Reportagens

Da Chick e Maceo Parker || EDP Cool Jazz 2017

Foi morna, a noite soul-funk de ontem. Maceo Parker, o cabeça de cartaz, veio acompanhado de grandes músicos, mas para nós não voou tão alto como gostaríamos.

Ao terceiro dia, a soul e o funk invadiram os espaços verdes dos Jardins do Marquês de Pombal. A diversidade do cartaz do EDP Cool Jazz deste ano, se olharmos para os concertos dos dias anteriores, é notória e não acontece por acaso. Já assim foi nas edições passadas, pelo que se percebe ser uma aposta na continuidade, digamos assim. Os nomes de ontem testemunhavam a força duradoura dos estilos em destaque, misturando gerações e nacionalidades. Uma voz recente do soul-funk português e um veterano norte americano com caminho feito há décadas, muitas vezes acompanhando outros grandes nomes da música desse mesmo género. Falamos de Da Chick e do saxofonista-cantor Maceo Parker. Apresentações feitas, e antes de avançarmos para o que realmente importa, uma nota para o showcase do dia. Também neste caso era o saxofone a sobressair. A tocá-lo, Jéssica Pina. Junto à zona onde se pode comer e beber (a hora do jantar a isso obriga) foi muito agradável ouvir o terceto liderado pela jovem saxofonista. Vários clássicos tocados, incluindo-se neles, um tema do norte americano que quase duas horas depois entraria em palco.

Antes disso, e à hora marcada, Da Chick teve o palco todo para si. O funk juvenil e atrevido, cheio de adrenalina da menina Teresa Sousa entrou a toda a força, como aliás sempre costuma acontecer nos seus concertos. Fazer a primeira parte de Maceo Parker deve trazer algum nervoso miudinho, sobretudo quando foi a própria que disse tratar-se de alguém que fez parte da sua formação. Compreende-se, mas não se notou qualquer tremideira. Da Chick assumiu o seu espetáculo, prometendo que as cadeiras da plateia à sua frente, cedo deixariam de ter préstimo ao longo da sua apresentação. E bem se esforçou a rapariga, sobretudo quando tocou “Do The Clap”, canção com eletricidade suficiente para que se concretizasse o que o tema pede. No entanto, apesar de alguns excessivos bordões utilizados (“do some noise”, “Da Chick is in da house”, “let’s party” ou “how are you feelin’?”) a verdade é que levou a água ao seu moinho, pondo quase toda a gente a dançar. “Eu também quero que o Maceo venha, mas para já vai ter de ouvir isto”, e lá continuou apresentando a banda e dando depois fim ao concerto com mais um tema cheio de soul. Foi assim o espetáculo  da “mamma funk”, como os seus próprios músicos a apelidam.

A noite estava demasiadamente fresca para tão grande interregno entre concertos, pelo que se a cerveja se servisse morna, teria sido o ideal. Sempre ajudaria a suportar melhor a noite de verão que foi tudo menos quente. Até que, às 22:40, Maceo Parker foi anunciado e chamado ao palco. Curiosamente, a entrada dos músicos deu-se por chamada, digamos assim. Um a um, lá entraram todos, com especial aplauso “for the most sexiest saxophone player in the world, mister Maceo Parker!” Longo tema de entrada, com principal destaque para o baixista Rodney “Skeet” Curtis. Cada nota tocada parecia um tiro em tom certeiro. De seguida, Maceo Parker explicou a diferença entre jazz e aquilo que ele a sua banda tocam. Brincalhão com as palavras, lá foi mostrando que, no fundo, “it’s all about love”, e isso é o mais importante de tudo. Lembrou, depois de uma demorada conversa,  que James Brown dizia sempre “make it funky, make it funky”, que é o que Maceo ainda hoje afirma fazer. E assim foi all night long.

No entanto, e para sermos absolutamente honestos com o que vimos, os primeiros quarenta minutos do concerto serviram mais para que se percebesse o virtuosismo de cada um dos músicos (havendo até um longo período em que apenas esteve em palco o guitarrista Bruno Speight) do que para a festa esperada. Entusiasmante, do ponto de vista técnico, sem dúvida, mas faltou sempre mais alguma chama, mais alguma magia, e por isso o voo swingante de Maceo Parker não se elevou tanto como seria de esperar. Nem mesmo depois da hora inicial. Talvez tenha sido a prova (mais uma) de que quando quem está em palco parece mais centrado nos seus superlativos dotes, nem sempre se consegue realizar um espetáculo que chegue ao público, mesmo lembrando e tocando temas de monstros como Marvin Gaye. No entanto, quando o saxofone se lhe cola à boca, é outro luxo, sem dúvida, mas aconteceu pouco.

Daí que tenhamos de dizer: mister Maceo Parker, o enorme respeito que temos pela sua história, esse não saiu beliscado, mas queríamos um concerto mais próximo de nós. Os pedestais são para deuses distantes e, no caso, estivemos a poucos metros de si. A versão de “Stand By Me” cantada por Darliene Parker, prima da vedeta americana, quase parecia ter sentido irónico. É bem verdade que houve interação connosco, mas terá falhado o repertório. Certamente que, metendo a rodar, nos próximos dias, os seus discos mais intensos, nos vai conseguir fazer sorrir de encantamento uma vez mais. Mas ontem, só conseguimos esboçar um contido esgar de felicidade.

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Fotografias gentilmente cedidas pela organização