Reportagens

EA Live || Coliseu dos Recreios

O Coliseu dos Recreios embebeu-se de música portuguesa e a inspiração colheu-se das melhores castas.

A 30 de Maio viveu-se em Lisboa um fast festival com tudo o que de bom e de mau isto acarreta. Ao palco da imponente sala subiram Allen Halloween, Luís Severo, You Can’t Win, Charlie Brown, Samuel Úria, Linda Martini, Mão Morta, The Legendary Tigerman, e o Encore Project, criado em exclusivo para o EA Live. A promessa seria de 8 horas de música intercaladas com entrevistas diretamente do backstage.
As portas abriram às 17 horas e o primeiro concerto, encabeçado por Allen Halloween, começou uma hora depois. Juntamente com a Kriminal Família, o rapper de Odivelas atuou como se de um Coliseu à pinha se tratasse, ainda que confessasse não ser o seu grande sonho pisar aquele palco. Por mais que o recinto permanecesse espaçoso, sentia-se o peso da claque que ali se concentrava. E assim se puxaram umas quantas
vidas à realidade durante 45 minutos ou se atiraram para o submundo, não se sabe muito bem.

Pontualidade britânica para o namoro que seria Luís Severo, uma guitarra e um piano. Em toda a sua simplicidade elevada por 2 holofotes passeou da Alameda à Penha de França e deixou umas quantas caras melancólicas que não ousaram dar meia volta para não perderem o lugar. O músico confessou que esta atuação fugia um pouco daquilo que seria esta turné “porque os outros são com mais gente, somos mais aqui, e depois vou pra estúdio para novo álbum”, e, de facto, era tudo o que precisávamos ouvir. Entre todo o desconforto aparentemente cómodo que é cantar para o microfone da guitarra, colocou-nos à vontade naquele lugar que parecia a sua sala de estar. E entre partilhas, confessou-se ainda especialmente comovido para aquela atuação quando antes de entrar naquele palco, por entre cortinas, viu os pais. E são estas partilhas que se refletem naquilo que é a música sem prazos de validade. Nunca fica tudo igual depois de se ouvir Luis Severo.

E quem se seguia podia facilmente comparar-se a Grizzly Bear, Over The Ocean ou Fleet Foxes, não fossem eles tão próprios, cimentados e donos de si: You Can’t Win, Charlie Brown. Entre bamboleios, guitarra oscilante, vozes que se conjugam e explodem em uníssono, num folk que nem o chega a ser, a sensibilidade pop que não se espera, em loops carregados de experimentação, desconstruídos. Foi assim que apresentaram 45 minutos daquilo que são a um Coliseu que se mostrou curioso e recetivo. Mas o ambiente etéreo propaga a fluidez de músicas como “Pro Procrastinator”, e nessa partilha fechava-se o capitulo mais gracioso daquela maratona de concertos.

Era a vez do melhor colarinho de Lisboa subir a palco. E é rosa de cheiro? É rosa de gládio? Botão de betão? Não, não. É Samuel Úria, e fez-se acompanhar por uma banda que vai do coro às castanholas, e logo aí soubemos que qualquer coisa poderia acontecer. O respeitável tondelense pisou aquele linóleo com toda a sola que tem nas botas, e num gospel meio rock meio sei lá o quê, foi certeiro. Um Coliseu bem composto que se mostrava de maxilar no chão com “Os Lábios De Amália” diretamente sugados da “Molly’s Lips” dos Vaselines. Com toda a ginga oscilou umas quantas ancas presentes no EA Live com “É Preciso Que Eu Diminua”. Terminava os seus 40 minutos ao cantar-nos que é neo-retro-redneck, e quando esperávamos o twist merecido dessa Teimoso este não aconteceu, dados os ilusórios revolveres de timings que lhe apontavam, ainda que estes não tivessem as contas bem feitas.

