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Kanye West: a Este do Éden em 4 Atos

Kanye West é, para muitos, uma das figuras de proa do hip-hop atual, quer como artista quer como produtor behind-the-scenes.

Com sete álbuns individuais em nome próprio, começando em 2004, Kanye herdou um hip-hop dominado pelo hardcore hip-hop de Diddy e 50 Cent, pela sensualidade de Usher, e pelas paródias sexuais de Eminem. Agora, deixa a quem pegar no estandarte um legado intemporal como produtor, músico e um dos artistas mais influentes do seu género e da música em geral.


Ato 1: Acidente de Automóvel. Thank God I ain’t too cool for the safe belt

Nascido em Atlanta, mas criado em Chicago por um pai Black Panther pouco presente e uma mãe glorificada mais tarde em “Hey Mama”, Kanye começa muito cedo a produzir. Até 2002, com 25 anos, já tem no seu currículo Nas, Janet Jackson, Ludacris, Alicia Keys, Raekwon, Eminem e The Blueprint, de Jay-Z (tido atualmente como um dos melhores no seu género), e, não obstante, desenvolve o seu interesse em ter o seu próprio álbum e tentar a sua sorte como frontman. Numa noite, depois de sair do estúdio, adormece ao volante e envolve-se num acidente de automóvel que o deixa incapaz de produzir, com um maxilar partido: para muitos, algo que impossibilitaria rappar.

Este acidente é o início da sua carreira, o evento que o motivou a criar o que seria o início da sua obra. Mal sai do recobro hospitalar, grava, ainda com o maxilar em recuperação e a boca quase totalmente fechada, “Through the Wire” e finaliza o seu primeiro álbum, The College Dropout.

As inspirações em samples de soul music e a insistência em acrescentar ao álbum pequenos skits está algo desfasada para com os trabalhos contemporâneos do estilo, aspeto que bate certo com a mensagem principal do álbum: a independência e a importância das próprias decisões. Kanye tem um sabor inicial da fama, com três singles em tops da Billboard ao longo do ano. Neste álbum, Kanye tem como combustível a fama que ganhou dentro do círculo de produtores/rappers que alimentam este primeiro álbum cheio de fome.

A ouvir deste álbum: “Jesus Walks” (uso de coros muito bem conseguido), “All Falls Down” (o uso de voz e de vários instrumentos para background noise acompanha fantasticamente uma das melhores músicas do álbum no que toca a liricismo) e “Family Business” (o piano e repetição do tópico familiar traz uma nota de compaixão por cima de um beat suave e tremendamente bem conseguido).

Apenas um ano depois, Kanye lança Late Registration, um récord maioritariamente pautado pela ajuda de Jon Brion, com o intuito de sensacionalizar e orquestralizar West para maior benefício do álbum. Isto é a primeira revolução de Kanye, um produto mais desenvolvido e mais orelhudo do que The College Dropout. Liricamente, o disco é sem equívoco um dos melhores de todos os tempos do género, algo que levou a Rolling Stone a colocá-lo em 118.º nos 500 melhores álbuns de todos os tempos (lista até 2013, o melhor colocado de entre três dos seus álbuns).

Continuam presentes os metais orquestrais e batidas infetantes, o uso de skits, como no primeiro trabalho, e a superioridade autointitulada de Kanye perante a competição. West politiza-o a gosto, falando de diamantes de sangue, racismo e tráfico de droga de hit em hit, com cinco singles de sucesso. O jazz continua uma das suas principais influências (“Drive Slow”, “Addiction” e “My Way Home”) e traz um carácter dançável em “Touch the Sky” e “Gold Digger” que o álbum anterior não alcançava. Kanye é, ao segundo álbum, dono e senhor do hip-hop.

A ouvir deste álbum: “Hey Mama” (criada como homenagem à sua mãe, a pessoa mais importante na sua vida), “Gold Digger” (uma dedicatória gangster, cómica e dançável ao êxito de Ray Charles) e “Diamonds From Sierra Leone” (a melhor produção musical deste álbum na opinião do autor).

