Reportagens

Guns N’ Roses || Passeio Marítimo de Algés

Os Guns N’Roses voltaram ontem a Portugal passados 25 anos da mítica e polémica passagem pelo velho estádio de Alvalade. É impossível falarmos do concerto de ontem sem recordarmos essa noite e sem estabelecer alguns paralelismos com esse concerto de 92. Porque em 25 anos muita coisa muda. Mudaram os Guns, mudaram os fãs, mudou a sociedade e também o país. Mas as músicas, as mesmas do passado (já que a banda não edita nada novo há demasiados anos), essas, estão intactas.

Vamos então ao que mudou. Comecemos já por Axl: 25 anos depois, o líder do grupo já não é magricelas e, apesar de rebelde, com as suas jóias extravagantes, camisa aos quadrados à cintura e coleção de casacos, o vocalista é hoje um tipo muito mais cool. A figura extremamente simpática e afável contrasta com aquela de miúdo (embora de 30 anos) birrento e polémico que o levou a cantar boa parte do concerto deitado, depois de escorregar, em Alvalade. Ontem não escorregou, cantou sempre em pé (excepto quando ao piano) e correu pelo palco vezes sem conta.

Mudou também Duff McKagan. Continua no seu lugar de low-profile mas duma forma mais madura e assumindo-se como o grande membro importante que é. Passou o concerto com uma t-shirt de Lemmy, fundador dos Motorhead, falecido em 2015 e foram inúmeras as vezes que a sua guitarra, com um autocolante do símbolo de Prince, apareceu destacada nos ecrãs gigantes. Homenagens bonitas.

Slash… bem, Slash por acaso não mudou nada. Continua com os seus enormes caracois, chapéu e óculos escuros. Mas sobretudo continua a dominar as suas guitarras de forma incrível, solidificando-se a cada riff como um dos maiores guitarristas da nossa era. Acabou o concerto a tocar a sua guitarra atrás da cabeça e com um sorriso nos lábios, algo que não nos recordamos de alguma vez ter visto.

Mas isto são os Guns. Claro que mudaram porque caso não o tivessem feito, não se teriam sequer voltado a juntar. A digressão que se chama “Not In This Lifetime” (Nunca nesta vida) ironiza precisamente com a surpresa da reunião. Os membros da banda andaram de costas voltadas e juravam nunca mais se reunir, mas o tempo todas as zangas cura.

Voltando às mudanças, não podemos esquecer o público. Se há 25 anos atrás, muitos dos presentes em Alvalade eram rebeldes, junkies à boleia do cavalo, metaleiros puros ou simplesmente grandes malucos, ontem o ambiente era bem diferente. Maioria absoluta para as camisolas pretas, sim, mas o público era mais maduro, mais bem comportado, bem mais cívico. Mas inegavelmente, estávamos no meio de fãs acérrimos. Não se viu uma alma que não estivesse com um largo sorriso na cara de quem cumpria novamente o sonho de ver a sua banda do coração em palco. Cantaram, saltaram, aplaudiram e saudaram os seus reis. A começar logo com “Welcome to the Jungle” e depois com outras malhas incríveis como “Live and Let Die”, “You Could Be Mine” ou “Civil War”.

O concerto teve inúmeros momentos marcantes. Um dos maiores foi com a homenagem a Chris Cornell. Os Guns tocaram “Black Hole Sun” em uníssono com o público já bem nostálgico de um dos seus heróis preferidos do grunge. Outro foi quando Slash, depois de um magnifico solo, introduziu “Speak Softly Love”, tema romântico do filme O Padrinho. Mais tarde foi a vez da cover de “Wish You Were Here”, dos Pink Floyd, também por Slash em dueto com o guitarrista Richard Fortus. E já no encore, a banda tocou “Whole Lotta Rosie”, canção dos seus amigos AC/DC, em mais um grande momento.

A casa veio literalmente abaixo quando se ouviu “Knockin’ on Heavens Door”, depois de um enorme momento também com “November Rain” e o concerto acabou em apoteose absoluta com “Paradise City”.

Foi uma noite memorável. Não vamos esconder que os Guns N’ Roses, por vezes, roçam ali um bocado a azeitice. E a pirosice. “November Rain” é uma enorme canção mas admita-se, é pirosa. Mas não há qualquer mal nisso. Os Guns são, para uma enorme geração, uma das maiores bandas. É uma banda da infância ou da adolescência, que se torna por isso, uma banda das nossas vidas. Poder vê-los em palco, quando isso se pensou impossível durante tanto tempo, é um marco incrível que nunca cairá no esquecimento. Apesar de alguns momentos menos fortes (como qualquer concerto tem), o espectáculo ontem foi enorme. E “apenas” uns 55 mil tiveram a oportunidade de marcar presença.

Setlist:

  1. It’s So Easy
  2. Mr. Brownstone
  3. Chinese Democracy
  4. Welcome to the Jungle
  5. Double Talkin’ Jive
  6. Better
  7. Estranged
  8. Live and Let Die
  9. Rocket Queen
  10. You Could Be Mine
  11. New Rose
  12. This I Love
  13. Civil War
  14. Black Hole Sun
  15. Coma
  16. Slash Guitar Solo
  17. Speak Softly Love (Love Theme From The Godfather)
  18. Sweet Child O’ Mine
  19. Out Ta Get Me
  20. Wish You Were Here
  21. November Rain
  22. Knockin’ on Heaven’s Door
  23. Nightrain
  24. Patience
  25. Whole Lotta Rosie
  26. Paradise City