Canção do dia

“I Shall Love 2” – Julia Holter

“That is all, that is all, there is nothing else” afirma Julia Holter, algures entre o resignada e o satisfeita, em “I Shall Love 2”, single do seu ultimo disco, Aviary, lançado em finais do mês passado. Tudo isto em jeito de conclusão. Mas é este remate que dá o pontapé de saída para o início do tema: está tudo fora de ordem. Mas é sob esta desorganização intencional e deliciosa que marcham os noventa minutos mais corajosos que a compositora, cantora e produtora norte-americana já alguma vez gravou. Em 2018, a princesa de cabelos compridos do dream pop fofinho de temas como “Feel You” ou “Sea Calls Me Home”, ambos retirados do encantador Have You In My Wilderness (de há três anos atrás) transformou-se em rainha do caos organizado.

“I Shall Love 2” talvez seja, na verdade, um dos temas mais contidos de Aviary. Mas, tal como o resto do disco, demonstra uma bravura que poucas princesas estabelecidas do dream pop encontrariam dentro de si. A veia experimental que sempre acompanhou Holter, por vezes, mais perto, por vezes mais longe, corre ao longo dos dois acordes que se repetem até à exaustão, enquanto os violinos, o baixo e a frase fantasmagórica de chansion francése do sintetizador agiganta-se a olhos vistos. Quando os cinco minutos que a conseguiram prender terminam, a canção cresceu de criança a adulta dentro dos nossos ouvidos, passando de um desabafo de sussurro a um grito de cacofonia de cordas, teclas, tambores e vozes que repetem a frase de ordem que encontramos no título até à confusão: será um pedido, uma exigência, um desejo? Não sabemos. Mas “I Shall Love 2” e o disco que fez dela sua é um mar sem rumo e sem bússola que exige que nele nos percamos sem olhar o mapa. Que aceitemos o caos como a organização que Holter tão generosamente nos deu.