Logo em 2007, lança o seu terceiro projeto em quatro anos. Graduation é um desvio da inspiração soul e jazz dos antecessores, com uma maior ênfase em house music e hip-hop de estádio, com êxitos mais eletrónicos e uma revolução no seu próprio método de produção. Em Graduation, Kanye apercebe-se da sua fama recém-adquirida e não tem problemas em usá-la ao longo do trabalho, alimentando-se da força de hinos como “Champion” e “Good Morning”, mas sempre ciente da melancolia e solidão da fama em “Everything I Am”.

Em termos de escrita, é o seu álbum mais fraco: os esquemas rimáticos são menos complexos e completos, dependendo mais do production value que tem para dar e vender. No entanto, “Stronger” catapultou Kanye para a fama que satirizava em The College Dropout e repudiava em Late Registration. O êxito foi a força motriz do álbum declaradamente grandioso, algo influenciado pela tour com os U2, que, de acordo com West, o inspirou a criar um álbum poderoso (o stadium status de “Big Brother”).

A ouvir deste álbum: “Champion” (um hino motivacional compactado numa confissão de Kanye ao seu pai foragido), “Homecoming” (uma colaboração inesperada com Chris Martin, dos Coldplay, sobre um amor fugaz) e “Stronger” (uma das músicas mais importantes da carreira de Kanye e o fator propulsor da sua futura (in)fama). Essa mesma fama que põe Kanye nos píncaros da auto-estima e do mundo musical, para subitamente cair neste segundo ato.


Ato 2: A morte da mãe. Come on Mommy just dance with me, let the whole world see your dancing feet

West vê o divórcio dos seus pais aos 5 anos e tem como principal apoio na sua carreira a sua mãe, alguém que sempre sugeriu que ele seguisse na escola (daí o nome dos seus três primeiros álbuns), mas que incondicionalmente o apoiou quando ele seguiu o caminho oposto. Donda West falece por complicações médicas numa redução mamária e abdominoplastia, oferecida pelo seu filho. Kanye entra numa espiral em que se convence de que matou a sua mãe, o seu rochedo emocional. Numa libertação pessoal, acaba a relação com a sua noiva e acredita que nunca conseguirá rappar como faria. Encontra no auto-tune (usado por ele e T-Pain em “Good Life” na sua obra anterior) um novo processo e integra-o nas temáticas drasticamente diferentes da sua escrita: o melodrama, a maldição da fama e a sua solidão em geral.

Deste ninho de tristezas surge 808s & Heartbreak, um álbum que não tem uma única música com a voz original de Kanye. O som robótico do auto-tune traz uma apatia verbal a um álbum que precisava disso. Há uma solidão mórbida em “Welcome to Heartbreak” e “Street Lights”, enquanto a qualidade de produtor de West se reflete em músicas como “Love Lockdown”. Uma drum machine substitui as orquestras sinfónicas e os metais de álbuns passados. É o primeiro trabalho de Kanye verdadeiramente de auto-análise. Não contém a temática da guerra ou da atitude de milícia em CD, a tragicidade da realidade negra em LR ou a alegria sinfónica de Graduation. Há só e apenas West e o seu estúdio com uma máquina de auto-tune, uma bateria e uma meia-mão de colaborações.

A ouvir deste álbum: “Coldest Winter” (acaba por ser vocalmente a música mais bem-sucedida do disco), “Heartless” (o single principal do álbum e o foco da melancolia de 808) e “Paranoid” (West e Mr. Hudson conseguem fazer uma música enérgica e saudosista dos 80s com autotune).

O álbum é bem recebido: recebe elogios dos críticos, mas os fãs de Kanye dos primeiros projetos ficam consideravelmente desiludidos. No entanto, este álbum é tido como inspiração directa de artistas como Kid Cudi e Drake, e é referido por Kendrick Lamar e Chance the Rapper como um dos primeiros contactos com a carreira de Kanye. A apatia deste teve um impacto quase direto na sua imagem pública: passou a ser um fantasma, e tomou uma decisão que, para melhor ou pior, marcou a sua carreira.


Ato 3: O incidente Swift e a sua bela, sombria e distorcida redenção. Screams from the haters got a nice ring to it / I guess every superhero need his theme music

Nos Video Music Awards de 2009, Taylor Swift vence Beyoncé na categoria de Best Female Video. No discurso do seu primeiro prémio, a cantora country, na altura com 19 anos, é interrompida por Kanye West, que declara que o vídeo de “Single Ladies” era mais merecedor do prémio. Kanye é prontamente apupado para fora do recinto, deixando uma Taylor em lágrimas atrás do palco e todos os presentes enojados com a sua atitude.

