Reportagens

José Gonzalez || Aula Magna

Na última quarta-feira, a plateia da Aula Magna deixou-se embeiçar pelo indie-folk romântico de José González. Uma noite onde a música se encarregou de reunir, num surto introspectivo, as recordações dos que por ali buscavam ouvir-se ou compreender-se naqueles versos.

José González é um nome que já nos é familiar, mas é a sua voz que torna inconfundível. Dois anos volvidos desde o lançamento do último álbum Vestiges & Claws, que serviu de desculpa à sua anterior passagem pela capital, o músico regressou na quarta-feira passada a Lisboa para uma noite de casa quase-cheia na Aula Magna.

Surgindo tímido e desacompanhado, González esclareceu desde o início a diferença entre a concepção cliché do “gajo com a guitarra” e o artista singelo, fugindo sorrateiramente a esse estilo pré-definido. Pois bem, o também membro dos Junip não é um gajo qualquer: o seu característico tenor sussurrado e os seus acordes doces (ocasionalmente a fazer lembrar a densidade da guitarra de Norberto Lobo, por exemplo) disputam assim os corações do público mas é a fusão dos dois que o retira da lista de lugares-comuns da música.

O repertório escolhido não mostrou preferências entre álbuns, houve um pouco do mais recente, um tanto ou quanto de In Your Nature e um outro tanto de Veneer, o mais velhinho dos três LPs. Mas acabou por ser o público a decidir, com base nas mais audíveis reacções, que seriam “Crosses” ou “Killing For Love”, a par e par com as covers Heartbeats (The Knife) e Teardrop (Massive Attack), as últimas já reservadas para o encore.

Entre as faixas do alinhamento, é possível que alguém se perca entre sonoridade demasiado semelhantes, mas é também inegável a capacidade dessas mesmas canções guiarem os transeuntes do espectáculo por cenários idílicos, numa escuridão diferente da que cai sobre a Aula Magna. Aliando a sua herança sueca e a sua influência da Argentina (país de onde saiu com apenas um ano de vida), Gonzalez faz música embebida em memórias – suas e de outros passageiros desta vida. Talvez por isso, neste caso específico, o preferisse antes ver num contexto de festival (e acho que nem nunca preferi tal coisa), mas apenas para o poder ouvir num final de uma tarde de verão, arrefecida pelo pôr-do-sol.

Há uma quantidade generosa de engenho que o músico deposita na sua arte. E é assim, com maturidade nas suas palavras e doçura nas cordas, que José González nos proporciona uma noite nostálgica, que nunca chega a ser triste, porque temos sempre a sua voz para nos reconfortar.

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Fotografia: Luís Flôres

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