Reportagens

Filipe Catto // Maria Gadú || EDP Cool Jazz 2017

Foi com sotaque e jeito brasileiros que se fez a quarta noite do EDP Cool Jazz 2017. E assim, Filipe Catto e Maria Gadú aqueceram os frios e ventosos Jardins do Marquês de Pombal.

A noite brasileira do EDP Cool Jazz 2017 aconteceu ontem. Há muito que os sons do país irmão vão tendo lugar e espaço na  programação do Festival mais cool de Oeiras. Os dois artistas em destaque já haviam estado em Portugal algumas vezes, pelo que a surpresa, a existir, nunca seria total. Maria Gadú não é, por cá, nome desconhecido, e algumas das suas canções serão mesmo marcantes em muitos daqueles que na ventosa noite passada quiseram ir vê-la e ouvi-la aos Jardins do Marquês de Pombal. Já não teremos tanta certeza em relação ao outro nome da noite, o primeiro a entrar em palco, isto se não tivermos em conta o showcase do trio do guitarrista João Espadinha, que ao cair da tarde foi tocando, entre outros temas, alguns clássicos da MPB. Vieram mesmo a calhar, obviamente. Mas voltemos ao nome que ficou por dizer. Trata-se de Filipe Catto, e este, muito mais do que Gadú, poderá ter representado alguma surpresa aos ouvidos do público de ontem. Se assim aconteceu, não temos dúvida de que terá sido, no mínimo, bem agradável.

Filipe Catto entrou, e ao longe, para quem nunca o tivesse visto, julgaria ser uma mulher a aproximar-se do microfone. Até o tom da sua voz se pode estranhar de início. Parece Ney Matogrosso com um toque sonhador de Cazuza. Vai flertando com o público enquanto deambula pelo palco, cantando alguns dos seus temas mais conhecidos, como “Do Fundo do Coração”, canção notável e emblemática da ainda pouco extensa carreira do artista. Muito naturalmente, o grosso do repertório do espetáculo que Filipe Catto apresentou ontem tem por base o álbum Tomada, o mais recente da sua ainda curta discografia. Filipe Catto é, sobretudo, um intérprete. Isso é seguro. Assim, não foi de estranhar ter cantado uma canção que faz parte do imaginário do povo português, e que, dito pelo próprio cantor em palco, ter a certeza absoluta que será um tema importante da sua carreira. Referimo-nos a “Canção de Engate”, do eterno António Variações. A canção, como sabemos, será gravada pelo músico brasileiro no seu próximo longa duração. É, diga-se, uma excelente cover. Cantou também “Auriflama”, parceria de José Eduardo Agualusa e Thalma de Freitas. Houve samba, pop e rock com um ligeiro travo a tango, como facilmente se percebe em “Saga”, por exemplo. Tudo isto durante os 40 minutos do concerto. Filipe Catto mostrou o que todos dizem a seu respeito: é um artista a seguir com atenção, embora isso já nós soubéssemos desde Fôlego.

Foi dura a espera entre concertos, tal o vento frio que se fazia sentir e que é sempre uma certeza em várias noites do EDP Cool Jazz. Até que, às 22.45 em ponto, Maria Gadú iniciou a sua apresentação com “Obloco” (assim mesmo grafado, não se trata de gralha). Acompanhada de guitarrista, violoncelista e baterista, a cantora e compositora Mayra Corrêa Aygadoux (é esse o verdadeiro nome da artista nascida em São Paulo) foi dizendo da felicidade de voltar aos Jardins que ontem a acolheram pela segunda vez, enquanto ia desfilando alguns dos temas do seu mais recente “Guelã”. Tudo relativamente morno, até porque as canções mais conhecidas e esperadas pelo público foram guardadas mais para o o final do concerto. Até surgirem, Gadú foi mostrando a garra que lhe conhecíamos de outras apresentações, até porque o espetáculo de ontem vai já com dois anos e meio de estrada, e quase na reta final. Até que começou “Tudo Diferente” e os rostos do público foram abrindo sorrisos, parecendo próximos da melancolia sonhadora que a canção tão bem documenta. E como a noite não era virgem em covers, “Ne Me Quitte Pas” surgiu, muito distante da versão que conhecemos desde sempre na voz de Piaf, mais crua, visceral e zangada na voz da paulistana. O roteiro do concerto tem um evidente cunho político (não faltou o já clássico “Fora Temer”), mas é sobretudo orientado a favor dos direitos humanos, da diversidade, da igualdade de géneros, do desprezo pela homofobia.

A grande surpresa da noite foi a chamada ao palco de Mayra Andrade, surpreendida pela cantora brasileira enquanto dançava no meio do público. Amigas há já algum tempo, cantaram a belíssima “Dona Cila”, tudo isto no primeiro e único encore da noite. E assim, como não poderia deixar de acontecer, “Shimbalaiê” lá veio, fechando a noite fria dos Jardins do Marquês.

Maria Gadú tem procurado caminhos diversos e sonoridades novas, e aquilo a que ontem assistimos é mais uma prova dessa vontade de amadurecer buscando a diferença. Gostamos de artistas que não se acomodam, que querem dar passos em frente. Vamos esperar pelo seu próximo trabalho, que começará a ser gravado em setembro próximo, para confirmarmos que nova curva dará Maria Gadú, na esperança que seja bem atrevida e sinuosa.

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Fotografias gentilmente cedidas pela organização