Reportagens

Ducktails // James Ferraro // Typhonian Highlife || Galeria Zé dos Bois

No sábado passado Typhonian Highlife, James Ferraro e Ducktails vieram mostrar os seus trabalhos mais recentes aos portugueses. A noite fez-se de improviso e do seu oposto, de sonho e pesadelo, de harmonia e de conflito.

Typhonian Highlife (Spencer Clark) entrava em palco de chinelos de enfiar, calções e camisa tropical. Quem o visse sem o ouvir poderia ficar com a ideia errada. Com as mãos nos seus dois (?) teclados, encenou um ritual de magia arrítmico durante o qual batalhava consigo mesmo através da música, num sentido mais próximo do desafio interior que do conflito. O que ouvíamos dessa luta ecoada – intitulada “Wah Wah Day Gecko Gecco” e retirada do disco Wave of Shells (2016) – soava a transmissões de alienígenas sintetizados e borbulhantes perdidas, à deriva, no espaço. Com “Nano-Zootypes In A Tenctonese Exhibition Tank”, do mesmo disco, Spencer Clark (o músico, não o actor) limpava-nos o suor do combate. O seu arsenal escondido por um pano repleto de olhos atentos mitificavam a figura caricata de Clark, que parecia ter as mãos num caldeirão invisível no qual os mais insólitos ingredientes eram misturados. Através de dissonâncias e delays de seres esvoaçando sobre nós a velocidades estonteantes, da corporização sonora de partículas e átomos, da materialização auditiva do ciclo da água, de feixes de algo etéreo produzidos por qualquer coisa indizível e incorpórea, o concerto de Typhonian Highlife levou-nos numa viagem estonteante pelo seu mais recente disco, deixando as expectativas altas para os dois concertos que lhe seguiriam.

De facto tais expectativas não viriam a ser atingidas. De James Ferraro viria um vaporwave idiossincrático, descompassado e fragmentado, imprevisível q.b. – sem os devaneios loucos (no bom sentido) de Typhonian Highlife. Abriu-nos a curiosidade para o rever, já que, presume-se, os seus concertos devem ser tão diferentes entre si da sua prolífica e variada obra editada.

Ducktails, terceiro e último ocupante do palco, trouxe à Galeria Zé dos Bois as suas canções pop oníricas, familiares e felizes, retiradas dos seus vários discos. No fundo, um vídeo feito para os fãs europeus com fotografias tiradas e compiladas pelo próprio para mostrar a sua terra de origem (New Jersey) aos menos conhecedores. Pecando pela falta de banda, ainda que as canções não perdessem a força, contando com o auxílio de instrumentais pré-gravados num pedal, a prestação de Matt Mondanile teve mais doses de simpatia do que outras qualidades que pudessem melhorar o seu concerto. Ainda assim, saímos com um sorriso na cara.

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Fotos gentilmente cedidas por Vera Marmelo