Uma geração inteira na lente de Vera Marmelo

Foi há 10 anos que publicou a primeira fotografia no seu blog. Desde então, centenas de músicos já passaram pela filtro da sua máquina. Em ensaios, concertos ou retratos, Vera Marmelo é A fotógrafa da nossa geração. O seu percurso, não premeditado, acaba também por estar intimamente ligado ao nascimento de uma nova corrente da música nacional, mas ao falar em corrente, não podemos falar em géneros – dos Orelha Negra a Ana Moura, dos Linda Martini a Noiserv, o olho fotográfico de Vera Marmelo tem apenas uma premissa, captar o que está aqui, agora. Esta semana, para celebrar 10 anos de vida online, lança um novo site, que funciona como uma espécie de retrospectiva, também para arrumar as memórias que foi acumulando ao longo de uma década. O blog não vai cessar actividade, passa é a ter um amigo à altura, em que as fotos estão arrumadas por categorias e por épocas. A acompanhar este site, numa parceria com o atelier Desisto, Vera Marmelo vai lançar 3 posters grandes (o primeiro pode ver-se aqui em cima), em que resume três períodos: de 2006 a 2009; de 2010 a 2013; de 2014 a 2016. Tudo isto passa a estar disponível a partir desta segunda-feira e foi o pretexto para uma conversa sobre ir a concertos, fazer amigos e tirar fotografias, que são bastante mais do que simples disparos do gatilho.

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Como é que te tornaste fotógrafa de música?

A coisa começa no Barreiro, havia uma série de bandas que estava a fazer uma música, que na altura era um bocadinho aventureira, cenas meio noise. Há uma banda em particular, que são os Frango – o Jorge Martins, que está nos Estados Unidos, o Vítor Lopes e o Rui Dâmaso. O Vítor hoje em dia trabalha na Filho Único e é um dos organizadores do Out.Fest, e o Rui a mesma coisa. E estas são assim as primeiras pessoas que eu começo a ver tocar, no Barreiro, quando começo a sair sozinha, sem aqueles amigos da escola secundária. E o meu pai tinha uma camera digital, muita pequenina, com 2 mega-pixels, e eu andava curiosa a ver aqueles concertos – havia um espaço muito engraçado no Barreiro que era o El Matador, e toda a gente ia ver concertos ali. E eu comecei por iniciativa minha a ir àqueles concertos, levava a minha maquininha, tirava uma fotografia aqui e ali. Naquela altura o que existia era o Fórum Sons, e a malta interessava-se por aquela nova cena nova-iorquina, a cena muito aventureira, tipo Black Dice e coisas assim, a cena do free-jazz a começar em Lisboa e esta cena noise, que vinha do Barreiro. E estes dois rapazes, o Vítor e o Rui começam em 2004 um festival chamado Out.Fest, eu fui à edição 2005 e aí é a primeira memória mais lúcida que eu tenho de conhecer o Tiago Sousa também. Em 2005 eu fotografei algumas coisas do festival, mas muito ao acaso, mas nunca houve um interesse da minha parte, tipo “estou a fotografar porque gosto muito de fotografia”,de todo. Aquilo, acumular aquelas imagens, era um bocado eu arranjar uma razão para entrar em contacto com aquelas pessoas que eu não conhecia. Era uma miúda meio tímida, sou mais nova que eles alguns anos, e comecei a acumular estas imagens para ver se tinha uma razão para falar com eles. E depois quando conheço o Tiago nesse Out.Fest, ele estava a começar a Merzbau nessa altura. Depois fomos falando, através do Fórum Sons, ele começou a levar-me a concertos – a primeira vez que eu vi Linda Martini foi o Tiago que me levou de boleia até Lisboa. Então eu começo esta minha relação com os dois organizadores do Out.Fest numa de “tenho uma cena para vos dar, posso ser vossa amiga?”, e com o Tiago acaba por ser uma cena mais de amizade, de duas pessoas que se conhecem e dão-se bem e frequentam as mesmas plataformas de internet, MySpace e não sei quê. No ano seguinte, em 2006, eu já fotografo o festival mesmo a sério, porque já me estou a dar muito mais com eles, já tinha a minha própria máquina de filme, já tinha aprendido a revelar, e entre 2005 e 2006 eu começo a andar com o Tiago para todo o lado e ele tinha a Merzbau, através de quem eu conheço o Luís Nunes [Benjamim], o B Fachada, e pouco mais tarde eu começo a fotografar os concertos todos. Então a justificação é só esta. Eu na verdade nunca quis bem fotografar, foi só uma ferramenta que eu encontrei para, no início, conhecer aquelas pessoas (…) não posso dizer que eu gostava imenso daquele tipo de música, eu estava entusiasmada por pensar que, perto de mim, havia pessoas que arranjavam forma de fazer alguma coisa acontecer. E se fossem skaters, eu estaria a fotografar skaters até hoje (risos).

