Canção do dia

“Lonely Blue” – King Krule

Não obstante a reverberação permanente do qual o autor deste texto desfruta desde 2013 e picos, com a tremedeira desgraçada do baque que foi 6 Feet Beneath the Moon e canções de desespero e tédio existencial adolescente rendados a camisas de uma honestidade virjona retro desarmante, The Ooz lá saiu e lá lhe tomou o lugar. Escreve-se isto de estoiro, com uma meia dúzia/duas mãos cheias de audições no repertório, pelo que o conteúdo é largamente assimilatório, a tomar o gosto ao álbum, a sentir-lhe o pulso. Como tal, e com certeza que pela razão anterior mereceria esta faixa pronunciação primeira, “Baby Blue” insinua-se enquanto o recobro memorializado de “Lonely Blue”, e uma comparação será decerto pertinente. Em a entendendo por via do filtro gravoso que parece ter sido A New Place 2 Drown, sob o pseudónimo, lá o julgo, Archy Marshall, ponderando uma faux histeria púbere primordial e conferindo certo tom de um classicismo hip-hop-ish sensual alapado ao breu sonoro, “Lonely Blue” é um confronto historiográfico de uma franqueza notável. À melancolia moçoila delicodoce da remota faixa, perdida em morosa contemplação panegírica, sobrevêm a tensa exasperação de certo slow-core, a piscar o olho a Low, e a destreza da diligência jazz-ish, de ataque ligeiro nos pratos, numa narrativa musical elíptica, em cujo arrojar súbito das guitarras acena a um ou outro momento de To Be Kind — ostracizando a inocência pueril, sorrindo perante o caos. King Krule não é já somente flâneur, vítima do enlevo do que contempla, agora em supervisão caleidoscópica daquilo de que fala a fim daqueloutro que cria sobre aquilo de que fala, de rédeas nas mãos, homem de acção, como se em irónica postura crítica do King Krule de “Baby Blue”. King Krule espreita da esfera observacional para aplicar o que é agora sua competência; e, para mais, não bastasse a força da espada, King Krule agora é um connaisseur.