Chinese Democracy. Os milhões gastos, Slash e Buckethead enfurecidos

13 milhões de dólares gastos, 14 anos a ser feito, 3 deuses da guitarra envolvidos – e mesmo assim, um dos discos mais mal amados da discografia dos Guns ‘n’ Roses. São estes os números que  coleccionou Chinese Democracy, o sexto disco do conjunto de rock californiano. Era para ser o disco que “salvaria o rock”: os anos de espera – passados com demissões e “ditaduras de Axl”, mas também com recordações de grandes canções e concertos – aumentavam a fasquia para este disco. Viveu-se os anos 90, década da trip hop, da brit pop e do grunge, mas muitos sentiam com saudosismo os 80’s do rock movido a heroína, Jack Danielspacemakers. 

Saiu em 2008, mas já o primeiro embrião nadava em 1994, logo após os excessos punk de The Spaghetti Accident?. Já sem Izzy Strandlin e Steven Adler, os restantes membros originais Axl Rose, Slash e Duff McKagan tinham intenções de voltarem a gravar um disco histórico. Em 1995, Slash apresenta riffs e ideias que iam na direcção de Appetite For Destruction, mas Axl Rose e Duff McKagan rejeitam-nas totalmente. Entretanto, Axl muda de ideias em relação ao que ouviu de Slash, mas já era tarde: o mítico guitarrista já tinha usado todas as linhas em It’s Five O’click Somewhere, o disco de estreia dos Slash’s Snakepit, o seu projecto a solo. Tal episódio deixara Axl Rose irritado com Slash. Entre zangas e braços-de-ferro criativos, o guitarrista acabou por deixar a banda no início de 1996.

A partir daí, já sem a figura de equilíbrio de Slash, o caminho dos Guns’ moldava-se com a “ditadura” de Axl na composição, tal como relatou McKagan, que também se demitiu pouco tempo depois. Entre despedimentos e demissões, o temperamento e perfeccionismo de Rose tomavam conta do estúdio. Havia lugares vazios para preencher e grandes canções para se concluir. De todos os lugares, a guitarra de Slash era a mais sentida – especialmente nos anos 90, a década do início do fim dos guitar heroes (que, nos dias de hoje, já são escassos). Com Robin Finck, guitarrista dos Nine Inch Nails, na guitarra ritmo, Rose teve de decidir quem ocuparia a cartola de Slash: Zack Wylde, dos Black Sabbath, estava entre as opções. Mas foi mais tarde, em 1999, que Rose conheceu o virtuoso e excêntrico Buckethead, um guitarrista de culto que havia impressionado toda a gente com o seu quarto disco The Day of the Robot (1996).

Axl acabaria por ficar com Buckethead. Mascarado e com um balde de KFC na cabeça, hoje em dia Buckethead conta já com 240 discos em 24 anos – e é considerado um deus na guitarra. Na altura, apenas com estatuto de culto, tudo o que se conhecia sobre Buckethead eram as suas danças robóticas em palco, a sua mestria na guitarra (e nos pedais), que iam muito além do wah-wah de Slash, e que era um indivíduo bizarro que acumulara mitos.

Há três lendas que se destacam: a forma como Axl convencera Buckethead a juntar-se à banda, o rumor de que Buckethead era Slash mascarado, e o seu comportamento estranho durante as gravações de Chinese Democracy. Segundo John Freese, baterista da banda na altura, Axl fez o convite a Buckethead, o qual ficou com um pé atrás. Foi durante um jantar de natal que Axl, ao convidar o guitarrista a sua casa, lhe ofereceu um boneco do Leatherface – tudo aquilo que Buckethead queria. O último mito começou durante as gravações de Chinese Democracy, quando diziam as más línguas que Buckethead tinha uma gaiola gigante de galinha, onde só ele podia entrar. Nessa gaiola estava uma televisão, que passava pornografia hardcore 24/7. Mas os conspiradores iam mais longe: um dia, o cão de Axl fez cocó dentro da gaiola, Axl quis tirar e Buckethead insistiu que as fezes permanecessem lá. Uma coisa é certa: o facto de Buckethead nunca tirar a máscara, irritavam profundamente Axl Rose; e Buckethead estava irritado com a “incapacidade de Axl Rose não conseguir terminar um disco ou uma digressão”.

Naquele tempo, Axl justificava em entrevista que este disco teria de ter o cunho dos Guns N’ Roses por “ter sido um trabalho de várias pessoas”, incluído Duff e Slash. “Não é um álbum de Axl Rose, mesmo que seja algo que soe ao que eu queira”, disse Axl à Rolling Stone. O tempo passou, horas de estúdio foram desperdiçadas, milhões arderam, produtores foram despedidos – inclusive Moby -, e deuses da guitarra não aguentaram o perfeccionismo de Axl.

14 milhões depois, Axl gastou tudo e irritou deuses

Buckethead falta a um concerto no Rock In Rio Lisboa, em 2004, após sair da banda. Alx, no seu desespero, pede conselhos a Joe Satriani, que, por sua vez, lhe aconselha Ron “Bumblefoot”. De Bumblefoot, ainda passa por Dave Navarro (Jane’s Addiction, Red Hot Chilli Peppers). O tempo passava e mais faixas eram gravadas por pessoas diferentes – mas, desta vez, Axl não conseguia acompanhar o avanço tecnológico e os novos métodos de produção – “tenho de me educar a tecnologia que está prestes a redefinir o rock”, dizia na altura o célebre vocalista. A verdade é que, com tanta expectativa e vontade de corresponder, subiu à cabeça de Axl fazer um álbum que mudasse o paradigma do rock e da fusão  de géneros – algo bem compreensível no disco.

Em Novembro de 2008, Chinese Democracy é lançado. Torna-se num sucesso de vendas, com mais de 200 mil cópias vendidas na primeira semana, mas mal amada pela crítica. Enquanto a Rolling Stone considerou um disco “grandioso, variado, pensado e explosivo”, a Slant Magazine sublinha que o disco “é a realização da visão de Axl Rose, não necessariamente boa: a responsabilidade pelo sucesso ou o falhanço do disco descansa sobre os ombros do vocalista”.

Quer se odeia ou quer se ame, Chinese Democracy marcou uma caminhada importante para Axl, pois afectou a noção de banda para Axl. Buckethead é melhor que Slash, mas Slash é Guns N’ roses: afinal, o que seria dos Smiths sem Morrissey e Marr? Ou de uns Beatles sem McCartney ou Lennon?

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