Reportagens

NOS Primavera Sound 2018 – Dia 2

E ao segundo dia, o rock, a pop, o hip hop e a eletrónica saíram de mãos dadas no Parque da Cidade e o NOS Primavera Sound foi um espaço de diversidade e bom convívio.

E ao segundo dia, o rock abriu o NOS Primavera Sound! Os barcelenses Solar Corona mostraram o que um power trio é capaz de fazer aos ouvidos menos precavidos. Como já os conhecíamos, sabíamos o que nos esperava. Rock clássico, sem rodeios nem efeitos superficiais. Instrumental, acima de quaisquer vozes. Não fazem sequer falta como complemento da pedrada. Guitarra estridente, baixo vindo das terras profundas do demo, bateria em permanente aceleração. Num dia com bastante hip hop, foi o rock que começou por dizer presente. E ainda bem.

E depois do rock, mais rock com os Idles. Tom de arruaça, boca que cospe mais do que canta, a banda inglesa parece ter vindo das docas. Irónicos e brutais, fora do palco não será bom tê-los como inimigos. É o que parece, embora se saiba que não é assim. Não fazem mais e melhor porque talvez não consigam, mas o ritmo entusiasma e sabem entreter. São honestos na entrega e isso dá vigor ao rock que fazem. Provavelmente a banda que mais vezes dirá Fuck Off e termos afins em todo o Festival. E fizeram-nos rir quando cantaram “I kissed a boy and I liked it” e quando dedicaram uma canção à “European Union”. Não é preciso dizer mais nada, pois não?

Depois fomos alucinar devagarinho com os Amen Dunes. Quando chegámos dizia-se que metade das canções que iam tocar durante o concerto foram feitas em Lisboa, e por isso “feels good to be here”. Era bom que dessem a Damon McMahon as coordenadas corretas. Mesmo assim, e brincadeiras à parte, os Amen Dunes são eficazes e generosos nos seus concertos.
Entregam-se e aplicam-se, mas custou a arrancar. Não voaram muito alto, mas todos os solteirões dados à melancolia devem ter apreciado a viagem.

Everything Okay In Your World? Aproveitámos o título do primeiro álbum de Yellow Days e fomos ver se tudo fazia sentido no mundo de George van den Broek. Faz, sobretudo para os que gostam de King Krule e Mac DeMarco. A adolescência é uma idade adorável, sobretudo quando se tem talento. Sabemos que van den Broek adora Ray Charles e por isso não é de estranhar as deambulações pelos géneros de grande nome da música negra. Notas de jazz, de hip hop e alguma eletrónica entram no seu cardápio sonoro, e ter ouvido essa mistura ao final da tarde, sentados na relva fronteira ao Palco Pitchfork, soube-nos mesmo bem. Foi uma brisa.

Expectativas altas para o alt-rock dos The Breeders. A ex-Pixies não desiludiu. Depois de um recente álbum muito orelhudo e interessante, as mais frescas canções da banda soaram muito bem. As mais velhinhas também e nelas sentiu-se bem a “escola pixiana”. Pena nem sempre se ouvir em condições a voz de Kim Deal, mas a pedalada rítmica era grande e certeira. Um mimo para quem, como nós, gosta destas coisas do rock. É que quando ele é de qualidade, o rock pode muito bem ser jovem e adulto, sério e brincalhão ao mesmo tempo. E com histórias para contar, com ideias e pensamentos substantivos. No meio do público, Bruno Pernadas dizia que sim com a cabeça, em gesto de comunhão com o que a banda tocava. Bom sinal. Foi bonito, tudo muito bonito.

