Reportagens

KISS || Estádio Municipal de Oeiras

No princípio é sempre o azeite. Quando um puto começa a ouvir música, sabe lá quem são os Velvet ou os Gang of Four. O primeiro concerto que vi na vida foi o dos Guns em Alvalade; e um dos meus primeiros discos foi o If you Want Blood… dos AC/DC. Ainda hoje tenho um imenso carinho por estas duas bandas, e pelos subúrbios onde as ouvi e cresci. Por isso, saúdo a nostalgia hard rock de 2018, com concertos de Ozzy, Judas Priest, Maiden, Scorpions e KISS. Mil vezes o óleo fula do hard rock sincero à pseudo-sofisticação dos hipsters postiços.

35 anos depois da sua primeira visita, os KISS regressaram a Portugal. Foi na terça-feira passada e ainda bem que lá estive. Podem ter sido foleiros, exibicionistas, até um pouco grotescos, mas encontrei mais vitalidade rock’n’roll numa só canção sua do que em toda a discografia dos Editors. No fundo, eles são os Xutos americanos, a banda de adolescência de quase todos. Querem bandas alternativas que tenham gravado covers dos KISS? Dou-vos quatro: Nirvana, Melvins, Dinosaur Jr. e Replacements. Ou como é que acham que o Cobain, crescendo no cu de Judas de Aberdeen, descobriu a magia do rock?

O alinhamento foi certeiro, dominado pelos seus clássicos dos anos 70, de longe a sua década mais inspirada. Claro que há pompa excessiva na sua coreografia, com sangue vomitado, fogo cuspido e ridículas levitações, mas há um certo encanto kitsch em todo o exercício, como quem degusta um filme gore de série Z, que de tão mau se torna bom. O que é curioso é que a música é o contrário da encenação barroca: rock’n’roll cru e visceral. Estão velhos, e não têm a mesma voz, mas rockam mais aos 70 anos do que os War on Drugs quando tinham 20.

Filhos de Alice Cooper da parte da mãe, e dos New York Dolls da parte da mãe também, os KISS levaram o glam rock até às suas últimas consequências: a decadência e o artifício absolutos. Podem não ter a sofisticação intelectual de um Bowie ou de uns Roxy Music, mas paparam muito mais groupies. Numa época dominada pelos moralistas das palavras e pelos snobes do gosto, os feios KISS são um doce bálsamo.

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Fotografia: Inês Silva

Alinhamento:

1- Deuce
2- Shot it out loud
3- War machine
4- Firehouse
5- Shock me
6- Say Yeah
7- I love it loud
8- Flaming youth
9- Calling dr. love
10- Lick it up
11- God of thunder
12- I was made for lovin’ you
13. Love gun
14. Black Diamond

Encore
15. Cold gin
16. Detroit rock city
17. Rock and roll all nite

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