West é crucificado em praça pública por toda a gente que era gente, desde o então presidente dos EUA, Barack Obama, ao atual presidente dos EUA, Donald Trump, passando por vários músicos e celebridades da indústria.

Kanye, com uma imagem social destruída, pede uma desculpa que nenhum crítico crê ser bem-intencionada. Kanye exila-se no Havai e escreve. Produz. Sem parar. Convida desde John Legend a Justin Vernon, aposta em features de 2 Chainz e Nicky Minaj e, em 2010, apresenta ao público a sua libertação da prisão autoimposta.

My Beautiful Dark Twisted Fantasy é considerado pela maior parte da crítica musical o melhor álbum de 2010 e pela Rolling Stone um dos 500 melhores álbuns de todos os tempos. Gil Scott-Heron, Mike Oldfield, Jay-Z, RZA e Justin Vernon são alguns dos produtores deste álbum que corresponde a todas as expectativas possíveis.

Esta é a epítome de autoanálise. Kanye, numa fossa emocional, reencontra-se num estúdio do Havai com os seus e consigo próprio. E apercebe-se, a meio da sua criação, de que ele é o melhor. De todos os tempos. O ego de Kanye explora dimensões egoístas que ninguém imaginaria possível. E qualquer pessoa que oiça este álbum de mente aberta irá notá-lo, música a música.

O uso de coros e de sons orquestrais volta à ribalta, logo notório no princípio em “Dark Fantasy”. O auto-tune é reduzido, mas os seus usos são brilhantes, tanto enquanto a simulação de uma guitarra com a voz em “Runaway”, tanto enquanto a confissão intimista de Justin Vernon em “Lost in The World”.

Todas as músicas são de ouvir nesta obra. “Dark Fantasy” é uma entrada gloriosa e vangloriosa de Kanye de volta no mundo da música, “Gorgeous” tem uma guitarra e uma voz distorcidas deliciosas enquanto Kid Cudi canta a bridge. “POWER” é um hino que, segundo consta, contou com 5000 horas de trabalho de estúdio e de remisturas; “All of the Lights” é uma colaboração fenomenal com Rihanna sobre o levantar da cortina que separa a fama da vida real e tudo o que representa, num dos maiores club bangers deste récord; ”Monster” é um rodízio de colaborações musicais (Justin Vernon, 2 Chainz, Jay-Z), com um destaque para os versos toxicamente viciantes de Nicky Minaj na parte final da música, pautada por sons pesados; “Blame Game” conta com o talento vocal de John Legend, um sample fenomenal de Aphex Twin e confissões viciantes e fetichisadas pelas teclas por detrás dos versos sexuais de West, com uma colaboração inesperada do comediante Chris Rock no fecho da faixa.

“Runaway” é, no entanto, um marco. West admite as suas falhas e fracassos emocionais, num hino pautado por um piano singelo ao longo da música e dos desabafos da falta de tato perante a vida como celebridade e como amante. Pede que fujamos dele, que ele não se considera flor que se cheire; pedido esse que, a dois terços de MBDTF, soa final. Pelos seis minutos desta faixa, Kanye usa da sua voz para simular uma guitarra enquanto o piano continua, até desvanecer por volta dos nove minutos.

Kanye está, pelo menos aos olhos dele, no topo da cadeia alimentar musical como o melhor no seu género. Vê MBDTF ser homologado o seu magnum opus, algo que ele nunca seria capaz de reproduzir.

Então West decide mudar o seu estilo. Substitui os grandiosos hinos sonoros, os refrões orelhudos e as features sonantes por uma discrição anormal. Três anos passaram da sua promulgada melhor obra e West lança Yeezus. Ao sexto álbum, Kanye troca a sua costela soul por um som house tremendamente trabalhado. Pode-se descrever este álbum com o grande investimento em produção de Graduation, mas com as temáticas ainda mais sombrias do que as de 808’s & Heartbreak.

O álbum experimental é uma volta de 180 graus na sonoridade anterior, um hip-hop muito mais minimalista (o maior momento de destaque será, talvez, em “Bound 2”) e consideravelmente mais industrial, a la Death Grips, um protesto contra o hip-hop e uma celebração da sonoridade rock e metálica, a molhar os pés na trap.

