Canção do dia

“De Aquí No Sales” – Rosalía

Quando Rosalía Vila lançou o seu álbum de estreia, Los Ángeles, no início de 2017 – um disco de flamenco escolástico, temperado com guitarras espanholas, canções de uma angústia sinónima do género e uma voz de trovão – ninguém poderia adivinhar que terminaria o ano seguinte com El Mal Querer. Graças à ajuda preciosa de El Guincho, que o co-produz, Rosalía fechou o ano com um disco arrebatador que cumpre a árdua missão de coligar o tormento do flamenco com o qual cresceu com a pop que o pinta com cores berrantes que não sabíamos existir na paleta. Além do feito sonoro, conseguiu criar para estes temas um lar que os preenche de significado: o de os organizar num álbum conceptual baseado livremente num romance espanhol do século XIV de autoria anónima entitulado Flamenca – um conto inacabado de um homem que se apaixona por uma mulher, endoidece de ciúmes e a fecha numa torre, condenando-a à miséria. Rosalía conta a lenda intemporal de amor, violência e tragédia pelas suas próprias palavras, com um pé na tradição e outro na modernidade.

Um dos temas que melhor ilustra o poder de Rosalía não apenas enquanto vocalista e música tanto de um género como de outro mas também como contadora de histórias (não fosse o flamenco a sua escola) é “De Aquí No Sáles”, o quarto capítulo da narrativa auditiva, aptamente também entitulado “Disputa”. Numa das canções mais desconcertantes do álbum, são os rugidos furiosos das motas e das sirenes, e não as palmas clássicas da música tradicional espanhola, que se cruzam com a voz de Rosalía, que interpreta aqui a personagem do marido ciumento, que amedronta a esposa petrificada com ameaças que infelizmente reconhecemos tão bem de romances abusivos do nosso mundo, como “isto dói-me mais a mim do que te dói a ti”, ou “com a palma da minha mão, faço-o bem claro”. Na segunda parte da canção, retoma a pele da mulher, e os seus ganidos assustados, meio humanos meio auto-tune, revelam cada vez que a mão do homem que ama se desfaz sobre ela. É uma canção petrificante, mas genial, como os melhores filmes de terror. E, se ao terminar El Mal Querer, talvez queiramos retomar à leveza de singles como “Malamente” ou “Pienso Em Tu Mirá”, não afugentaremos tão cedo da nossa memória o poder tremendo de “De Aquí No Sales”.