20160817-veraA Merzbau está intimamente ligada ao teu começo como fotógrafa.

A Merzbau arranca com muita força, porque nós tínhamos muito entusiasmo e, com o advento do MySpace, quebraram-se aqueles mitos de “precisamos de uma editora, e disto e daquilo”. Não, não precisamos de nada, precisamos de ter uma ligação à internet, ter um quarto de alguém para gravar o disco e ter uns microfones e um computador, e ter energia e vontade de fazer. A Merzbau chegou a fazer noites de concertos com o Má Fama, que era o programa de rádio do Sérgio Hydalgo na altura. E eu conheci o Sérgio também através do Fórum Sons, e ele gravava o programa na rádio do Técnico, que era onde eu estudava. Há uma fotografia que aparece no poster que é o Kyp Malone, dos TV On The Radio, a gravar na casa do Sérgio. E como é que isto aconteceu? Eu fui vê-los ao Super Bock Super Rock, em 2007, estava a andar no meio da rua e cruzei-me com eles. Voltei atrás, “ontem o concerto foi incrível”, eles olharam para mim, “fixe, obrigado”, e de repente perguntaram-me indicações em Lisboa, “é por ali, mas se quiserem eu posso ir com vocês”. E quando estávamos a falar sobre música eu contei-lhes que tinha um amigo que faz um programa de rádio e por acaso, pouco tempo antes, tinha sido destacado na Pitchfork por causa de um programa que ele gravou em casa com o Panda Bear. E o Kyp e o Tunde [Adebimpe] sabiam perfeitamente qual era o programa e já o tinham ouvido. O Kyp ficou em Lisboa mais uns dias e eu perguntei ao Sérgio se ele gostava de gravar com ele, e então 3 dias depois eu estava a levar o Kyp Malone à casa do Sérgio para gravar o programa. E os podcasts ainda estão todos online e é delicioso veres que as bandas que eram destacadas na altura , agora são As bandas. Então a minha relação com ele, e o que justifica a minha proximidade tão grande à ZDB vem de um passado muito distante, de uma amizade que é construída à volta da música de que gostamos.
Tudo tem uma justificação. E o que eu queria muito é que as pessoas percebessem que não é gratuito, não é “ela agora vai a todos os concertos, entra onde quer, só por dá cá aquela palha”, não. Eu tenho realmente uma relação pessoal com muitas destas pessoas, mesmo que se resuma à cena de eu estar muito tempo com eles, em momentos de ensaios ou gravações, mas vem tudo de um passado tão distante, que te dá um tacto para lidar com estas pessoas que não é possível quando só vais fotografar num pit.

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E qual é o teu critério para escolha das bandas que queres fotografar?

