Reportagens

MIL – Lisbon International Music Network 2018

Uma das mil perspectivas possíveis sobre o “Mexefest do Cais do Sodré” – como dito por alguém ruas à beira-rio. Uma lufada de ar fresco numa Primavera envergonhada.

Há cada vez mais festivais. Mais e maiores; com mais gente, mais cabeças de cartaz, mais marcas, mais caos, mais ruído e menos música. No cenário e calendário cada vez mais caótico da capital portuguesa, o aparecimento do MIL – Lisbon International Music Network parece acontecer como apenas mais uma redundância no horizonte, ainda pra mais tendo lugar nas imediações de uma das ruas mais movimentadas da noite lisboeta.

Antes de mais, importa esclarecer que o MIL não é um festival mas sim dois: um primeiro, orientado aos profissionais da indústria da música e um segundo aberto ao público. No primeiro, com epicentro nos pólos culturais da Rua da Boavista 9 e da Rua das Gaivotas 6, há entre outras coisas a possibilidade de assistir a conferências de intervenientes no mundo da música (são exemplo disso o mítico técnico de som José Fortes e Sérgio Hydalgo, programador da Galeria Zé dos Bois), exibições de filmes (como o recente e formativo Tecla Tónica (2016), de Eduardo Morais) ou apresentações acerca dos mais diversos festivais e editoras de música de Portugal e arredores. No segundo, a montra de artistas é aberta ao público e concertos invadem a noite do Cais do Sodré, de locais habituais como o Musicbox ou o B.leza aos mais improváveis como o Viking ou o Rive Rouge.

O tal “segundo festival” começou na quarta-feira, no B.leza, com as estrelas desta segunda edição do MIL: os brasileiros Boogarins. Naquela que foi provavelmente a sua mais extensa passagem por Portugal, os rapazes de Goiânia não pararam pra descansar. No MIL, além do concerto especial de abertura – para o qual foram convidados os Capitão Fausto, PAUS e The Legendary Tigerman – e de outro mais normal no dia seguinte, no Musicbox, ficou-lhes a cargo também um workshop-convívio livre, sujeito a candidatura, com o intuito de fazer música e experimentar sons diferentes com quem se quisesse juntar. Se o resultado desse workshop ainda não se pode ouvir (só na sua versão brasileira), pudemos escutar aquilo que Dinho, Benke, Ynaiã e Raphael estiveram a fazer no HAUS, estúdio em Santa Apolónia, com as bandas supracitadas. Por entre canções dos seus três discos – “6000 Dias”, “Infinu”, “Benzin”, “Foi Mal”, “Lucifernandis”, “Auchma” e “Onda Negra” – foram chamando ao palco os músicos portugueses para riffs gingões, tropicais e espaciais onde a alma brasileira se fundiu com a portuguesa na língua comum da música, sem acordos ortográficos.

Nos dois dias seguintes, a festa mudava de figura. De um só concerto passávamos para uma mão cheia de escolhas em oito espaços. Depois da inacreditável apresentação de Lo-Fi Moda no Festival Silêncio, os Ermo deixavam-nos a salivar. Infelizmente, a configuração do espaço no Rive Rouge tirou-lhes alguma da força que nunca lhes falta. Ainda assim, foi bom ouvirmos de novo ao vivo um dos melhores discos do passado ano. No mesmo espaço, a esterilidade sonora deu aso ao silêncio nos concertos de Júlio Resende e Luís Severo. O primeiro trouxe fado sem voz nas notas polidas, brilhantes e não-lineares de um piano de cauda, não lhe faltando lirismo na execução. O segundo encheu a sala de pessoas e melancolia, sentado ao mesmo piano e fazendo surgir em vários pontos da sala tímidos coros, as notas sendo polvilhadas das colunas colocadas pelo tecto da discoteca fora em canções como “Meu Amor” e “Canto Diferente” (dos discos Luís Severo e Cara d’Anjo, respectivamente).

