Reportagens

LCD Soundsystem || Coliseu dos Recreios

Os LCD Soundsystem são uma banda de sonho: juntam a história do rock, do punk e da música de dança, embrulham tudo, pegam numa bola de espelhos e só nos resta, no fim de tudo, celebrar. E dançar.

O regresso ao ativo, depois de um afamado e mediático final, foi para muitos uma facada: a banda da verdade, da honestidade, teria afinal entrado no circo do rock’n’roll mais banal? James Murphy, o homem do leme, pediu desculpas, mas garantiu que o regresso teria de valer a pena. Em disco, já o tínhamos comprovado o ano passado com o magnífico American Dream, compêndio pop meritório até mais não, tocando perto do nível de Sound of Silver, ainda (e para sempre?) o melhor álbum dos LCD.

As três datas que por estes dias lotam o Coliseu dos Recreios serviriam, por seu turno, para fazer o teste do algodão no que a concertos diz respeito. Na verdade, difícil seria um chumbo no exame: quem já viu o grupo no passado, quem domina o repertório, quem conhece a sede de festa do público português, já tinha uma ideia ao que ia. As suspeitas confirmaram-se.

Só ao quinto tema, com “Call The Police”, há uma passagem por American Dream, o que indiciaria um espetáculo mais num registo de compilar de malhas do que de apresentação de novidades. Mas vamos por partes: “Get Innocuous!”, a bola de espelhos, e a máquina de ‘groove’ dos LCD Soundsystem, aterraram em palco pouco passava das 22:00 e provocaram desde logo um semi-motim que se iria repetir nas duas horas seguintes. Mas se o público se deixou agarrar de início, foi com “Tribulations” que se deu a primeira explosão de energia, fazendo-nos regressar a 2005, quando era música obrigatória em qualquer pista de dança que se prezasse.

No som dos LCD Soundsystem – empreitada coletiva de um produtor e compositor de exceção, James Murphy – há ecos de Kraftwerk, de OMD, de algum punk, de muita soul. Não há muitos refrões pop nem propriamente êxitos de rádio (“You Wanted a Hit” é pura sátira a essa necessidade), mas quase toda a gente conhece quase todas as palavras que saem da boca de Murphy – e todas as ancas, sem exceção, se abanam de forma constante.

“Movement”, música de deitar abaixo uma casa, mostrou ser pouco conhecida pelo público, para logo a seguir “Daft Punk Is Playing At My House” ser servida num tempero menos punk e pautado por mais groove. Houve de seguida tempo para Nancy Whang se chegar à frente e cantar “I Want Your Love”, original dos Chic, e a fechar o primeiro segmento do concerto – antes da banda ir à casa de banho porque, diz Murphy, são já “velhinhos” – uma intempestiva “How Do You Sleep?”, do disco do ano passado.

O encore traz a delicadeza de “Oh Baby”, o furacão “Dance Yrself Clean” e saltos, abraços, beijos e amor,  tudo isto e mais que “All My Friends” representa no repertório dos LCD e, já agora, nas nossas vidas. Ainda há dois dias – lotados ou perto disso – para contrariar a tese – que não sei se existe – de que epifanias não se repetem.

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Fotografias: Inês Silva

Setlist:

Get Innocuous!
You Wanted a Hit
Tribulations
I Can Change
Call the Police
Yr City’s a Sucker
Movement
Daft Punk Is Playing at My House
Someone Great
Tonite
Home
I Want Your Love (Chic cover)
How Do You Sleep?

Encore:
Oh Baby
Dance Yrself Clean
All My Friends

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