Eu não tenho muito interesse em fotografar os festivais grandes porque eu sei que não acrescento nada. Mas sei que o facto de acompanhar estas pessoas há tanto tempo, fotografar festivais como o do Barreiro e o Out.Fest, que são feitos por pessoas minhas amigas e da minha cidade e que acrescentam valor à minha cidade, é muito mais importante para mim do que estar a fotografar um festival muito grande com músicos que não vão ficar mais populares ou ninguém os vai ficar a conhecer por eu ter uma fotografia deles. E o mesmo se passa com a minha relação com a ZDB, por eu ter perfeita consciência que a forma como o Sérgio decide trabalhar, ou as pessoas que ele quer programar em momentos-chave, vai ser a única vez que vais vê-los a esta distância. No outro dia estava a ver fotografias da Kelela, que tocou na Zé dos Bois e agora tocou no SBSR – nunca mais vais ter a hipótese de ver a Kelela numa sala com capacidade para 200 pessoas, em que ele está aqui à tua frente, a tocar-te na mão, porque ela é grande demais para isso. É o mesmo que a Angel Olsen, quem perdeu os concertos dela a solo na ZDB, já não vai ver. O Amen Dunes, que agora esteve em residência na ZDB, aquele concerto que ele deu, só guitarra na mão, foi uma coisa que ele nunca tinha feito, faz para dar de volta a uma pessoa que lhe deu alojamento e proporcionou uma residência, para o ano que vem ele tem um disco novo, com banda, e nunca mais. Portanto eu gosto de guardar estas coisas assim, e gosto de continuar com esta cena de voltar para trás, “esta banda já está muito grande, já não querem saber de mim para nada, e eu vou para trás outra vez, para os miúdos”.

O teu percurso está também intimamente ligado a um momento em que a música portuguesa teve um novo fôlego.

O Fachada entra na Merzbau, de repente olha para a Flor Caveira e vê o Tiago Guillul e o Samuel [Úria] e aquela gente toda a cantar em português, e com o seu ar muito lúcido e profissional percebe que a sua música é muito mais próxima da música destas pessoas. E ele diz-me um dia “tens de ir ter com estes gajos, vão ser a última coca-cola no deserto”, e eu fui lá. E depois o Samuel começou a ter muita visibilidade, os Pontos Negros a mesma coisa, e quem tinha fotografias dos concertos lá refundidos era eu. Eu fotografei o casamento do Filipe [Sousa] dos Pontos Negros, chega a este nível de intimidade, fui convidada para o casamento do Jónatas [Pires], eu fazia parte daquele grupo de pessoas também como amiga e não só como a voyeur dos concertos. Então, nessa altura, as minhas coisas saltam para os olhos de muita gente, porque a Flor Caveira faz capas do Ipsilon, o meu nome começa a aparecer associado a eles. Com isto conheço o Henrique Amaro, que me convida para ir fotografar os Linda Martini quando eles gravam aquele EP ao vivo, das primeiras edições da Optimus Discos, e eu fui tipo groupie, eu era fã deles. Mais tarde chamou-me, quando Os Dias da Raiva estavam a gravar o disco, e foi aí que começou a minha relação com o Fred [Ferreira] e a minha ligação aos Orelha Negra começa em 2010 e dura até ao início deste ano – em que eles deram o grande concerto no CCB – e eu fiz mil coisas com eles, coisas incríveis, estive com eles em todos os festivais, nos ensaios com a orquestra. Depois acabei por conhecer outras pessoas, cheguei a fazer três datas com a Ana Moura e o António Zambujo, quando deram aqueles concertos em conjunto. Porque a Ana Moura participou num dos concertos do They’re Heading West, na Casa Independente, viu as fotografias e gostou.

Por teres um emprego, das 9h às 17h, podes dar-te ao luxo de fotografar só o que queres?

Se eu decidisse largar o meu trabalho e tornar-me fotógrafa a tempo inteiro, iria sobreviver. Mas é um equilíbrio de que preciso. Por ter a perfeita noção que o meu trabalho de engenharia tem um carácter de utilidade pública, de realmente fazer a diferença e ter um impacto na vida e no dia-a-dia das pessoas, que eu sei que a fotografia não tem. Há muita gente que fica entusiasmada por ver as imagens e ter aquela cena de estar mais próxima e gostar daquele músico e querer saber como é que é e querer ver fotografias. Para um músico também é fixe, a promoção, a sensação de estar e ser acompanhado e ter um registo do seu trabalho ao longo dos anos, tudo isto é válido mas é o topo da pirâmide das necessidades de uma pessoa. Estes posters que eu estou a fazer é assim uma loucura, eu querer materializar um site. O que vai acontecer é que no site consegues navegar e ver as mesmas fotos que estão no papel, eu podia perfeitamente ter feito aquilo só em digital, mas não, estou a investir uma pipa de massa em coisas de papel, muito por aquela sensação de fazer coisas, de materializar e tu perceberes que não é só uma existência online – as cenas acontecem, as músicas existem e os registos também, portanto, se podes ter ali guardado um resumo da matéria dada, está óptimo.

