Reportagens

Em Cada Esquina Um Amigo || Voz do Operário

Uma bonita homenagem a Zeca Afonso, organizada pela Produções Incêndio, que foi das cordas de nylon ao sampler, das raízes da música de intervenção do século XX à música interventiva dominante no século XXI – o hip-hop.

Manuel Seatra e António Reis (Poesia de Bolso) entravam em palco para uma plateia escassa (ainda). Batiam as 21h40 do dia 29 de Abril de 2017, muita gente ainda à porta a acabar os cigarros, a dar os últimos dedos de conversa antes do silêncio da escuta que fariam no salão da Voz do Operário, na Graça, em Lisboa. O piano de Reis, vivo e humorado, inquietava a voz de Seatra que ia vociferando textos de José Afonso, a figura que atraía toda a gente àquele espectáculo.

Seguiu-se-lhes Jorge Barata, cantautor amador que sem medo se fez ouvir nas quatro paredes da sala, cantando “Menino do Bairro Negro” numa versão acapella seguida de, já com a guitarra eléctrica na mão, “Traz Outro Amigo Também” e “Nova”, sua original. A terceira homenagem viria com Primeira Dama, que fez um brilharete no final com B Fachada, A. P. Braga, Benjamim e Éme a juntarem-se a ele para “De não saber o que me espera”, original de Zeca Afonso. Era Éme quem pisaria o palco logo a seguir, perante um público conversador mas ainda assim recompensador – “Bué gente!”, dizia, de sorriso na cara e brilhozinho nos olhos. Foi neste cenário que tocou e cantou “Cantigas do Maio”, “Vejam Bem” e, tal como Barata, outras suas originais. No final desejou boa sorte ao próximo a pisar o palco, já que o público continuava a sobrepôr a sua voz às canções. Continuaram a vir a palco os que cantaram com Primeira Dama, sendo o seguinte Benjamim. Em formato acústico, o cantautor lisboeta trouxe-nos Zeca (“Os Índios da Meia Praia”, por exemplo) e canções suas bem sussurradas e intimistas – incluindo “Rosie”, que juntamente com A. P. Braga provocou os aplausos mais sonantes até aí.

O espaço entre cada espectador começava a diminuir, os corpos iam aquecendo com o bafo e o álcool da cerveja, a camaradagem ia-se fortalecendo. E os momentos insólitos não ficariam para trás. Após o calor suave de Benjamim, B Fachada e uma guitarra clássica ocuparam o palco para um “concerto à antiga”, com apenas um microfone colocado no chão para dar um empurrãozinho às cordas vocais e de nylon. Do Zeca, ouviu-se “As Sete Mulheres do Minho”, “Tenho Barcos Tenho Remos”, “Vampiros” e “Nefretite Não Tinha Papeira”, o público sempre aplaudindo e juntando a sua voz comunal. Contudo, continuava a ser difícil a tarefa de estar em cima do palco digladiando com o barulho que vinha do público a conversar. Foi assim que, antes de começar com “Balada do Outono”, Fachada dixit: “Eu posso cantar mais alto ou vocês podem falar mais baixo”. O concerto terminaria com “Contramão”, provavelmente a canção mais obscura e bonita de Fachada – nunca editada em disco, longe indo os tempos em que o músico a trazia ao palco. Inesperadamente, o público acompanhou-o na letra que de facto trazia a memória dos concertos à antiga de Bernardo Fachada.

Antes do colosso da noite, faltava ouvir JP Simões – perdão, Bloom. Novamente, o artista tentava reduzir o ruído do público: “Gostava de me ouvir, senão fico tão distante de mim próprio como o Álvaro de Campos”. Sem precisar da guitarra, deu voz a “Adeus ó Serra da Lapa”. Já com unhas e nylon, “Maio Maduro Maio” numa voz grave e ternurenta que deu corpo a jogos de associação de palavras em canção, “Gota d’Água” (Chico Buarque) e elogios ao génio de Zeca Afonso – levando-o da música medieval à pós-modernidade, passando por Bowie, política e magia. Houve ainda tempo para “Mariazinha” (José Mário Branco), “Samba do Grande Amor” (Chico Buarque), as suas próprias canções, “Born To Be Wild” (Steppenwolf) e, por fim, “Life On Mars” (David Bowie) a dar corpo sonoro à referência feita momentos antes.

Sem ofensa a todos os que lhe precederam, a verdadeira homenagem a Zeca fez-se com Allen Halloween. Como disse o evangelista João acerca do princípio, no final da homenagem organizada pela Produções Incêndio regressava a primazia do verbo. O hip-hop incisivo do rapper guineense começou por ser musicado com guitarra acústica e sampler, que faziam a cama para “Bandido Velho”, tal como no disco Unplugueto, e “Cobradores de Impostos”, homenagem assumida a Zeca Afonso lançada em Fevereiro passado. Ainda com a guitarra pôde ouvir-se “Livre-Arbítrio”, num concerto que à terceira música nos fazia sentir o mais perto de Zeca que já tínhamos estado a noite toda – não fosse uma guitarra acústica a dar o tom a letras mordazes e incisivas.

Com a guitarra pousada, Halloween pousou também o sampler na mesa à qual subiu o DJ, que de súbito arrancou com “Drunfos”. A coisa ficou séria, com hypeman e pratos, com a emoção e a adrenalina à flor da pele num público que sabia as letras da primeira sílaba até à última. Parecia que até aí tinha sido tudo a brincar. “Zé Maluco”, “Rap de Rua”, “SOS Mundo”, “Mary Bu”, “Marmita Boy”, “Killa Me”, “Youth” e outras cantavam a ordem do dia num concerto único e incendiário que por sorte não fez desabar o salão da Voz do Operário. Estava feita a homenagem. Zeca estaria orgulhoso.

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