As samples, por esta altura imagem de marca da sua ilustre carreira, vão de Nina Simone (“Blood on the Leaves”) e Capleton (uma “Forward Inna Dem Clothes” em “I Am a God”) a Omega (banda húngara da década de 70, presente em “New Slaves”), sempre bem trabalhadas e integradas. Se MBDTF é o álbum “perfeito” (de acordo com o próprio West), Yeezus é a desconstrução de Kanye; um álbum cru, cheio de ideais e meias-músicas que ganham um papel de destaque à medida que se avança pelas faixas, completando-se a cada nova audição. O destaque dado a coros enlevados, vocais alterados (por auto-tune ou outro modo) e sobrepostos está presente, mas a um nível mais superficial e menos decorado.

A ouvir deste álbum: “New Slaves” (Kanye traz a tragicidade do racismo no início do século XX cantada por Nina Simone e usa-a como fundo de uma confissão de fama crua e impecavelmente produzida, com uma enorme atenção aos metais); “Hold My Liquor” (os vocais de Chief Keef e Justin Vernon trazem uma melancolia depressiva sobre a batida metálica e distorcida, tão usada como as substâncias de que a música fala) e “Bound 2” (o primeiro single do projeto, uma música que pisca o olho a College Dropout com o seu refrão viciante e samples soul).


Ato 4: A vida de Pablo e o que guarda o futuro. This is my part, nobody else speak

Três anos depois de Yeezus, Kanye lança o seu álbum mais recente; The Life of Pablo teve como single inicial “Famous”, uma faixa tremendamente provocadora a mirar novamente Taylor Swift e cujo vídeo revelava as fraquezas por trás dos famosos, a (literal) nudez que todos partilham.

West, novamente feito de opostos, lança em Pablo um álbum que parece à primeira audição desleixado, comparado com a exatidão cirúrgica de Yeezus. As inspirações vêm de todos os álbuns anteriores e algo mais: soul negro sulista (“Ultralight Beam”), batidas experimentais e misteriosas (“FML”), samples presunçosos (“Famous”), notas de gospel (“Father Stretch My Hands Pt.1”), trap declarado (“Pt.2”) e um Kanye acapella cómico (“I Love Kanye”).

A ouvir deste álbum: “Ultralight Beam” (Chance é imperial, entre memórias de igrejas sulistas e um beat suave e melódico), “Fade” (Ty Dolla $ign toma as rédeas de uma música extremamente dançável e rítmica) e “No More Parties in LA” (pautado por um à-vontade de Lamar fazer da música sua, pulando entre as batidas quase arábicas e versos intensos e marcados).

O álbum foi recebido positivamente, destacando-se exatamente pela sua fragmentação dentro da obra, tornando-se no primeiro álbum sem cópias físicas a chegar a platina de sempre. Este projeto foi, aliás, alterado várias vezes após o seu primeiro lançamento, ao longo de três dias. No entanto, é um álbum difícil de avaliar e comparar, dado o historial de West. É, no seu conjunto, um aglomerado de músicas que poderiam aumentar uns minutos cada um dos seus álbuns anteriores. Todas as músicas são exemplarmente concebidas, mas expostas de um modo caótico. E essa combinação acaba por ser uma ótima descrição à sua carreira até à data.

Este ato, no entanto, fica por agora incompleto. Uma carreira que já trouxe sete álbuns por nome próprio e colaborações com alguns dos maiores nomes da música mundial atual ainda não acabou. Kanye mostrou durante treze anos o seu talento como produtor e músico, mas também as suas fragilidades sociais e fraturas emocionais. O selo de qualidade que pauta o seu profissionalismo é transversal a todos os seus álbuns, cada um de sua maneira, e assim tem sido desde que escrevia beats para outros artistas num pequeno apartamento em Chicago, ainda vivendo com a mãe que amava incondicionalmente. Agora, aos seus olhos, o mundo musical tornou-se pequeno demais para ele. As constantes glorificações de que é alvo por parte de outros artistas colocam-no num pedestal que, no fundo, Kanye West julga não merecer. O estatuto divino autointitulado deixa-o com uma fome tremenda de nos deixar um legado maior. Cá estaremos para o testemunhar. Palavra de Kanye.