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Sentes que documentaste visualmente o aparecimento de uma nova música portuguesa?

Mas no início foi uma coisa tão inconsciente. Eu nunca pensei, não dá para estar consciente de uma coisa destas quando estás à começa-la. Agora, ao olhar para trás, ganho essa noção, principalmente porque começo a olhar para os retratos iniciais que tenho do Samuel, da Márcia, eu tenho uma fotografia que aparece no poster que é o Fachada, a Márcia e o Tiago Pereira [A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria], numa conversa de café. E o Tiago teve uma importância muita grande nesta parte de começar a gravar os músicos portugueses, ele montou ali um arquivo que é brutal. E eu ter agora a noção que já tenho coisas, que dá para fazer uma espécie de retrospectiva, é incrível. Mas também, por exemplo, os Buraka fizeram 10 anos – eu nunca fotografei os Buraka, mas isso não invalida o valor absurdo que eles têm na construção desta cena da nova Lisboa. Ou seja, eu não estive em todo o lado, mas dá para contar muita história. Mas isto é uma curadoria muito pessoal, se a minha cena fosse o black metal, eu andava só com as bandas metaleiras e fazia outra história. Mas as ligações… a cena do Out.Fest, há muita gente que me associa à música portuguesa mas eu acompanho há 10 anos aquele festival, que hoje se chama Festival de Música Exploratória, há 10 anos que eu levo com as coisas mais fáceis, tipo o Panda Bear ou o Steve Gunn, até aos Faust, The Fall, Wolf Eyes, às jardas todas inimagináveis. E é também esta gente que faz com que eu me ligue à cena do free-jazz em Lisboa, e tenho uma amostra de Rodrigo Amado, Manuel Mota, Gabriel Ferrandini, a Cleen Feed, que é outra cena que é super importante e que mete Portugal no mapa, e acho que a parte mais curiosa é o quão eclética a cena consegue ser.

És capaz de escolher o retrato de que mais gostas?

Eu estive a escolher os retratos para entrarem no site e foi muito doloroso. E isto vai mudando com as fases, se calhar agora respondo-te um e daqui a um tempo já será outro. Mas eu gosto muito do Devendra, muito muito muito, vi todos os concertos dele menos o de Santa Maria da Feira. E em muitas ocasiões eu podia tê-lo conhecido mas decidi sempre não entrar naquele modo groupie porque sabia que ia ser só “olá, gosto muito da tua música, tchau”, não queria nada fazer isso. E o Sérgio programou um concerto dele na Sociedade de Geografia, só o Devendra e o Andy Cabic dos Vetiver, e era uma sala maravilhosa, estive a fotografá-los enquanto eles faziam o ensaio e conheci-o ali. E depois pedi, ele super simpático, e foi a coisa mais básica, ele estava sentado numa sala horrível sem luz nenhuma, dois ou três disparos, fotografia com filme.

Agora, ao fim de 10 anos online, em que cresceste ao mesmo ritmo que muitas bandas que fotografaste, ainda sentes o mesmo entusiasmo para voltar atrás, a bandas novas que estão agora a começar?

Sinto. Há uma banda que adoro, que são os Mighty Sands, eu comecei a aparecer nos concertos e nos ensaios. O Alek Rein é meu protegido. E há imensos miúdos a fazer coisas muita giras, esta malta da Maternidade, adoro-os a todos. Gosto muito da música do Primeira Dama, mas ele [Manuel Lourenço] tinha 9 anos quando eu comecei o blog. Agora o novo EP já tem fotografias minhas, que tirei em concertos e assim. Pá, tem muito mais piada apanhar isto do início. Eu vou ter com os miúdos porque preciso da energia deles, de começar. E há muita gente que me pergunta, quando estou com esses miúdos, de 19 ou 20 anos, se eles ficam todos entusiasmados, “como é que foi estar com o Thurston Moore?”, e não, é melhor. Há uma banda, que são os Panado, e quando me conheceram, uma das primeiras perguntas que me fizeram foi se eu era amiga das Pega Monstro. A cena fixe é veres miúdos de 19 anos a quem a malta que os entusiasma, a fazer música, tem mais 4 anos que eles. Isto é muita fixe.

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