Reportagens

Elton John || MEO Arena

Vesti as calças de ganga à boca de sino e rumei ao Parque das Nações. Com total conhecimento da forma como os concertos de Elton John se processam nas últimas décadas, não são para Penny Lanes e acabas por ficar a dançar sozinha o “Tiny Dancer” numa plateia à espera do “Candle In The Wind”, versão Princesa Diana. O primeiro aconteceu, o segundo, felizmente, não.

Goodbye Yellow Brick Road de 1973, o ano mais agraciado na setlist do concerto, foi o álbum mais tocado com seis músicas a ecoarem numa sala onde o som se perdia a meio durante grande parte do espetáculo, apanágio do espaço de concertos, já estamos habituados. Com Goodbye Yellow Brick Road, o cantor inglês tocou o pico da fama num álbum genial de composições quase esquizofrénicas que agradam desde públicos mais exigentes e alternativos a ouvidos mais comerciais. Um registo discográfico que nos dá “Bennie and The Jets” até aos momentos mais dançáveis da noite com “Saturday Night’s Alright For Fighting” e o emotivo “Candle In The Wind”. Foi o apogeu perfeito em 1973 que dura até aos dias de hoje mas com a penalização de nunca chegarmos a ter o prazer de ouvir um “All The Girls Love Alice”, a trágica história da prostituta lésbica de 16 anos, pois um espetáculo de Casino para um público elitista não se coaduna com os momentos mais mundanos e viscerais de Elton John. Só ficamos a perder.

A energia já não é a mesma, também não a pedimos, compreendemos. A simpatia mantém-se, a voz supera-se e a banda acompanha. Os arranjos não seguem os tempos, ou ficavam nos anos 70 ou moviam-se determinados rumo a 2016 mas pararam na pior altura dos anos 80. Mais uma vez, um ponto compreensível para o público alvo.

Por entre pérolas de alguns dos seus melhores trabalhos como Madman Across The Water ou Honky Château, Elton John ofereceu à plateia dois temas do mais recente Wonderful Crazy Night lançado em 2016, “Looking Up” e a balada previsível “A Good Heart”, talvez com a perfeita consciência de que a sua setlist não pode representar a vontade louvável de fazer nova música, apesar de irrelevante. Foi um concerto morno, de início, não obstante ter descolado com o belíssimo “Funeral For a Friend /Love Lies Bleeding” com 12 minutos e um momento ao piano que recordou os tempos das lantejoulas, do excesso, da opulência, das mudanças de ritmo e de roupa, ofuscado apenas pelo solo dispensável que incluía “Jingle Bells” e “We Wish You a Merry Christmas” que decorreu mais à frente.

Com o apoio de um vídeo Wall que disparava visuais excêntricos e cheios de cor para apoiar a banda e o ícone, foi com “Rocket Man” e com a Terra vista do espaço, a correr lá atrás numa visão extraterrestre e imaterial do que é a música, que a arte se sobrepôs. Era o Elton John, em Lisboa, a cantar uma das mais brilhantes composições de sempre. Queimei o meu fusível ali, sozinha. Que não se passe muito, muito tempo até ele voltar. Foi a última noite da Wonderful Crazy Night Tour. Que não seja a última.

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Fotos gentilmente cedidas por João Salema

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