No Lounge envolveram-nos os loops dissonantes de Joana Guerra e o seu violoncelo mas também os loops idílicos da pop desconstruída da brasileira Labaq, uma das surpresas do festival. Depois, por breves momentos e no eixo Musicbox-Viking, fomos absorvidos numa nuvem de fumo e distorção. No primeiro, os Process of Guilt instalaram um caos ordenado, feito de escuridão e distorção bem medidas, partindo alguns pescoços pelo caminho. Depois, com os ouvidos mais descansados, sentia-se sair do Viking uma bruma particular. No programa estava indicado apenas o nome e o país: TOFT, Noruega. Lá dentro, as luzes de carrocel pareciam deslocadas mas Sten Ove Toft não se deixava intimidar e o seu drone noise quase estilhaçava os espelhos espalhados pelo espaço. Com o final a chegar rápido, não foi preciso muito tempo para deixar embasbacado o público: foram apenas precisos um objecto semelhante a uma pandeireta, que Toft manejava com destreza, ligado a uma panóplia de pedais que produzia um rumor digno de fazer tremer as placas tectónicas.

De volta ao B.leza, no segundo dia vimos a festa (previsivelmente) a ser feita por Moullinex e o seu Hypersex – onde temas como “Love Love Love” e “Take My Pain Away” obviamente não faltaram. No terceiro dia, no mesmo palco, houve uma festa diferente. Uma celebração próxima do voodoo pontuada pela percussão pujante e sincopada, desbravando caminho para sintetizadores impiedosos. Marcado pela performatividade do ídolo que dançava no meio do palco, o concerto dos HHY & The Macumbas induziu um transe de mil tambores que tocavam com vida própria, acordando os espíritos adormecidos do rio que se via correr poucos metros ao lado. Pouco depois houve ainda lugar para vislumbrarmos o céu com Bruno Pernadas e banda a interpretarem temas dos seus discos a solo com mestria e precisão.

Ao longo do festival, íamos percebendo que não estávamos perante uma redundância mas sim uma lufada de ar fresco – e não por culpa da Primavera intermitente que marcou os dias e noites do festival mas sim pelo espaço que havia para respirar nos vários espaços do festival, exteriores ou interiores. Com paragens técnicas num recanto do largo de São Paulo onde a cerveja, casa de banho e a rádio Oxigénio enchiam as medidas e esvaziavam os bolsos, de palco em palco íamos confundindo as nossas bússolas musicais, até a noite tardar.

No final da segunda noite, os Sampladélicos deixaram-nos os cantos dos olhos como Bonga. No Europa, espaço reduzido para as gigantes reinterpretações dos tocares e cantares que Tiago Pereira tem vindo a gravar ao longo dos anos no louvável projecto A Música Portuguesa A Gostar Dela Própria, rendemo-nos aos ritmos rurais das mais variadas tradições lusitanas, remisturados ao vivo em som e vídeo. Do paganismo dos Caretos à robustez dos Bombos de Lavacolhos, diferentes instrumentos e formações vocais cortados e filtrados por alguma maquinaria davam origem a uma muito própria electrónica – mais próxima de uma “acustrónica” – que o duo de Tiago Pereira e Sílvio Rosado têm vindo a aperfeiçoar ao longo dos anos.

Na terceira noite, uma diferente portugalidade chegou-nos sob a forma dos ritmos abrasivos da batida dos arredores de Lisboa – falo do showcase da editora Príncipe Discos no Musicbox. Da uma da manhã até sabe Deus quando, DJ Marfox, Puto Anderson Teixeira e Puto Márcio aqueceram o chão do Musicbox como poucos conseguem, numa dança inquieta que liberta tudo e não cansa nada.

Terminado o festival, muitos concertos ficaram inevitavelmente de lado, tendo em conta o ritmo incessante de oito concertos em simultâneo entre a Rua Nova do Carvalho e as margens do Tejo, tendo certamente havido um MIL diferente para cada pessoa. No final da segunda edição do MIL, fica provado que, mesmo sendo necessária a descentralização da cultura, há ainda espaço para mais e diferente nos lugares de sempre.

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Reportagem fotográfica completa no Flickr do MIL.

 

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