Reportagens

Jake Bugg // Jorge Palma || EDP Cool Jazz 2017

A quinta noite do EDP Cool Jazz teve dois artistas a atuar a solo. Dois nomes para duas gerações: Jake Bugg e Jorge Palma.

Jorge Palma, o nosso melhor fora da lei (como o Jeremias, aliás), apresentou-se ontem, a solo, no EDP Cool Jazz, comemorando os 26 anos desse clássico absoluto da música portuguesa que dá pelo nome de . Era o destaque da noite, muito embora o nome do inglês Jake Bugg também despertasse interesse em muitos dos presentes. Mas Palma era cabeça de cartaz, e isso já diz muito da condição do homem que nos foi ensinando, aos poucos, que “no bairro do amor” é onde se vive melhor. Ao entrarmos nos Jardins do Marquês de Pombal, ainda encontrámos restos do vento que há já alguns dias vem infernizando quem vive por essas bandas, e que tanto se fez sentir na noite anterior do Festival. Mas, na verdade, parecia não querer arranjar inimizades maiores, o que nos agradou bastante. No entanto, nunca fiando…

Quando Jake Bugg entrou em palco, a primeira constatação: o concerto duplo da noite de ontem foi revelador do gap geracional entre o público. A correria dos putos até à frente do palco foi imediata, embora sem as consequências pretendidas, uma vez que de lá foram prontamente afastados. Munido apenas da sua guitarra, Jake Bugg, que alguns consideram ser uma espécie de novo Dylan (já ninguém leva a sério, julgamos nós, as barbaridades que se dizem) tinha acabado de chegar de Inglaterra e cedo ganhou os youngsters que, quando bem entendiam e as canções pediam, iam demonstrando o seu genuíno agrado pelo espetáculo de Bugg. Alternou canções do seu próximo álbum, que sairá em setembro, com outras mais antigas e conhecidas. Percebe-se que Bugg dá importância ao que canta e não deixa de ser curioso o caudal de influências que se percebe nele, desde o mítico e já referido Dylan, passando pelos Beatles, Johnny Cash, até chegar aos irmãos Gallagher. Da mistura de tudo isso resulta um jovem de vinte e poucos anos que tem inegável talento, embora as canções nos parecessem quase todas idênticas, provavelmente por se apresentar a solo e também por força da sua voz tão particular. Metade da plateia berrou (não há termo melhor, acreditem), a outra conversou enquanto esperava pelo português. Gostaríamos de o ter visto com banda, mas a noite era de solos, pelo que não havia volta a dar. Foi bom, para arranque do duplo concerto programado, embora curto, como todas as primeiras partes do EDP Cool Jazz têm sido. Fica, para já, um tema do novo álbum no ouvido: “Southern Rain”, balada de finíssimo estilo. A ouvir com mais atenção lá para o fim do verão, quando vier o disco.

Se no primeiro concerto foi a guitarra a estar em destaque, no segundo esteve o piano. Sobre Jorge Palma e sobre o álbum já tudo se disse há muito tempo, e para que um disco continue a ser festejado vinte e seis anos passados do seu aparecimento, é porque nele reside algo de histórico e de intemporal. Nós não temos dúvidas do porquê de tal longevidade. São as canções, são as letras das canções que fazem de aquilo que ele efetivamente é, um marco incontornável da música popular portuguesa do início dos anos noventa do século passado. Foi, na altura, uma decisão feliz do cantor e compositor tê-lo gravado apenas na companhia do piano. Ontem, essa mesma felicidade mostrou-se ainda bem viva. Na “Terra dos Sonhos” de Jorge Palma todos nós temos lugar e todos podemos rir, desde que nos deixem, mas também chorar sem qualquer problemas. Até porque “toda a gente trata a gente toda por igual”, como na canção. Até Stockhausen apareceu na noite de Oeiras.

“Essa Miúda” continua a deambular na “Canção de Lisboa” como se o tempo não tivesse passado, e somos levados, no embalo de todos os temas tocados, a “deixar de pensar”, escutando a sabedoria das estrelas do mar, sabendo que “já passaram mil anos, mas mil anos são poucos ou nada”, embora neles as nossas vidas se transformem em vitoriosas ou perdedoras. Claro que Jeremias também apareceu, e agora parece andar dentro da lei e já não tenta “alterar a Constituição”. Tudo evolui, naturalmente. Jeremias já não está “do lado de fora” e “Frágil” ainda nos torna fortes, assim como quando se toma um bom “whisky de malte”.

“Ontem julguei ter visto a luz” na escuridão da noite de Oeiras “e foi nesta viagem que percebi que não estou só”. Obrigado, Jorge Palma. Foi muito bom estarmos contigo. E assim será “enquanto houver estrada para andar”.

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Fotografias gentilmente cedidas pela organização