staples pela vitrificação das formas, pela elegia de um medium cristalino, pela parcimónia dos elementos, pelo tacto diligente: enfim, pela proficiência fundamental em qualquer linguagem musical a que aqui se tenha recorrido.


10. The National
Sleep Well Beast

Há um equilíbrio delicado em Sleep Well Beast, sem excessos, sem sobressaltos mas com momentos que ainda são capazes de surpreender, notando-se uma evolução, uma maturidade e uma densidade que só vem com muitas passagens pelo estúdio, muitas canções, muitos quilómetros de estrada – e com a idade. Este disco, aliás, é uma entrada na meia idade e na crise de identidade que isso acarreta. Os National já não falam de amores não correspondidos – falam de relações difíceis, dos problemas da vida quotidiana, de dificuldades, de expectativas.


9. Laura Marling
Semper Femina

Semper Femina esteve tatuado na pele de Laura Marling nos últimos anos – roubado da Eneida, de Virgílio – e agora dá-lhe corpo, nome, um disco inteiro, cheio de nove soberbas canções. Marling reinventou-se, no tom, nas letras, e até na produção, numa colaboração com Blake Mills (Alabama Shakes), que torna este disco mais denso, completo e adulto, como se a menina-mulher de 21 anos do primeiro disco tivesse desaparecido de vez para dar lugar a uma Marling mais adulta, mais completa, mas também mais perturbada. Um disco absolutamente feminino mas sem fragilidade. Forte sem ser feminista, quase fatalista nas letras, de amor e de amizade, podemos escolher por onde queremos interpretar.


8. King Gizzard & the Lizard Wizard with Mild High Club
Sketches of Brunswick East

Em 2016 os australianos King Gizzard & the Lizard Wizard anunciaram o seu plano hercúleo de lançar cinco discos em 2017. Ao terceiro disco do ano, na companhia dos Mild High Club, os King Gizzard lançaram um dos discos mais ecléticos e surpreendentes da sua carreira. O resultado é um disco mais atmosférico, jazzístico e, acima de tudo, subtil vindo de uma banda reconhecida pela sua extravagância musical. É interessante notar que aquele que é, discutivelmente, um dos projetos menos ambiciosos dos King Gizzard acaba por se tornar num dos seus melhores álbuns.


7. Benjamin Booker
Witness

Depois de um primeiro álbum onde se percebia que Benjamin Booker conhecia bem as lições dos mestres do rock and roll, da soul e do blues sem soar anacrónico , ao segundo disco – que é conciso e não tem gorduras -, emerge como escritor de grandes canções, capaz de fazer da sua vida matéria poética e musical de primeira água e do tumultuoso país que lhe serve de abrigo um lugar mais claro – não mais bonito, mas mais translúcido. Bravo, Sr. Booker.


6. Jarvis Cocker & Chilly Gonzales
Room 29

No quarto 29, há um piano com o qual Jarvis Cocker começou a brincar. E, no meio da atmosfera antiga do Chateau Marmont, a inspiração veio. O hotel albergou e influenciou inúmeras figuras do entretenimento norte-americano: F. Scott Fitzgerald, Jim Morrison, Hunter S. Thompson, entre muitos outros. Daí veio o conceito deste Room 29. Jarvis deixando as paredes falar, rodeado dos fantasmas de outras épocas, da folia, da frustração, da pressão e da luxúria do sucesso. A parceria com Chilly Gonzales funciona em cheio, e é da exclusiva intimidade destes dois solitários homens que se constroem as forças deste disco.


5. Roger Waters
Is This The Life We Really Want?

O “homem mais zangado do rock” regressa com um disco profundamente político, uma obra maior que não tem medo de, musicalmente, recuperar algumas das muitas forças dos Pink Floyd. Is This the Life We Really Want?, em formato pergunta, é a versão apurada de toda a raiva e angústia deste homem. Liricamente, Waters está numa fantástica forma, e não guarda balas para outras guerras. Um disco maduro, complexo, com camadas sonoras e de mensagem, que nos exige a que olhemos para o estado a que o mundo chegou, e que respondamos à simples mas fundamental pergunta: é esta a vida que realmente queremos? Waters escolheu o seu lado há muito, e infelizmente o mundo tem-lhe dado razão.


4. Fleet Foxes
Crack-Up

Passados seis anos, o regresso dos Fleet Foxes é tão difícil quanto a sua separação. No entanto, à primeira audição, não temos dúvidas: estamos perante um disco de Fleet Foxes. Tem harmonias barrocas a quatro vozes, guitarras folk dedilhadas e letras que pintam um quadro impressionista além das progressões épicas de orquestração e um desrespeito total pela estruturação verso/refrão. A tónica de Crack-Up está nos fragmentos mais atonais do segundo disco, que são o reflexo da confusão de Pecknold durante os seis anos de hiato. Os Fleet Foxes não procuram conquistar novo público, mas sim reinstalar o bem-estar entre uma banda que já encontrou o seu lugar no panorama musical.


3. King Krule
The OOZ

The OOZ é marcado por um forte ecletismo musical – algo que, de resto, King Krule já tinha mostrado no seu álbum de estreia. Além da instrumentação (sempre perfeitamente adequada àquilo que se canta), a escrita sublime de Archy Marshall reflete um grande crescimento e amadurecimento do cantautor inglês. A sua voz inigualável – que, em The OOZ, opta por não afogar em reverb, como antes por vezes acontecia – ressoa como nunca e arrebata-nos a cada segundo, tanto nos registos mais frágeis como noutros furiosos e agressivos. Sentimos que ele está ali à nossa frente a dizer – ou a cuspir na nossa cara – aquelas palavras, oferecendo-nos uma poesia que mais ninguém consegue produzir.


2. Kendrick Lamar
DAMN.

Se entre Welcome to Compton (2014) e To Pimp a Butterfly (2015) o salto apanhou o mundo desprevenido, para DAMN. o amadurecimento não foi menor. Primeiro, hip hop tradicional. Depois, uma aventura rude, com balanço de jazz – género que, contou em entrevista, só descobriu já no estúdio de gravação. Agora, um manifesto. Estão em DAMN. as ambições a artista de pleno direito, a porta-voz de geração, a líder de alcateia sem líder desde a transformação de Kanye, de West em Kardashian. DAMN. é só mais um passo entre a Realeza. A tal em que Lamar sabe como se comportar, a mesma que só a lealdade o impede de destronar.


1. LCD Soundsystem
American Dream

A bagagem, na música e na vida, conta muito. American Dream surge como o álbum de regresso de uma família outrora desfeita, disco de reconciliação do patriarca com a indústria, pedaço pop que ainda se pretende relevante. Uma hora depois e vários suspiros de alívio volvidos, uma conclusão: os LCD Soundsystem estão de volta para ocupar de novo o lugar que nunca deixou de ser deles. É o regresso às loucas noites da década 2000-2010, viagem ancorada, com a supervisão celestial de Bowie, num trabalho esteticamente e musicalmente tão vanguardista como os LCD sempre foram. Se o passado foi lá atrás, a verdade é que com presentes destes, a saudade não mais é que um pretexto para querer morder o futuro.