Vinte e duas horas e Cláudia, André, Hélio e Pedro mostravam-se enquanto encaixe perfeito entre o soltar, desprender, queimar e deixar arder. Linda Martini com a cabeça no céu e os pés bem assentes na terra fazem-nos crer que arrepios na espinha é coisa corriqueira. Sinfonias de gritos, e a prova da tal melodia etérea que não se cospe. Era olhar para o lado e ver umas quantas caras a tocarem no céu sem sequer subirem a um banco. A capacidade que têm em cortar a respiração de quem os ouve é de uma paixão própria de quem dorme com as palavras. “Caretano”, “Unicórnio de Santa Engrácia”, “Amor Combate”, são palavras em que eles pegaram, pisaram, dobraram, desarticularam, até elas se contorcerem, e finalmente darem-lhes a essência que é Linda Martini, a ânsia musical cortante, babélica e que com o arranjo exato faz fechar os olhos a quem pensa nunca os ter aberto. Deixam limpinho o conceito de música: perfurar os limites que não existem e passá-los para sons. Vêm além do que é padrão, e conquistam mesmo quem não se quer deixar. No Coliseu foi só ver, pelos nossos próprios olhos.

Mão Morta bateu à porta, mas esta já estava aberta. Um dos pontos mais altos do rock nacional amassou aquela plateia e de que forma. Eles são, sem dúvida, aqueles contra quem os nossos pais nos avisaram. Três décadas a acrescentar algo ao panorama de música nacional, e a criar uma base de culto dificilmente ofuscada por outras bandas portuguesas. A celebrarem os 25 anos do álbum Mutantes S21, os bracarenses toldaram aço. Adolfo Luxúria Canibal entre metamorfoses várias mostra-nos que não se é respeitável pelo simples facto de se ser. Aum entoou-se de braços hirtos. A densa “Pássaros a Esvoaçar” continua a ganhar pela sua extraordinária singularidade e faceta mais contemporânea da banda. Adolfo não era de todo Adolfo se esta curta atuação de 45 minutos não implicasse um bom crowdsurfing pois até ao lavar dos cestos é vindima. O final ficava à nossa mercê, e era “Bofia” que queríamos. E arrematava assim naquele grito angustiantemente prazeroso raso ao chão. Tal como nós.

O Coliseu, ainda que sem boca, quase que se dava por knocked out, mas mal pensava ele a enxurrada de rock’n’roll que The Legendary Tigerman traria consigo. E se pudermos chamar as coisas pelos nomes dizemos que o que se passou durante aqueles 45 minutos foi uma autêntica manifestação eruptiva e estonteante da verdadeira cena rock. É um facto que o público já estava quente após a atuação dos Mão Morta? É. É um facto que o público ficou tórrido depois da atuação de The Legendary Tigerman? Tanto. Foi o decantar de todos os dissabores das 6 horas antecedentes. Entre duelos de saxofone e guitarra, a corrida fez-se sem direito a perder fôlego. Um enraizado rock do Memphis desceu até o EA Live, numa figura inquieta, altiva no look all white, e “Motorcycle boy”, “Dance Craze”, “Fix of Rock’n’Roll” foram alavanca direta para pés e corpos inquietos. “These Boots Are Made for Walking”, o clássico conhecido na voz de Nancy Sinatra, foi também trazido à baila, e recebido num hype único. Terminava com “Twenty First Century Rock’n’Roll”, em que Tigerman saltou grades, gritou angústias, andou pelo meio do público, enrolou cabos em torno do pescoço, mas no fim das contas este é o rock’n’roll do século XXI.

Estava bom, estava óptimo, dado por terminado, não faltasse ainda a secreta atuação do Encore Project – Ao Som dos Heróis. Basta colocar no imaginário a entrada de Rui Pregal da Cunha, vestimenta de descobridor, estendido sobre um chaise longue da forma mais megalómana possível, carregada esta por sujeitos subordinados a tal. Numa aproximação daquilo que fora a sua equipa do Red Bull Culture Clash, uma viagem ao passado que de bem conseguida tem pouco. Acompanhado por uma orquestra de palco que apesar de bem constituída, em nada acrescentava o pouco que foi aquela atuação.

Dávamos por concluídas 8 horas de música, infindáveis para quem não se dá a estas festanças, mas as suficientes para saciarem quem se dá. E tantas vezes ouvimos o slogan que a pergunta fica no ar: a inspiração bebe-se?

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Fotografias por Inês Silva

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