Reportagens

Rodrigo y Gabriela // Márcia || EDP Cool Jazz 2017

Foi em grande a primeira noite do EDP Cool Jazz 2017. Cantos suaves e instrumentais diabólicos nos Jardins do Marquês de Pombal. Três nomes bastaram: Márcia e Rodrigo y Gabriela.

As honras de abertura do EDP Cool Jazz deste ano couberam a Márcia, uma das mais bonitas e requintadas personalidades femininas da música portuguesa destes nossos tempos. Sem qualquer necessidade de apresentação, a compositora e cantora que bem conhecemos de temas como “A Pele que Há em Mim”, “Deixa-me Ir” ou “A Insatisfação”, apresentou-se com o embalo do costume. É tudo tranquilo na sua voz. Tudo encantatório, até. Em Márcia, tudo é verdade e sentimento. Foi ao segundo tema que o público começou, timidamente, a despertar. A referida insatisfação deixou toda a plateia satisfeita, como seria de esperar.

Uma das coisas que Márcia não descura, nem descurou nunca, é o conteúdo do que canta, as letras das suas canções. Isso, por si mesmo, é um trunfo que nem todos podem apresentar na hora da verdade. Como se não bastasse esse atributo, a cantora de dá-nos ainda outras coisas. Coerência de estilo, maturidade composicional, elegância tímbrica. Boas canções, no fundo. E é delas, como bem sabemos, que precisamos para a vida nos parecer melhor.

A noite foi correndo a favor da cantora, também ela serena e dócil, sem os ventos que muitas vezes percorrem, endiabrados, os cada vez mais bonitos Jardins do Marquês de Pombal. E assim, quase sem percebermos que o tempo passa mesmo quando não queríamos que passasse, o concerto foi ganhando corpo e chegando ao fim, devagar, quase como se não nos quisesse deixar… A penúltima canção foi uma versão de “Luka”. Sim, essa mesmo, a que vive no “second floor” das nossas cabeças desde que Suzanne Vega nos contou a terrível história que a letra nos confessa. Márcia gostaria de lha ter podido mostrar, há três anos, quando nestes mesmos jardins partilhou a noite com a nova iorquina. Não conseguiu. Mostrou-a ontem. Tivemos nós a sorte que Vega não teve.

Depois de um breve intervalo, chegara a hora de Rodrigo y Gabriela, a dupla mexicana que prometia incendiar o resto da noite de Oeiras. O que ninguém estava à espera, julgamos nós, é que Gabriela viesse de pé partido (foi o que depreendemos ter acontecido, e mais tarde soubemos que foi isso mesmo que sucedeu, há coisa de três semanas) obrigando-a a apresentar-se de cadeira de rodas. Mas as mãos e os braços estavam em condições. Menos mal.

A dupla toca enormidades, e estão tremendamente rodados no que fazem. Terminaram ontem a turné americana e europeia, aliás. As guitarras acústicas de ambos são, ao mesmo tempo, instrumentos de cordas e de percussão, e o dinamismo que delas conseguem tirar é impressionante. As almas mexicana, cigana e andaluza parece que residem no interior dos instrumentos. Mas também a pegada rock, agressiva e pujante, é arrebatadora. Quase nos atropela, quase nos deixa sem fôlego, tal o ritmo imposto pelo par. O trabalho de luzes e as projeções de imagens na enorme tela atrás de Rodrigo y Gabriela são de grande importância para o resultado final do que se passa em palco. Gabriela, num momento de breve pausa entre temas, disse-nos que éramos, enquanto público, muito civilizados, mas que podíamos, se assim quiséssemos, “bailar y quitar la ropa”. A noite, como já dissemos, estava ótima, mas não somos um povo de exageros. Coisas de europeus, que nem sempre os hemisferianos do sul conseguem compreender…

Entretanto, um problema técnico com as colunas de palco (havia algum delay entre elas, facto explicado pelo próprio Rodrigo) obrigou a uma interrupção na prestação da dupla. Não terá sido fatal, mas cortou um pouco o impacto do que vínhamos assistindo. Quinze minutos depois, voltavam para dar continuação ao espetáculo. O momento maior foi quando Rodrigo y Gabriela tocaram “Take Five” do saudoso Dave Brubeck. Mesmo sem o piano do mestre do jazz e sem o saxofone de Paul Desmond, o clássico soou maravilhosamente bem. Foi mesmo muito bonito. Depois voltou a avalanche torrencial de ritmo e melodia e foi assim até ao fim, acabando o público a bailar em frente ao palco, mas sem nunca se despirem. Meia vontade de Gabriela foi-lhe concedida, portanto. Partirão para o México com a alma cheia. Nós regressámos a casa da mesma forma.

Foi este o retrato da primeira noite da edição 2017 do EDP Cool Jazz. Hoje há novo concerto duplo: Rita RedShoes abre para os The Pretenders. A festa vai ser seguramente boa!

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Fotografias gentilmente cedidas pela organização