Fomos em correria parque acima até ao Palco Seat para ouvirmos Grizzly Bear. Uma multidão de gente já por lá estava. Como ficámos com os The Breeders até ao fim, já não assistimos ao início do concerto da banda de Ed Droste. Mas o que vimos fez justiça ao nome, naturalmente. Ora mais sereno, ora mais intenso, a verdade é que ninguém arredou pé. Alguns temas de Veckatimest e de Shields soaram frescos e revitalizados, até talvez melhor do que em disco. No entanto, no decurso do concerto, foram perdendo alguma intensidade. Preferimos o instrumental à voz. Talvez o alinhamento pudesse ter sido outro. Talvez fôssemos nós a querer qualquer coisa de mais intenso. Mas não façamos mais juízos, que os Grizzly Bear são de valor.

A vontade de estar em todo o lado não dá para os gastos. Quase exatamente ao mesmo tempo começavam Vince Staples e Superorganism. Enquanto Vince ia fundindo hip hop com uma vertente mais electrónica, a juventude da menina japonesa ia dando conta do seu recado. Vince é um tipo curioso, um pouco à margem das bases mais comuns desse estilo que nasceu na rua. Inteligente, mordaz, Vince Staples distancia-se mesmo um bom bocado da norma. Tem personalidade artística. Os Superorganism são divertidos e tão inocentes que é inevitável não gostar deles. Fazem a festa em palco, mas sem excessos. Têm ar de quem deveria ir para a cama mais cedo do que ontem foram.

Mais um problema de coincidências de horários: Four Tet e Thundercat atuaram quase em simultâneo, pelo que andámos na correria do costume. Um, mago das electrónicas, o outro, mago do baixo. Registos muito deferentes, como é bom acontecer em festivais abertos à diversidade. Stephen Bruner é um homem multifacetado, capaz de registos tão díspares como Jazz ou Trash Metal. Four Tet também é, mas tem uma vintena de anos de trabalho, coisa que lhe confere um estatuto irrepreensível. Bruner não se junta a qualquer um. Com Kieren Hebden passa-se o mesmo. Por tudo isto, que não é pouco, qual a razão para ambos atuarem à mesma hora?

Pouco depois, fomos espreitar Fever Ray. Karin Elisabeth Dreijer Andersson é uma sósia perfeita de Nina Hagen. No físico, não no conteúdo musical, obviamente. Ritmos dançantes para um quase final de noite. Ritmos africanos bem marcados, imparáveis, frenéticos. A única coisa que por vezes incomodava talvez fosse o timbre das vozes. O concerto tem uma forte presença teatral e vê-la de perto vale mesmo a pena. Quanto à música propriamente dita, estamos um pouco divididos. Tema sim, tema não, digamos assim, valem a pena.

Até que chegou a hora do cabeça de cartaz da noite. Falamos de A$AP Rocky, claro está. Os seus concertos parecem filmes de ação onde tudo vai explodindo e pegando fogo. Rakim Mayers, é esse o seu verdadeiro nome, dá corpo e voz ao “rapper de rua”, e há quem veja nele um apuro poético difícil de igualar. No entanto, a diversão é uma constante nos seus concertos, e ontem assistiu-se a mais uma festa de hip hop americano em pleno Parque da Cidade do Porto. Temas como “L$D”, “Fuckin’ Problems” ou “Distorted Records” foram dando ainda mais ânimo a quem já se sentia animado pela experiência vivida à frente do Palco NOS. Músico, produtor, modelo e ator, o multifacetado rapaz de Harlem (tem já quase trinta anos de vida, no entanto) fez ontem de tudo um pouco. Desde recolher soutiens que vinham disparados do público até fumar erva em palco, aconteceu um pouco de tudo. No fundo, festejou-se um estilo de música que vai ganhando cada vez mais presença nos festivais generalistas.

Com a noite quase no fim, ainda espreitámos Unknown Mortal Orchestra com os seus habituais tiques sinfónicos e assombros à Steely Dan. Nada que não tenhamos já ouvido deles, uma vez que a banda tem passado algumas vezes por solo luso. E lá se escutou, uma vez mais, “Necessary Evil” e outros bem conhecidos temas da banda. Assim se cumpriu a noite, assim se cumpriu o segundo dia do NOS Primavera Sound.

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Fotografia: Inês Silva